O Impeachment Cordial

Em tempos quase imemoriais, não tanto pela distância temporal, mas pela indisposição em se cultivar memória e história por essas paragens, a intelectualidade brasileira efervescia. Anos trinta para ser mais preciso, quando se vislumbrava o choque das mais experimentais, nativistas e modernistas expressões antropofágicas de Oswald a Villa-Lobos com a concretude de um projeto de desenvolvimento nacional modernizante engendrado na burocracia estadonovista de Getúlio, domínios que não raramente se cruzavam e retroalimentavam.

Era um verdadeira primavera para a intelectualidade brasileira, tempos ricos em discussões e transformações; tempos loucos em que ousamos olhar e pensar para nós mesmos.

Nesse contexto, a historiografia crescia com Sergio Buarque de Holanda e sua “Raízes do Brasil”, obra fundamental para o entendimento do Brasil e do brasileiro, obra em que nos deparamos pela primeira vez com a problemática do “homem cordial”, tipo social incapaz de dissociar esfera pública da privada.

A rápida retrospectiva não é vã, antes nos configura essencial para entender os últimos fatos que rondam a cena política brasileira, em especial a emblemática sessão de votação acerca da admissibilidade do processo de Impeachment pelo plenário da Câmara dos Deputados ocorrida no domingo último (17).

Holanda já denunciava, oitenta anos atrás, o equívoco constituído em entender a esfera do Estado como uma extensão da família. O problema principal seria o destes “homens cordiais”, guiados pelo coração, não entenderem e se chocarem com a impessoalidade da burocracia estatal, cedendo, por exemplo, ao “patrimonialismo”, loteando cargos que deveriam primar pelo mérito e competência a protegidos ou, como em uma expressão absolutamente brasileira, “apadrinhados políticos”.

Vale dizer, ainda: seriam homens absolutamente afáveis e receptivos no trato com amigos, mas também brutais e irascíveis no destrato com os adversários. Seja no privado ou no público.

Transtornados, eu e milhares de brasileiros assistimos à confirmação de uma tese historiográfica octogenária que já nos cai a esta altura com o grave e inexorável peso de uma sentença. Viu-se ali a discussão política inevitavelmente ceder ao emotivo com as consecutivas menções a familiares, as tantas “minhas mulheres” daqueles doutos homens, e o verter das paroxísticas lágrimas do deputado que teve a “honra” de ser o voto “sim” número 342, configurando quórum qualificado de 2/3, último prego no caixão da presidenta nessa etapa do processo.

Mencionavam, eles, novos horizontes, mas na sequência nomeavam os seus filhos e netos, patrimonializando nosso futuro; aludiam, os representantes do povo brasileiro, a um legado, não o do Estado Democrático de Direito, mas especificamente os de seus pais e avós; coléricos, regozijavam-se com a possibilidade de mudança, elencando as ofensas e desafetos de forma genérica ao brasileiro comum, como no “caos da saúde e da educação”, mas específica e nomeadamente ao seu partido, a sua pessoa ou aos seus protegidos. No meio disso tudo, raras foram as menções diretas a matéria do processo, as “pedaladas fiscais, e inexistente foi o deslumbre, mesmo que por um relance, de um real projeto alternativo de Brasil, mesmo que por essa via golpista e rasteira, entre os “homens cordiais” que votavam/bradavam “sim”.

O que se viu foi o mero rearranjo da Casa Grande que, no governo PT, ao menos vinha sendo matizada.

A intenção ao acompanhar as transmissões da votação da sessão no plenário, suposta “casa do povo”, era assumir compromisso com minha militância, firmar e fazer valer um posicionamento político diante de uma situação política, mas acabei desenganado, quase sem saída, ao me deparar com uma classe burocrática incapaz de exercer sua vocação, engendrada em uma sociedade igualmente viciada que muito provavelmente nem sequer me respeitaria como oposição política, mas meramente como desafeto pessoal.

Meu grande sonho é o de ver um Brasil que se liberte de suas raízes coloniais de brutal desigualdade e injustiça, assim como sonhou Holanda, não por acaso um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, partido de luta que se perdeu e continua a se perder pelo caminho. Em tempos sombrios, resta-me apenas reafirmar aqui minha posição contrária ao Impeachment, equivocado pela matéria e, agora e para sempre, escarnecido nos anais da história pela forma como é conduzido.

Dias melhores virão.

Um comentário em “O Impeachment Cordial

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