Sophia

Manhazinha de domingo e a composição já castigava os trilhos, tremelicando em cada engate, embalando os passageiros, enquanto eu resistia bravamente ao sono. Em meu colo, Sophia, entretanto, dormia como que enfeitiçada pelo cavalgar ritmado e sonoro da carruagem de aço cortando a cidade. A noite havia sido proveitosa, como atestavam meus pés doloridos de tanto dançar e o sono pesado de minha companheira, completamente exausta, mas satisfeita e serena, ainda que repousasse de mal jeito em meu colo ossudo.

Entre a Paulista e a República eu alisava os seus cabelos, lenta e preguiçosamente, aproveitando os minutos antes de levantar e ter de acorda-la para a baldeação. Sophia, tal qual estava, imersa na mais completa paz, contradizia enormemente toda a ideia que tinha de si mesma e que procurava entregar ao mundo. Nós-de-fada já se formavam em suas pontas enquanto eu, gentilmente, desenredava os fios, esforçando-me para não acordá-la, destecendo também seus pensamentos para que dormisse tranquila. Sempre que possível, lembrava-me eu ao massagear seu couro, Sophia procurava passar a imagem de durona, combativa, de quem não baixava a guarda e não dormia no ponto, embora eu nunca a tivesse visto completamente dessa forma. Como uma provocação silenciosa, decidi que passaríamos a República para chegar a Luz e então voltar, no mesmo vagão, para ganhar alguns segundo a mais com ela e poder dizer, quando acordasse, que havia perdido a estação dormindo.

Isso já tinha dois anos.

Quase todas as manhãs eu me lembrava dessa cena entre a Paulista e a República indo para o trabalho pela linha amarela do metrô, seus cabelos entre meus dedos fluindo como música em uma sinestésica lembrança de todos os tons de Sophia sonhadora, em meu colo. Não lembrava tão bem de nossa espera até a abertura das catracas entre as três e cinco da manhã, nem tampouco da discussão que tivemos ao pegar a linha vermelha, era tudo névoa, eram todas sombras, sendo difícil, quando não impossível, recordar de uma palavra sequer que minha ex-namorada houvesse dito naquele fatídico dia. Apeguei-me, assim, ao seu silêncio.

Era mais uma manhã preguiçosa de terça-feira quando eu me punha a pensar novamente em Sophia ou a, antes, temer a sua lembrança conforme passava as estações entre o Butantã e a Paulista, fosse na asfixia de Pinheiros, passando logo à misericórdia dos últimos centímetros ocupados em Faria Lima ou até no vazio e angústia de Fradique, atos corriqueiros que me embotavam os sentidos no sufoco de lembranças do desassossego, afogando-me lentamente no mar de gente.

A fantasmagoria da publicidade invasiva dos túneis, de imagens epiléticas e vibrantes de um mundo estranho aos zumbis enlatados da composição, servia de prelúdio para a visita do fantasma de relacionamentos passados que logo viria, fatalmente, quando chegássemos em Consolação/Paulista. Não eram poucas as vezes em que eu me atrasava para o serviço por pegar o caminho mais comprido evitando o malfadado trecho desviando pela linha verde e tornando a subir na linha azul para chegar em São Bento, meu destino final. Mas naquele dia, eu não tinha esse tempo a minha disposição.

Eu contei as cabeças enquanto os passageiros trocavam de lugar em Paulista, tentando distrair os pensamentos da melodia dourada e tenra dos cabelos de Sophia. A tentativa era um esforço cômico para me sentir menos sufocada caso houvesse mais passageiros saindo do que entrando. Contei dois a menos e sentindo assim um certo alivio no peito.

A minha tranquilidade, entretanto, tão longo estabelecida, já se abalou por um dos passageiros que parecia me olhar incomoda e obsessivamente, olhares perfurantes de julgamento e desprezo tal qual nos olhavam a eu e Sophia quando nos beijávamos muito longe do centro expandido (ou perto de uma igreja). Seria o comprimento da saia? Seria a profundidade do decote? Não era preciso muito para uma mulher provocar aquele olhar de (in)desejo e despertença, duas então? Nem se fala! A solidão, nesse sentido, nos favorecia, pois apenas contávamos como o desprezo uma d’outra e não do mundo inteiro – aliás, estaria sozinha Sophia?

Ao perguntar-me o indizível – e impensável, área proibida – de onde estaria e a quem olharia Sophia, percebi que o grande incômodo do olhar do estranho residia menos em seu portador e mais em seu instrumento de observação: seus olhos, tão pequeninos e pretos, feito duas jabuticabas – como os de Sophia.

Tal ideia me fez enrolar os cachos compulsivamente enquanto deslizava e machucava o dedo nervosamente na tela trincada do celular, duas mãos livres tal qual estava compactada na multidão, mesmo no balançar violento entre as estações da Memória e da Saudade. Doía-me olhar o olhar do sujeito e mais ainda ter de evita-lo, ter de sentir medo… ter de, até em meus devaneios, imaginar Sophia dormindo para não encarar a sua despedida.

Nosso término, um adeus travestido de “até logo”, consistira no tempo que ela pediu após as consecutivas tentativas de lidar com meu desejo, seja na saudade das que vieram antes dela ou na ansiedade por aquelas que (nunca) viriam depois. Em cada crise, preferi toma-la por louca, ciumenta, possessiva… e não poder encará-la, dois anos depois, seja em minhas próprias memórias ou nos olhos de um estranho, era sintoma grave de meu equivoco e arrependimento.

Desejando que aquilo tudo passasse, num rompante de fúria e desassossego, atravessei a composição e desci em República, fui a caça daquele que tão insistentemente me observava para, através de seus olhos, comunicar a Sophia de meus sonhos tudo aquilo que eu havia guardado. Consegui tocar seu braço pouco antes da escada rolante, ainda na plataforma.

– Com licença, sei que parece loucura, mas eu…

– Sim! Não tem problema, eu te reconheci também. Augusta do Tinder, não é?

– Ai, merda… deixa pra lá, moço, tchau!

Saudade, tristeza, arrependimento e então vergonha: enterrando minha cabeça entre os joelhos, eu me sentei recostada a uma coluna em um dos poucos espaços vagos da estação movimentada. As lágrimas corriam pelo meu rosto como não em muito tempo, lágrimas essas que não caíram a época de nossa briga ou em qualquer outra, como se eu subitamente caísse em mim e vivesse o presente de toda a minha solidão, sem mais a melodia dos cabelos de Sophia – era tudo falso, miragens de um passado que nunca existiu.

Como último castigo visando forçar as derradeiras lágrimas antes de me encaminhar ao trabalho, eu encarei o seu contato no aplicativo de conversa do celular, ainda guardava o histórico muito embora houvesse ela me bloqueado há tempos. Buscando ver a foto genérica padrão, encarei a foto de uma pelúcia de preguiça, presente que eu havia dado a Sophia de aniversário.

Online. Digitando…

– Jantar no sábado, lugar de sempre as 18h? Preciso muito falar com você. Sei que é repentino, mas, enfim, me avise se puder.

Meu coração, quase explodindo no peito, gritava “SIM!“ “SIM!”, mas eu só consegui responder:

– Ok.

Ao me levantar, ainda trêmula de surpresa e ansiedade com o que houvera acontecido e com o que estava por vir, percebi-me lentamente de volta a mim: os mesmos medos, as mesmas inseguranças e o mesmo rancor por brigas há muito resolvidas. Era natural, pois eu era a mesma apesar ou até por tudo, uma experiência de vida que só reforçou minhas teimosias em querer o mundo inteiro e, ainda assim, não estar disposta a abrir mão de nada. Jurei a mim, sobriamente ao entrar novamente nos trilhos, de meus pensamentos e da composição do metrô em direção a Luz, que não devanearia com nosso retorno e nem me adiantaria nas preocupações acerca das vicissitudes da vida à dois (ou à duas), mas não podia deixar de abrir um sorriso conforme alisava novamente os cabelos de Sophia, em minhas memórias, e a via agora lentamente abrir os olhos para me perguntar:

– Já estamos chegando?

– Daqui a pouco, amor, daqui a pouco…

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