Tempus Fugit

Sed fugit interea, fugit inreparabile tempus / Mas ele foge: irreversivelmente o tempo foge – VIRGÍLIO. Geórgicas 

A passagem do tempo tem sido tema recorrente de minhas reflexões desde o final da infância, dúvidas que me acometiam, uma criança peculiar (mas não muito). Em certa medida, todos nós nos colocamos a pensar sobre a matéria, sobretudo quando estamos atrasados, sentindo-o escorrer por entre os dedos no incessante marchar de ponteiros.

No meu caso, mesmo criança, incomodava-me a ideia da “boa época” passar sem que eu aproveitasse.

“Como capturar a fugidia e frágil felicidade sob o peso inexorável da passagem do tempo” – acredito que essa era a indagação que funcionava, em geral, menos de pergunta proposta, problema a ser resolvido, e muito mais de lamurioso murmuro a quem carecia de coragem para enfrentar os próprios demônios, seja por vergonha de mostra-los ao mundo ou simples covardia.

É um dos motivos pelos quais escrevo, enfrentar os meus medos, dissecando-os frios e inertes em meus parágrafos, como cadáveres parecem à mesa de um legista: inofensivos, expostos e serenos.

Comecei esse texto há mais de um mês. Tempo, infelizmente, mais que suficiente para aparta-me de tal forma de meu eu escritor que a escrita parece ofício de outra vida, tamanho o estranhamento que agora se assoma em relação às palavras. Sentir o tempo não me ajuda nem nunca me ajudou a escrever sobre ele, dominá-lo, esgotá-lo, e talvez assim conseguir alguma paz, mas quando mais sinto o seu peso, pareço distanciar-me de tudo – até de mim mesmo.

O tempo pesa e a vida me escapa, simples assim.

Tenho cá comigo meia dúzia de reflexões guardadas, não de anos, mas semanas atrás, meses atrás, e já parecem absolutamente gastas como Verdades de uma religião esquecida. A velhice sentida nos problemas de estômago, o medo da morte ao guiar pela rodovia de alta velocidade, a mortalidade percebida no definhar de meus avós, todos fragmentos que se reunidos não compõe figura alguma, nem mesmo um mosaico.

O tempo me deixou assim, completamente cindido, sem qualquer nexo ou sentido. A gramática e a sintaxe servem para enganá-los, mas não se deve esquecer que signos, por si só, não tem significado algum e talvez esse texto só sejam letras espalhadas pelo seu monitor, obra de uma alma doente, maníaca, ou meramente entediada.

Eu escreveria mais, investigaria mais, até chegar a um resposta ou conclusão satisfatória, mas sinto que não seria em absoluto sincero com a confusão que habita em mim. Já não há mais tempo para que eu continue a me perder nesse mesmo tema.

Ou talvez o problema seja haver tempo demais.

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