Aquele que movimenta o silêncio

Um fato sobre mim que eu não guardo muito segredo, mas que ainda assim me dá um certa preguiça social de compartilhar, é a minha experiência com a psicanalise. Durou quase uma década, confesso-lhes sem arrependimento ou amargor, constituindo-se de doloroso e valoroso processo de autoconhecimento, usando da palavra como remédio amargo, confrontando-me constantemente com meu reflexo na pessoa do analista.

Só ali foi possível enunciar meus medos, colocar o terror em palavras, onde antes só havia medo e confusão. Como modo de interpretar minhas angústias, por exemplo, criei uma simbologia própria chamando às minhas inquietações mais terríveis e irracionais de “demônios”, criaturas disformes e cruéis que me machucavam e sangravam, somatizando angústias, criando sintomas no corpo fazendo-me ignorar a fome o asseio, por exemplo, nos dias mais difíceis; auxiliando os primeiros haveriam ainda os “fantasmas”, experiências traumáticas que ecoavam no presente me limitando e prendendo a um mesmo ciclo de ações.

Ressalte-se, entretanto, não ser necessária, no âmbito psicanalítico, a criação de tantas alegorias para explicar algo que poderia ser resumido em meia dúzia de palavras. É muito mais um traço de minha personalidade, um tino para a escrita (prolixa) que se desenredou entre as sessões e o blog que eu alimentava na época. As vezes a resposta vinha em apenas uma frase, uma confissão, há tempos ensaiada, mas não dita ou repetida até perder o sentido. Como em, por exemplo:

“Eu crio silêncios”

E ali estava, sintetizada em três palavras, a fonte de boa parte de minhas ansiedades, imbuindo-me de tal culpa que nem a Deus recai, como por fazer a sombra ao criar a luz, o mal pelo bem, acusação que nenhum deísta lhe fará: a culpa da falta, a minha e dos outros. Ou, laconicamente se preferir, eu me julgava de tal forma desinteressante e banal que me martirizava longamente por todo diálogo pouco satisfatório e silêncios constrangedores.

Um bom tempo se passou até que eu percebesse o quanto estava enganado, talvez por ignorância, eu que conhecia tão pouco do mundo, ou até por conveniência, escondendo-me no medo para não ter que me expor às contrariedades (dito que nem sempre é que vamos ser aplaudidos). Demorado, mas libertador, ainda assim, tendo encontrado a minha voz sobretudo nas páginas dos blogs e textos diversos que me arrisco a escrever desde 2008 (ou até antes, de modo mais fragmentado), um reforço solitário de que eu tinha algo, sim, a dizer, de que eu fazia palavra e não silêncio.

A maior de minhas contradições se manifestou conforme eu buscava essa voz interior, sendo no mínimo insólito o destino desse tímido que morria de medo de manter uma conversa com conhecidos que via todos os dias, de repente se tornar um professor. “De repente”, aliás, é forçar um pouco a barra, talvez como recurso dramático para a narrativa: foram quatro anos e meio de formação na faculdade e mais uma sofrida primeira experiência profissional longe da sala de aula – o caminho foi longo e tortuoso. Eu só pareço à principio fora do lugar, mas estou exatamente onde escolhi estar.

São dois anos completos na docência e se pensei em desistir alguma vez não durava mais do que um dia. A verdade é que em parte me sinto sequestrado pela minha “vocação”, pois parece-me que não saberia fazer (bem) qualquer outra coisa, tamanha a minha aptidão para trabalhar com educação. Eu penso em empregos regulares como os bruxos do universo Harry Potter pensam nos indivíduos sem magia, os trouxas – as vezes com a curiosidade de um Arthur Wesley… mas por outras com um desprezo e ranço de um Draco Malfoy.

A sala de aula ou, de forma um pouco mais ampla, a escola é apenas sombra do que algum dia fora em matéria de influência e importância. Nem depositário cultural, muito menos espaço doutrinário de normas de conduta, a escola não tem monopólio (nem prioridade) de qualquer área do saber, sendo nosso moral absolutamente baixo para estimular ou exigir qualquer coisa do alunado. Mas a despeito desses significantes sociais todos, só o fato das pessoas frequentarem aquele espaço, permite algumas peculiaridades.

São caminhos que se cruzam que, de outra forma, jamais se cruzariam.

Eu me proponho a, todos os dias, subir naquele púlpito, riscar a lousa e, usando a minha disciplina como cartão de visitas, permitir-me conhecê-los e deixar que eles, ali do outro lado, me conheçam também. A escola, mesmo com todos os seus problemas, ainda é o espaço que encurta as distâncias, diminui os abismos entre as pessoas, ou, e aí podemos dialogar com o tema desse texto, movimenta os silêncios.

O processo de cura na psicanálise muitas vezes mexe com os símbolos, como eu lhes contei aqui sobre demônios e fantasmas, sejam aqueles para descrever a nós mesmos ou entender o mundo que nos cerca. E eu só pude me ver verdadeiramente transformado quando parei de enxergar no espelho um produtor de silêncios para descobrir-me como aquele que o movimenta, descortina e, por fim liberta.

O professor tem essa função, tirar o aluno de um ciclo retroalimentado de influências que o mantém inerte, apresentar novas referências movendo o silêncio de tudo aquilo que ele não conhece, mas se ilude achando que não quer ou não pode aprender. Minha postura é o que se poderia chamar de teatral… ou simplesmente escandalosa, sendo quase obsceno o tanto que gosto de tomar a palavra para mim e expor meu conhecimento, minha voz, da forma mais atraente e clara possível. É ainda passível de crítica a eficácia pedagógica do método e até certo ponto egoísta transformar a relação professor aluno em uma busca pessoal de autoconhecimento, mas é o que me mantem vivo em um ambiente muitas vezes hostil e insustentável, permeado de violência e descaso.

No fundo, sei que sou só mais uma peça no moedor de carne que se tornou o sistema educacional público (não que o privado seja lá essas coisas também…), mas minha relação com o saber, de extremo amor e zelo, talvez instigue aqueles que ainda suspeitam do seu poder transformar em si, ou o famoso “professor, pra que eu preciso aprender isso?”. E furtando-me do já muito manjado “pra passar no vestibular” eu poderia de maneira austera e clara, pensando em minha experiência e em tudo o que vejo no cotidiano escolar, responder:

Para mover os silêncios.

Um comentário em “Aquele que movimenta o silêncio

  1. Ótima reflexão (especialmente por conta das referências a Harry Potter :P). Continue movimentando silêncios, acho que falo por todos nós que te acompanhamos que é um prazer ver sua evolução e saber da sua superação como professor e como ser humano. Muito orgulho, piá.🙂

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s