A Esquerda Digna

O processo de Impeachment da presidenta Dilma tem trazido à luz uma serie de questões na alta política nacional, sobretudo de memória coletiva, o imaginário nacional, que aparentavam (ou assim desejávamos) estarem concluídas. Mas infelizmente o Brasil, como costuma me dizer uma amiga, é um país muito mal resolvido – e com certeza não é para amadores.

A minha referência, antes que eu exorcize por completo aquela indecorosa sessão parlamentar que votou pela admissibilidade do processo de Impeachment destas colunas semanais, é em específico ao discurso de parlamentares sobre participantes célebres do momento histórico vivido entre 1964 e 1985, a nossa ditatura militar, aludindo, os deputados, à nomes como Marighella e Lamarca, à esquerda, e ao coronel Ustra, à direita.

Estes são nomes que não deveriam nos causar espanto ou ao menos não nos pegar de calças curtas, haja visto tamanho rebuliço nas redes sociais. Entretanto, mesmo após o relatório final da Comissão Nacional da Verdade e inúmeros trabalhos acadêmicos sobre o período, referências à ditadura militar ainda são capaz de atordoar a sociedade civil que não raramente redunda em “achismos”, transformando uma complexa matéria de memória coletiva em mera questão de opinião, como se escolher um lado, militares ou guerrilheiros, fosse o fla-flu da historiografia brasileira.

Não é o caso, pois, na humilde opinião deste historiador, assim como construir uma ponte (ou uma ciclovia) exige técnica e estudo, assim também é a reconstrução do passado.

Há, além dos desafios mais gerais da disciplina, como análise e seleção de fontes, o problema das particularidades em se estudar a história do tempo vivido, sendo mais difícil se despir de preconceitos e vivências individuais, as vezes puramente anedóticas, no estudo de um período que se tenha testemunhado e se envolvido.

Um exemplo prático disso é o deputado Jair Bolsonaro.

É óbvio que para um militar, sintonizado com a ideologia do governo, não recaíram perseguições ou censuras, sendo uma boa época para se viver, tentador sendo, portanto, indignar-se com aqueles que criticam uma que pode ter sido das fases mais prósperas de sua vida. É por isso que seus discursos podem ser usados, no máximo, como fonte primária, testemunho de quem ali viveu a ser somado ao trabalho de um historiador sério que pondere outras tantas fontes, mas como o deputado em questão não se preocupa em se distanciar da época vivida, jamais deve ser lido ao pé da letra.

Ainda assim, mesmo aos ditos historiadores sérios que estudam história distando temporalmente do evento tratado, não sendo nascidos na época aludida, podem ter ligações emocionais e ideológicas que eventualmente comprometem seu trabalho, não sendo ninguém completamente insuspeito. A linha marxista da academia vez ou outra incorre nesse erro quando romantiza a resistência ao regime militar justificando ação por intenção daqueles que lutavam e, não raramente, geravam fatalidades na linha de frente. Ou pior, tentam aglutinar toda a explicação da história recente à luta de classes, acentuando a dicotomia entre regime e resistência em burguesia e proletariado – um resumo grosseiro, haja visto o nosso complexo tecido social pós-colonial.

Entretanto, como em qualquer área do conhecimento, existem erros piores do que outros em discursos historicistas, havendo uma diferença brutal, por exemplo, em se citar, como herói, um notório torturador ou um membro de guerrilha, partindo do pressuposto de que, ainda que sejam personalidades violentas pouco compatíveis com a realidade do Estado Democrático de Direito, quem dispõe do aparelho estatal tem muito mais responsabilidade. Uma tese que deveria ser fácil de entender a quem quer julgar a presidenta justamente por um “crime de responsabilidade“.

O fundamental é ter lucidez sobre o propósito e a consequência das imagens levantadas.

Veja, eu não tenho dúvida de que no Super Trunfo da história da ditadura um Lamarca ou Marighella ganha facilmente de qualquer Ustra, mas os trabalhos do Congresso são, ou ao menos deveriam ser, muito mais complexos do que a vitória discursiva do menos pior. Afinal, a “casa do povo” é espaço de disputa, mas também de conciliação e síntese de uma projeto nacional, por meio de seus representantes.

Pessoalmente, não espero muita coisa dos setores mais reacionários da política, pois sou assumidamente de esquerda e tendo a me sentir mais representado em minha visão de mundo por deputados que se filiem às bandeiras da justiça social e da igualdade. Dessa forma, pouco mais tenho a dizer sobre quem se aproveita de um espaço democrático para exaltar torturador, aliás, faz muito bem: quanto mais mostrar sua verdadeira face, mais inelegível se tornará ao eleitorado minimamente preocupado com a segurança das instituições. Minha grande preocupação é sobre o comportamento da esquerda.

O meu apelo, correndo o risco de ser tão ridículo quanto Pondé, é por uma esquerda digna.

Meu desejo, nas próximas eleições, é poder me ver representado por um verdadeiro projeto de poder que seja, de fato, vinculado ao Estado Democrático de Direito. Citar heróis da resistência é poético, tem um certo efeito sentimental e estético, mas não deixa claro a que veio, para além dos ideais, a esquerda parlamentar. O raciocínio é simples: quisesse eu heróis da lutar armada, não os procuraria digitando números na urna, pois a Revolução não virá por decreto.

Há quem tenha medo de um possível autoritarismo em se citar esses heróis de guerrilha irrefletidamente, quando, ao meu ver o problema é muito mais simples: pura falta de projeto. E como muito bem lembrou Safatle em seu “A esquerda que não teme dizer seu nome”, este pode ser potencialmente perigoso, haja visto a vitória do Partido Comunista Italiano na década de setenta que, sem grandes alternativas, acaba por fazer a vontade do mercado financeiro em um dos ajustes fiscais mais duro de sua história.

Percebi essa falta de projeto nos comícios pro-Dilma no segundo turno aos quais me somei em 2014. O velho discurso desenvolvimentista contra o capital internacional, desatualizado há pelo menos trinta anos, preenchia os eventos assim como hoje, vez ou outra, tenta explicar o próprio Impeachment – nem preciso dizer, um erro grosseiro. Na época, marcou-me muito uma fala do prefeito Fernando Haddad no prédio da História e Geografia da Universidade de São Paulo, personalidade que eu havia comprado como um intelectual, profissional austero e mais técnico… ele também bradando contra a ingerência norteamericana no Estado brasileiro. Foi no mínimo irônico ver o mesmo anticapitalista Haddad comemorar quando a prefeitura atingiu o grau de investimento nas agência reguladoras internacionais.

O pedido aqui é simples, tudo o que eu quero é uma esquerda que se digne a dizer a que veio. Ninguém gosta de ser tratado como idiota, afinal, também eu tenho minha dignidade a preservar. A convicção de que se está do lado certo não deve mais servir de álibi pra ficar falando bobagem.

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