Injustificável

[atualizado em 05/04/2016 para inserção de imagens e correções no texto]

Ah, o Impeachment! Nada mais se fala em relação a política nacional, ou não sem ao menos tangenciar o assunto, dito que os trabalhos do Congresso encontram-se emperrados até a solução do imbroglio. O executivo então, nem se fala! Não dá um passo sem ter de tecer uma defesa jurídica, política e moral em todos os atos e aparições públicas. Eu mesmo, tendo já me debruçado sobre o assunto nesse espaço, acabo por me voltar mais uma vez a esse drama institucional autenticamente brasileiro.

jabuticaba-fruits-brazil-160232-h
Lutar contra a corrupção com ajuda de corruptos, mais brasileiro que isso só nossa jabuticaba. [crédito da imagem: Flickr de mauroguarandi]
Aos que não se lembram, ou simplesmente não conhecem minha opinião, sou contrário a abertura do processo, nunca escondi isso e não preciso receber bolsa do PT ou coisa do gênero para emitir juízo da questão. Contrário pela matéria, o suposto crime de responsabilidade, e pela forma, um rito julgado por personalidades mais que suspeitas, não conseguindo ver nada de bom saindo dessa iniciativa.

Entretanto, há indícios suficientes, além de uma coalização muito bem organizada (e não se enganem, o Impeachment é muito mais político do que jurídico), para movimentar o processo. As tais pedaladas fiscais, recurso comum ao executivo para disfarçar déficits públicos (comum, nem por isso menos imoral), aparentam realmente terem procedido. Duvido um pouco que venha a se julgar com tamanho rigor questões fiscais daqui pra frente, mas vá lá, este ateu promete simular um pouco de fé e rogar aos céus por coerência, restando então perguntar: impedida a presidenta, o que será o Brasil daqui pra frente? Terá um processo conduzido por corruptos (e conduzindo corruptos ao poder) valido a pena?

Se está sem tempo, o título do texto é uma pista da resposta a essa indagação. Todas as premissas que cercam o Impeachment estão erradas. Poderia florear, mas as vezes é melhor simplesmente ser direto. Vale esclarecer ainda mais: não falo tanto do processo, pois como eu disse, há algum subsídio para ação, mas do Impeachment como bandeira política e mobilização social. Pelo menos as mais comuns, não duvidando eu (totalmente) de opiniões contrárias às minhas, não podendo deixar de notar, entretanto, uma certa palidez dos projetos de Brasil que cercam os principais atores pro-impeachment.

O outro lado também é absolutamente problemático, pois por mais que haja apoio popular, carregar governo por meio de manifestação tocada por grupos governistas não ganha disputa política desde João Goulart… e, aliás, nem para ele funcionou muito bem. Sem falar que as centrais sindicais cooptadas pelo PT estão longe serem as melhores defensoras do Estado Democrático de Direito. Mas os erros dos pro-governo, ainda assim, não esmaecem a miopia dos “golpistas”.

São basicamente dois cegos em um tiroteio. E na duvida, enfim, é melhor permanecer no lugar.

arizona_cowboy_Drip_10521_h
Cegos e desorientados, perseguem espectros e sombras, duelando com o vazio de seus discursos [crédito da imagem: Kevin Walsh]

Há algo de profundamente errado em acreditar com tanto afinco e depreender tamanha vontade e força política, seja parlamentar ou dos movimentos organizados nas ruas, para uma bandeira tão inócua. Com uma acusação mutante, típica dos Estados de exceção autoritários, tenta-se mirar as supostas principais lideranças da corrupção e/ou má gestão da coisa pública dos últimos anos. Para Dilma, ficam as pedaladas, para Lula, o triplex… ou o sítio… ou o barquinho, ou o que mais estiver na capa da Veja. É muito claro que se parte dos acusados para então montar a acusação, o crime, e qualquer um que questione a mecânica corre o risco de ouvir a anedota cínica de que Al Capone, notório mafioso da Chicago da Lei Seca dos anos vinte, foi pego por sonegação de impostos.

A diferença é que, ao contrário do gangster, ninguém tem medo de delatar Lula ou Dilma, aliás, todos adorariam imensamente fazê-lo. Mas, aparentemente, não tem muito o que se delatar. Para Dilma então, nenhuma vírgula. Quem aparece nas delações, curiosamente (mas não muito) é justamente quem conduz a abertura do processo de Impeachment, o presidente da câmara, Eduardo Cunha.

A comparação com o crime organizado aqui não é vã. A inspiração do juiz Sergio Moro, herói da cruzada moral nacional que mira Lula e, em última instância, Dilma, tem justamente inspiração na Operação Mãos Limpas, responsável por desbaratar uma complexa rede de corrupção envolvendo a máfia e altos escalões do governo, na Itália. Ainda que pareça um desvio do tópico, é inevitável liga-los aqui, sendo o processo contra Lula praticamente uma balisa moral dos pro-impeachment, uma espécie de prova cabal de que o PT orquestrou o fim do Brasil – ou algo do gênero.

O problema é que esse tipo de cruzada moral é, além de suspeitíssima caso não tenha amplos poderes e julgue, de fato, todas as forças político-partidárias, também ineficaz. Observe-se que a Itália, tendo passado por penoso processo de expurgo que atingiu em cheio os partidos mais populares do governo de todas as alas, acabou por produzir sutil variação no Índice de Percepção de Corrupção, ao longo dos anos. Sendo a Itália pouco superior ao Brasil no ranking (61 e 76, respectivamente).

berlusconi-italy-portaaporta-437517-l
Um brinde do papi a inocência dos que querem “limpar” o Brasil! [crédito da imagem: Flickr de CiuPix :: Resitance]

A causa disso é que moralizar o discurso, querer salvar a política pelo resgate de valores demonizando palavras como “ideologia” e mesmo condenando a política partidária, acaba por dar espaço para aventureiros, os tais políticos diferentes “nem de esquerda, nem direita” que falam a língua do povo que “cansou de tudo isso que aí está”. Na Itália eles tiveram um Silvio Berlusconi (foto) e por aqui, nem precisamos ir tão longe para ver o tamanho do problema, elegemos o digníssimo “caçador de marajás” Fernando Collor. Lideres carismáticos com mais ambição pessoal do que projeto político, propriamente.

Veja, ambição não é problema, a questão é não saber o que fazer com ela! Os pudicos que me perdoem, mas incompetência é pior do que corrupção.

E, aparentemente, nenhuma das forças disputantes do trono de ferro brasileiro parecem ter um autêntico projeto nacional, ao menos não um que difira em gênero, número e grau da presidenta. O “ponte para o futuro” de Michel Temer, apesar de consistente, é um grandessíssimo golpe, pois de futurista o PMDB, seu partido, não tem nada. Não há projeto de Brasil que resista a partilha regional dos caciques peemedebistas.

Os desafiantes para eleição presidencial em um possível “recall” (alternativa para impedir o impedimento aventada pelo governo) são ainda mais patéticos. Escolheríamos entre o ministro-não-ministro da casa civil governando o país por comício, o playboy de Copacabana sem qualquer visão de Brasil e a terceira via acovardada da ex-seringueira que parece mais Setúbal do que Mendes.

É rir pra não chorar.

Afora isso ainda acrescente-se a total desconfiança que eu e boa parte dos brasileiros temos com os outros dois poderes que julgarão o Executivo. Entre um Legislativo sem qualquer legitimidade (por vezes tão ou mais impopular que a presidenta e certamente mais corrupto)  e um Judiciário acovardado que parece interpretar a Constituição lendo relatório do Ibope, eu não vejo com que autoridade estes poderiam julgar a presidenta.

De tudo exposto, o que extraio é a urgência pelo abandono das bandeiras santas e consequente cancelamento das cruzadas morais e políticas. O Brasil não precisa de heróis, nem de Moros e Deus nos livre de outro Collor! Imperativa é a construção de um projeto nacional minimamente coerente de reforma política e econômica, sempre baseado nos preceitos do Estado Democrático de Direito. O problema é que falar disso é tão complicado que o mais tentador é permanecer entre o #naovaitergolpe e #foradilma. Então fiquemos, esperemos, pra não dizer que sou “isentão” até me posicionei aqui (sou contrário), mas quando chegarmos no fundo do poço ou, pior ainda, se nada mudar, só não digam que eu não avisei.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s