Nesta epóca do ano…

Fossem outros tempos, estaríamos todos centrados nas notas do último bimestre, fazendo as contas de quais notas se precisa para fechar o quinto conceito, no caso dos alunos; ou de quantas horas a menos de sono para corrigir provas finais e recuperações, no caso dos professores;

Em anos normais, ainda, capaz que estivéssemos já deixando de comparecer, principalmente os alunos “virtualmente” aprovados, esvaziando gradualmente a escola, envolvendo os corredores em um longo e preguiçoso bocejo onde antes habitavam passos ruidosos, cumprimentos e toques de mão indecifráveis e o sofrido arrastar de carteiras e mesas para atividades em dupla.

Seria o período também das epifanias, da tentativa de se dar um sentido a tudo, pra dizer que sobreviver ao ano não foi um esforço em vão (ainda que muito provavelmente tivesse sido), naquele impulso de querer sentimentalizar a narrativa da escola “grande família”, como se rumássemos todos juntos em perfeita harmonia – sem pensar em direção a quê.

Nos tempos pré-ocupação, dezembro era, assim, o mês das despedidas, do tapinha nas costas e um “parabéns” sem muito sentido, do anoitecer de dias que amanhecem iguais, logo em seguida, como se nada tivesse acontecido.

Mas felizmente quebramos o ciclo e já não somos os mesmos.

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crédito da imagem: Danilo Ramos/RBA

 

O fim de ano, dessa vez, agora e para sempre, não terá mais em si a promessa frustrada de renovação, pois de fato mudamos, propusemo-nos a pensar no que deu errado e então fizemos algo a respeito, tendo os alunos, nesse movimento, o protagonismo, soçobrando a vaidade (minha inclusive) de quem achava que com eles nada ou pouco tinha a aprender.

E aprendemos (ao menos a maioria de nós)

Aprendemos, por exemplo, que a escola é mais do que notas e índices, que somos mais do que números e também que adolescentes podem ter mais maturidade emocional do que muita gente supostamente crescida. Na ocupação, estou certo, aprenderam os alunos, pela força das circunstâncias, que a verdadeira convivência começa quando temos de lidar com quem não gostamos e/ou concordamos – exercício último de cidadania – sobriedade que não se tem visto por aí, infelizmente.

De certo que há ainda aqueles que vendo a história acontecer, que assistindo as transformações profundas operadas no cotidiano escolar, pela primeira vez como não em muito tempo um espaço de transformação e de cultura, ainda se preocupem com nota, reposição… ou prestígio, no que pensarão de nós aqueles que nunca ligaram de fato para o que acontece dentro de uma escola. Em meio a turbulenta mudança, há sempre os covardes que temem o futuro com suas raízes fincadas no passado.

Mas, em pleno dezembro, a escola está ocupada; as avenidas estão ocupadas; o espaço público está ocupado; o nosso coração, após lento e desgastante inverno, nesta deliciosa época do ano, também está ocupado.

E nada será como antes.

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