Sobre Mãos e Mães

Recordar. Falso cognato do verbo inglês “to record”, gravar em uma tradução literal, iludindo-nos a palavra acerca da precisão que possui a memória. Recordar, rememorar, re-ligar como um dia foi a função da religião em nos reconectar com um patrimônio imaterial de nós com nós mesmos, como eu me recordava de minha mãe e de mim mesma em minha infância, mãos ágeis no balcão, observadas tantas vezes atenta e intensamente de meus pequenos e curiosos olhos da altura de sua saia (ou avental, não saberia ao certo).

Intrigava-me profundamente a forma como mamãe fazia os vegetais desaparecerem sob seus punhos, destreza com instrumentos que eu não podia tocar, arte ou feitiço que ainda não me era permitido conhecer. Agarrada na barra de sua saia, eu me lembro de espiar qualquer detalhe que me ajudasse a desvendar o mundo adulto e entender o que afinal seria ser “mulher feita”, algo que se dizia eu iria muito em breve me tornar apertando-me as bochechas ou solicitando-me que me sentasse “como mocinha”, ao me ver largada no sofá. Desfar-me-ia (como agora ainda me desfaço) da adulação de bonequinha ou da parte de ter sempre vigiar minha postura e minhas vestes para ser mulher (direita), mas os pepinos, os pimentões e as cebolas, o brandir da lâmina e som oco da tábua de madeira, amava-os todos! Especialmente fatiados e fritos estalando no azeite ou na manteiga. “Vai brincar” ela me dizia “vai lá na sala brincar! ” ela repetia tentando me afastar, mal sabendo que minha brincadeira favorita era ser sua sombra, seguir suas canelas e ver e perguntar sobre tudo o quanto fosse possível.

Eu a amava profundamente, ainda a amo, mas a idolatrava de uma forma que hoje é difícil de descrever, um amor tão grande que respinga da infância e eclipsa o amor que sinto hoje – mas tinha também muito medo, um medo que só as crianças podem sentir: ao observar suas mãos tão ágeis fazer a tudo sumir, como que num instante, despedaçando tudo o que fosse sólido em rápidos movimentos, não tardei a concluir que se me tocassem aquelas mãos dilacerantes, em um frenesi louco, poderiam me partir em mil pedaços. Foram meses, talvez mais de ano (o tempo era diferente naquela época) em que eu tremia e recuava toda a vez em que ela me levantava com seus fortes braços e, como no instante anterior da descida de uma montanha russa ou do temido elevador, à adrenalina do perigo se seguia o regozijo de estar viva.

Mãos terríveis, misteriosas, complexas, mas mais macias e acolhedoras do que as de meu pai, de alguma forma, estas mais grossas, peludas, braços que envolvem, afagam, mas mãos de adeus. Lembro pouca coisa dele de minha infância, como das manhãs preguiçosas de domingo em que os surpreendia na cama assistindo “Formula 1” torcendo por Senna em épicas reviravoltas. Apaixonados, mesmo o ruído dos motores daquelas maquinas estranhas cortando o asfalto devia-lhes parecer música. Pouco tempo passou disso até aparecessem as caixas no corredor e as visitas programadas fim de semana sim, fim de semana não. Visitas que, como tempo, tornaram-se cada vez mais espaçadas.

A transição, ou divórcio se formos ser absolutamente diretos e brutais, deu-se rapidamente, ou assim pareceu, mas deixou marcas profundas. Foi a esse tempo que descobri que as mãos de minha mãe tinham outros talentos. Uma vez, também há muito tempo ainda em minha infância, ela me penteava e repuxava alisando meus cabelos, fazendo meus cachos sumirem com a mesma força destruidora que eu testemunhara tantas vezes no balcão da cozinha. Entretanto, senti ali, de suas mãos, algo diferente a me atingir em cheio no peito. O zelo com cada fio, a ponta de suas unhas arranhando levemente o meu couro, que eu chamaria de cafuné, não fosse a chapa quente de metal entre nós, tinham uma força hipnótica, catártica e confusa. Aquelas mãos tão fortes e verdadeiras, denunciavam em sua presença no ato mais banal e cotidiano aquilo que me faltava: as mãos daquele me acenaram a despedida e nunca voltaram por completo.

Ainda vi meu pai umas tantas vezes, ainda o vejo, ainda o amo, ainda nos abraçamos. Mas afirmar os “ainda” de nós dois só confirma a ruptura que foi a separação há mais de vinte anos atrás. Vez ou outra, vejo-me com imagens esparsas de meus pais na sala de estar aqui de casa, ele a puxando para dançar ao som da vitrola antiga entre discos do Cartola e da Madonna; suas mãos, nessas memórias que de tanto revividas parecem forjadas, pendendo inertes e frias na cintura de mamãe. Fato curioso: por mais que se divertissem nessa cena, toda vez que eu a revivo, tenho vontade de manda-lo soltar, como se fosse necessário divorciar-se também em lembrança.

Hoje, muitas dessas questões parecem banais, como rancor que por tanto tempo guardei de meu pai ou o medo que um dia tive de minha mãe; hoje, sei que eles são de carne e osso, passíveis dos mesmos erros e acertos, vícios e virtudes, que tanto perfizeram a minha curta trajetória até aqui. Mas, ainda assim, ao ver minha mãe adormecida no sofá com sua mão suspensa no ar, bem cuidada, mas já marcada pela idade com as veias pulsantes em razão da gravidade, não consigo ver apenas seus dedos ou somar em seu conjunto pele, carne e ossos, é, de alguma forma muito mais do que isso. Mãos que despedaçam, mas também constroem e afagam, mãos que nunca me disseram e nunca me dirão adeus. Nessas ocasiões não posso deixar de beijar sua mão, desejar bons sonhos e agradecer silenciosamente por tudo o que me ensinou sobre a vida, sobre mãos e sobre mães.

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