Livro dos Sonhos #2

[anteriormente…]

Abraçando o vazio

Ele era pequeno e dormia. Poucas imagens nos despertam mais a compaixão do que a de crianças dormindo pacificamente. Não nos interessa aqui ressaltar que a criança em questão pudesse ser classificada facilmente como adolescente pela idade. Em seus sonhos, ainda era uma criança e é isso o que nos importa. Dormia. Sonhava. Às vezes é simples assim, até que não seja mais e volte a neblina da existência. Acordou.

Foi uma sensação particularmente estranha a de acordar sem saber onde estava, um misto de desorientação e paz, pois não havia qualquer pressa em despertar, como a de quem se perde e se deixa perder ainda mais, totalmente sem rumo. Lentamente, a sonolência o deixava e ele recobrava a ciência de si, de quem era e de onde estava, no caso, sua casa; lentamente, ele lembrava que era Aluísio e que não desejava acordar. Não resistia, ainda assim, ao retorno para a vigília, não negando a si, por meio de subterfúgios (como apertar bem os olhos) a entrada para o mundo dos vivos, pois sabia, bem no fundo, que já não havia mais volta. De alguma forma, entretanto, aquele estranho torpor permaneceu gravado nele, o inexistir, o esquecer-se de si, quase como se fosse outro, em outro lugar, qualquer lugar e qualquer outro, só não era ele mesmo. Essa não-memória, cristalização de um desejo há muito secreto (talvez seja essa a definição última dos sonhos), continuou por anos e moldou seu caráter, hoje, homem adulto.

Já na noite seguinte, Aluísio buscou nas páginas de livros e revistas velhas a significação daquele estranho sonho. Sua mãe e sua vó, com quem morava, possuíam uma caixa de pertences de suas respectivas adolescências que emprestaram ao menino com vista a estabelecer alguma conexão com sua alma absolutamente reclusa e antipática. Em ambas, e agora também nele, havia em comum o interesse pelo mundo onírico que se traduzia na acumulação de diverso material sobre o assunto, desde o mais trivial, entre revistas e livros de curiosidades, até os tratados psicanalíticos mais acadêmicos. Sobre o seu sonho e, mais em particular, sobre seu desejo, não encontrou nada, seja por falha do material ou de falta de rigor em sua pesquisa, pois dificilmente um adolescente desinteressado como ele, da vida e de tudo, conseguiria ler Carl Jung.

Ou talvez eu esteja sendo duro demais comigo mesmo.

Eu não era assim completamente ignorante, nem desinteressado e tampouco antipático, ao menos não com tudo e todos. Mas é difícil não olhar para trás com certo desprezo ao ver aquilo que me tornei. Como lhes disse, sou uma pessoa particularmente negativa e, talvez, eu deixe isso afetar em demasia a minha perspectiva, especialmente a de mim mesmo.

Mas voltemos a história.

A (não tão) desinteressada criança, descontente com sua pequena investigação, decidiu então partir para a intuição, olhar para si mesmo e, sem muitas mais ferramentas que não a própria vontade, descobrir a verdade de si. Sua pergunta norteadora era a seguinte: por que desejar o vazio? Ao que lhe apareceu, logo em seguida, a seguinte indagação: seria  mesmo vazio que buscava?

Resgatando a sensação que lhe acometera na véspera, que a princípio interpretara como uma tradução do desassossego de não querer ser ninguém, ele lembrou das esperanças que guiaram sua consciência nos primeiros lampejos de sua auto percepção. Em outras palavras, antes dele perceber onde estava e quem ele era, ouve um pequeno lapso de tempo, na “terra de ninguém” entre a vigília e o sono, em que ele teve oportunidade de desejar ser, de desejar estar e querer confirmar essa expectativa ao acordar. Ainda havia desejo nele, mas, novamente, mais lhe atinava a memória do desejo, da sensação de desejar, do que a do objeto desejado propriamente, quem queria ser, onde queria estar.

A única conclusão possível que foi possível obter a partir das parcas ferramentas que o raciocínio confuso de uma criança lhe permitia foi a de que, só em sonho novamente, poderia chegar as respostas sobre seus misteriosos desejos. E, ironicamente, por tanto desejar sonhar, quase todas as noites dali pra frente foram revestidas do breu noturno, um vazio da consciência ocasionalmente preenchido por fragmentos de histórias que, tão logo acordava, se perdiam no esquecimento. Por isso que lhe interessasse, ou me interesse tanto, os sonhos lúcidos como forma de tornar ao mundo mágico onde tudo era possível, até mesmo voltar a desejar de novo.

[continua…]

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s