Tempo

Tempo, força inexorável, invisível e, por vezes, ininteligível. Como passadas. De um Relógio. Que não para. Tic. Tac. Tempo: misterioso, complexo e absolutamente enfadonho, também sendo o referencial utilizado para medir o atraso daquela que já contava meia volta do ponteiro maior em meu relógio de pulso em demora, além de incontáveis bocejos.

A porta de meu quarto só se abriu as 16h47 dando espaço a uma figura totalmente esbaforida, brilhando ao sol de fim de tarde que atingia em cheio o cômodo através da varanda aberta. O suor reluzente escorria nítida e preguiçosamente pelos braços descobertos. Era minha namorada.

 – Está um calor terrível lá fora! – Disse-me, ao descer a mochila pesada que lhe castigava os ombros e exaltava a respiração para me dar um beijo. Já fazia algumas horas, aguardava-lhe ansiosamente deitado em minha cama, embora nossos planos não-planos consistissem tão somente em desfrutar de uma tarde preguiçosa de sábado fazendo vários nadas. Minha ansiedade, por tudo e por nada, a deixava perplexa, às vezes.

De minha cama, onde permaneci deitado de lado, eu a encarava, trabalhando em minha escrivaninha. Ela parecia sempre ocupada ou buscando ocupação, isso desde que eu a conhecera, dificilmente tendo eu a encontrado encarando o vazio como tantas vezes eu fazia (e vinha fazendo na última hora). O senso de propósito de suas ações era algo a se invejar e respeitar. Talvez, fosse eu outro, sentisse-me atropelar por seu ânimo toda vez que ela me embalasse em seus sonhos e planos.

Olhando-a digitando ferozmente no meu notebook e futucar o celular, vez ou outra, eu pensava em meu antigo eu, o sorumbático adolescente de dezesseis anos com tantas certezas e medos nas costas que eu fora um dia. Certamente ele sairia correndo intimidado e horrorizado com o candor e a fúria presente na amada, da ponta dos dedos que se contorciam embaixo da mesa, passando pelo peito que arfava pelo calor indecente, muito mal contido pelo ventilador do teto, chegando a indisciplina de seus cachos.

Os dedos voavam no teclado produzindo um ruído inquietante enquanto uma gota solitária de suor escorria pelo seu braço esquerdo, lentamente. Cenas assim, bem como as sensações que elas me despertavam, intrigavam-me profundamente. O amor propagandeado nos filmes e series que tive contato desde pequeno dava-me duas orientações possíveis (contraditórias, vale dizer) de como eu deveria me sentir. Fosse eu um apaixonado de filme romântico, deveria me enternecer por cada gesto da amada; fosse eu um acomodado da sitcon mais escrachada e típica, deveria me irritar e me envolver em alguma espécie de conflito silencioso sem sentido. Mas, de alguma forma, nada disso estava certo.

– O que foi?  – Perguntou-me inquieta, um pouco séria. Acredito que devo tê-la encarado por tempo demais, seja lá qual fosse a medida. Essa era uma lição difícil entender o tempo de tal modo que até mesmo um olhar precise ter significado. Meus gestos, ao contrário dos dela, eram em geral vazios e sem significado. Pensar nisso me doía.

– O que foi?  – Inquietou-se ainda mais ela, ao perceber minha tristeza progredindo geometricamente. Nessas horas, restava-me lhe contar uma história, disfarçar um pouco o vazio com o substrato de meus devaneios.

– O seu suor

– O que tem ele? Está incomodado?

– Nada, só estava olhando as gotinhas escorrendo. É engraçado sabe?

– Não, eu não sei…

– Eu só fico me lembrando do pessoal do metro e do trem, eu me enfiando neles um tanto quanto horrorizado quando meu braço esbarra no braço descoberto de alguém, completamente suado. Sei lá, acaba com meu dia.

– Tô acabando com seu dia, é?

– Não, não! Pelo contrário, quer dizer, não que você esteja salvando meu dia, exatamente, né…

– Tá, eu vou no banheiro me lavar.

Enquanto ela se levantava, eu só podia lamentar. Ainda que ela não fosse do tipo sensível que fosse se condoer por minhas estranhezas, eu odiava ser mal compreendido e não pude completar meu pensamento. Pior ainda era a perspectiva de que ela voltasse e pedisse que eu me explicasse melhor. Minha vontade era só dormir, mas eu estava completamente sem sono.

Eu ainda reorganizava meus pensamentos quando ela voltou, aninhando-se a mim, na cama. Seus seios pressionando minhas costas, alternando conforto e incômodo conforme a pressão de seu abraço variava ao me envolver ternamente em seus afagos. Era nítido que não estava sentida ou magoada, apenas tentava me agradar, misturando ao odor marcante de seu suor algumas notas de sabonete e perfume. Eu só queria lhe dizer que nada daquilo me incomodava e que a história toda do suor era um devaneio sem sentido, mas me contentei em desfrutar de seu silêncio.

– Vai me dizer o que era? – insistiu ela em seu tom inquisitorial/doce inconfundível.

– Não era nada, ou melhor, era aquilo que lhe disse, ideias tortas sobre o suor das pessoas.

– Sei, o suor então lhe entristece? – redarguiu em tom de brincadeira.

– Eu pensava no tempo, em como ele muda as pessoas, mais precisamente – disse aliviado por dar forma à nevoa difusa de minhas ilações.

– Nós mudamos um bocado!

– De certo que eu mudei.

– E eu não?

Ela parecia indignada, quase insultada, pelo não reconhecimento que eu tive de sua mudança (qualquer que fosse). Como me dissera uma vez um professor de história, há um perigo conceitual que cerca as coisas que consideramos óbvias. Nossa preguiça em defini-las pode ocultar graves desconhecimentos. Durante os anos em que tivemos juntos creio não ter tido suficiente preocupação em mapear suas mudanças e menos ainda de defini-la e redefini-la a cada passo, sua presença e seu amor, de certa forma se tornaram “óbvios” demais para isso. Ela mudara, certamente, mas por mais que eu reconhecesse, não sabia exatamente onde.

– Sim, você mudou – disse quase por reflexo.

O seu silêncio subsequente parecia denotar satisfação com a minha resposta, por mais que vacilante e incerta, continuando eu em marcha com meus questionamentos. Porque era tão difícil descortinar as suas mudanças? Porque em minhas memórias ela parecia ainda, em essência, a mesma? Seria eu, de tal forma egocêntrico, que não seria capaz de reconhecer nenhuma transformação fora de mim?

Deixei que a angústia tomasse conta de mim por alguns instantes até me tranquilizar com os espasmos dos dedos que pendiam em minha cintura: ela dormia tranquila, estava tudo bem. Enquanto o sono vinha a galope, cerrei meus olhos e me diverti com a imagem, misto de memórias e imaginação, que eu criara de minha namorada chegando coberta de suor, derretendo como um sorvete revelando diversas camadas de si até chegar a seu núcleo. Em todas elas, ainda era a mesma de certa forma. Suas cruezas, suas gargalhadas ensandecidas e uma perspicácia e ternura fora desse mundo. A chave de tudo, medida de todas as coisas, de nós e do mundo, de fora e de dentro, era o tempo, eu logo percebera. E ainda que as mudanças de minha amada permanecessem incertas e nebulosas, quem quer que tivesse sido e quem quer que venha a se tornar, no calor de seu abraço eu só podia amá-la mergulhando lentamente na eternidade da terra dos sonhos.

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