Livro dos Sonhos #1

A garota no telhado

O domínio dos sonhos de alguma forma me intrigava. Talvez porque eu os entendesse assim, como um território soberano de regras muito próprias onde a racionalidade valia-me sempre o degredo. Quanto mais eu tentava, quanto mais eu elaborava estratégias, mas eu me afastava de meu objetivo, obstaculizado, assim, por minha própria vontade.

Por muito tempo, por exemplo, eu li sobre os “sonhos lúcidos”, não que fosse farta a literatura utilizada, era sempre a mesma meia dúzia de artigos que reafirmavam premissas confortáveis, como a de que “a maioria das pessoas consegue” e a de que seria um “novo estágio de consciência” onde tudo era possível. Entretanto, a despeito de toda investigação e interesse, foi uma das épocas em que menos sonhei e até, posso dizer, em que menos dormi.

Com os olhos pregados no teto, lembro-me, certa vez, de me entupir de banana e complexos vitamínicos ricos em B6 que supostamente teria propriedades convenientes para sonhos lúcidos dando a estes cores vivas e enredos fantásticos. Entretanto, o fato mais marcante da noite foi o de ter de me levantar na alta madrugada e urinar colorido em jatos doloridos e entrecortados terminando em um amarelo bem vivo e constante, como um pote de ouro no fim do arco-íris. Quando penso a respeito dessa noite, ocasiona-me que o próprio urinar possa ter sido um sonho, de tanto que me atinava um comentário de um amigo nutricionista à época que fazia chacota de meus suplementos dizendo que eu só havia comprado uma urina muito cara, já que o corpo não absorvia boa parte daquilo.

Como alguém podia confundir sonho e realidade? Como sonhar com algo tão banal? A dúvida já dizia muito: eu não sabia qualquer coisa sobre o sonhar. Natural que assim fosse, as visitas ao mundo onírico representavam para mim uma atividade absolutamente esporádica e, se coloco no passado minhas impressões, de que desconhecia tanto o sonhar, não é por ter adquirido alguma sabedoria com o desenrolar dos acontecimentos, mas por ter simplesmente aberto mão de qualquer conhecimento. Sendo assim, eu não sabia sobre o assunto e queria muito aprender, hoje, eu simplesmente não me importo, ou, talvez, só me importe o suficiente para contar essa história. Genericamente sobre o meu sonhar e especificamente sobre isso que se segue.

Aconteceu quando eu havia desistido, geralmente é assim, como agora que redijo minha história após ter desistido dela. Viajava na classe executiva, trajeto São Paulo – Rio de Janeiro via Dutra para aproveitar o feriado, forçando o sono entre cabeças anônimas. Eu tinha um medo terrível da Serra das Araras (aliás, acho que ainda tenho) e preferia dormir durante esse trecho da viagem, por mais desaconselhável que seja tal prática ao viajar sozinho. O sono sem sonho era como um véu que me protegia do perigo, reais e imaginários, sendo particularmente irônico, à revelia de meus intentos, um sonho bastante vívido que tive naquela madrugada, no chacoalhar entre desconhecidos e curvas sinuosas.

Sob o sol implacável de verão eu subitamente me vi caminhando cautelosamente em cima de um telhado. O bairro era residencial, casas grandes de construção e metragem irregular, ruas paralelas e perpendiculares com espaço para apenas dois carros de cada vez. Alguns quarteirões acima, uma avenida razoavelmente movimentada contrastava com o clima pacato das proximidades da casa que servia ao meu telhado, sendo possível ouvir o som dos carros passando no mesmo volume do cantar dos pássaros, do entrar e sair das lojas e das crianças soltando pipa na rua, dando a capital paulista uma estranha harmonia entre o tempo bucólico do campo e a marcha incessante da cidade.

Naturalmente, eu não percebia que sonhava, explorando cautelosamente o terreno com medo de cair nas frágeis telhas que sustentavam o meu peso que, por uma questão de discrição, chamarei apenas de o peso de um “homem adulto”, considerável, portanto. Entre olhadelas para o piso e para frente em meu passo vacilante, avistei, de costas, sentada próxima a beirada do telhado, uma menina que não devia ter quinze anos. Seu olhar voraz perscrutava as páginas de um livro, de lado a lado, como uma máquina de escrever que batia o retorno para devorar a próxima linha.

À princípio, entretia-me o desenho do movimento de seus cabelos, sendo estes bem cacheados apertados em um coque fazendo um pompom que quicava de lado a lado, acompanhando, a cabeça, o movimento de seus olhos em sua ávida leitura. Mas gradualmente foi possível ver o que ela via, como se as palavras saltassem do papel e projetassem, a mim, cenas por meio de seus olhos atentos e sonhadores. A experiência sinestésica era intraduzível em termos simples como talvez seja a que possuímos ao ler um bom livro pela primeira vez, encarando uma página de papel puído, mas, de alguma forma, vendo muito mais. A diferença era que, nesse caso, importava-me muito menos o conteúdo das cenas, mas o que elas transmitiam a jovem e a mim, compartilhando, nós dois, cada sensação trazida pela leitura.

A imprudência tomou conta de meus atos conforme avançava a curiosidade suscitada pelo insólito de sentir pelo coração de outro, avançando, não mais pé ante pé, mas em um passo apressado em direção à jovem. Não queria tocá-la, dirigir-lhe a palavra, nem nada do gênero, apenas aproximar-me da experiência de ser outra pessoa até que meu eu se tornasse indistinguível. Esse surto de vontade, como é o costume, acabou por degenerar o sonho tornando-o cada vez mais frágil, esfumaçando-o até que se desfizesse. Em um último impulso, conforme meus pés já não tocavam mais as telhas e eu flutuava no vazio, tentei espiar a lombada do livro, ironicamente construindo a ponte para o mundo da vigília, conforme o ônibus balançava violentamente na lombada da pista e me acordava em definitivo.

Ao perceber que sonhara, não pude deixar de me sentir frustrado e hoje o peso dessa frustração é maior do que a lembrança de ternura de compartilhar os sonhos com a sonhadora que habitava em mim, nas páginas de um livro desconhecido. Acredito que eu seja uma pessoa particularmente negativa, embora não quisesse sê-lo, embora minha grande ambição fosse poder sonhar mais, ao sabor da vontade. Algumas cadeiras a frente, a conversa de um casal jovem rapidamente elucidou qualquer mistério que pudesse haver em minha projeção onírica: era a continuação do relato da moça de seu costume de subir ao telhado da casa da família para ler Machado de Assis e outros clássicos. Por mais que eu quisesse, não conseguia mais senti-la, mesmo sabendo que a garota de meus sonhos habitava o mundo real. Não era ela a fantasia, exatamente, mas querer ser outro, nem que fosse por meio dos sonhos. Apertei meus olhos até que pudesse dormir, mesmo que sem sonhos. Se não pudesse ser outro, eu desejava, ao menos, o consolo de não ser ninguém, no grande vazio da inconsciência.

[continua…]

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