Diário de Greve #9

O Retorno (última entrada deste diário)

Como o tempo passa! Já são duas semanas desde meu regresso, por volta de 48 aulas e incontáveis sentimentos, palavras proferidas ou contidas, impressões acerca dos significados de se voltar a rotina depois de quase três meses de greve. Mas, ainda assim, para passar a régua, assimilar a experiência e dizer que acabou, de alguma forma, é ainda preciso escrever.

A tentativa é atribuir um sentido ao que passou, ao confuso e ao contraditório. Agridoce, feliz e triste, como um samba, sinteticamente é assim que eu definiria o que é o meu regresso.
Fico feliz por voltar ao que sei fazer, algo que me deixa a vontade, meu lugar no mundo, a sala de aula; triste pelo fracasso da greve diante de dissenções internas da esquerda sectária, mas também principalmente pela postura autoritária e cínica do Governo do Estado.

É de revirar o estômago.

Não suporto essa sensação de estar falando sozinho, como quando eu estudo para preparar uma aula interessante e o aluno abaixa a cabeça e dorme, de adolescente essa postura é até relevável, mas do poder público, da sociedade… a indiferença mata.

Todo santo dia eu me sinto vergar como uma barra de ferro sob a ação de uma força descendente constante. A cada vez que eu ouço de “colegas” que quem é professor é porque aceitou as condições, que tudo tava lá no edital ao tempo do concurso, ou mesmo que eu tenho de mudar de profissão, que eu sou jovem, que dá tempo, e por mais que esses últimos falem no melhor de suas atenções (ao estilo, “foge, Bino, é uma cilada”), morre uma partezinha dentro de mim.

Eu sou um bom professor, sinto que posso ser ótimo se persistir, mas…

A sensação geral, depois de juntar essas impressões todas acerca de minha escolha, é a de que eu me formei para uma profissão que não existe mais ou que, se existe, é irrelevante. Quase como se minhas habilidades, por mais sofisticadas, apuradas e notáveis que sejam, fossem tão úteis quanto as de um vendedor de enciclopédias na era Wikipedia.

Resultado disso é acordar cedo, animado pra trabalhar, e ir dormir tarde depois de enviar não sei quantos currículos. Já com metade do gás no dia seguinte e assim por diante.

Pode parecer banal, mas o prestígio é algo fundamental para mim e a docência, ainda mais na rede pública paulista, está completamente desprestigiada. Eu não quero confete, não preciso de aplausos todo dia pra acordar pra trabalhar, só um pouco mais de dignidade já bastava.

E mais e mais vou me convencendo: não é no Estado e talvez nem mesmo na sala de aula, qualquer que seja, que eu vou encontrar. A greve acabou, voltei, sim, mas até quando?

Aos meus alunos, perdoem-me a tristeza, não transmitirei amargura na sala de aula, é só um desabafo, prometo; aos colegas professores, mas aos parceiros de verdade, perdão pela franqueza, sei que muitas vezes pensam meu bem ao me aconselhar – eu só precisava desabafar.

E hoje estou assim, confuso e contraditório, agridoce, feliz e triste, como um samba.

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