Diário de Greve #8

Saudade, Solidão e Desespero

As questões que aponto hoje são de âmbito sentimental, individuais na medida em que são tiradas de meu íntimo, mas solidárias, coletivas, no ponto em que suscitarem a empatia naqueles que ao meu lado escolheram seguir o caminho do idealismo e da luta, a trilha dos que não se conformam e apoiam a greve como forma de mobilização.

Já se passou mais de um mês desde que me afastei da sala de aula sem ainda qualquer perspectiva de retorno, considerando o andar daquilo que, com muito esforço, poder-se-iam chamar de “negociações”. Decisão de muito custo e sofrimento. Custo real, objetivo, no corte do ponto que mesmo declarado ilegal pelo Judiciário, afronta grave ao direito de greve, é executado pelo Governo do Estado; sofrimento inexorável, subjetivo, naquilo que a minha ausência, não só aos outros, mas também diante de mim mesmo, provoca-me.

Sim, a ausência do professor Luis não se refere somente aos meus alunos que tem um impacto direto em aulas vagas, mas também ao sujeito que traja a máscara, que veste o personagem e, ao afastar-se da sua atividade social, descaracteriza-se, pouco a pouco perdendo-se de si mesmo. Em outras palavras, e é duro dizer, sinto-me menos professor a cada dia que passa. Quem leciona sabe, o diploma nada diz até que se entre na sala, pois a docência se constitui na prática. E sem a prática, o que sobra?

Respondo:

Resta isso, um texto no facebook, conhecimento inamovível, estéril, sem qualquer possibilidade transformadora que é o mais autêntico impulso do verdadeiro saber. Toda a minha eloquência torna-se futilidade, adereço, elogio discreto daqueles que me dizem que falo ou escrevo “bem”, malabarismos sintático-gramáticos aprendidos e replicados ao longo dos anos. Sem a docência, a verdade é que sobra um Luís tão chato e pedante que me deprime olhar para o espelho. O meu talento, o meu carisma, sem uma missão social que o guie torna-se um fardo, frustração pura por não ser capaz de fazer tudo aquilo que sei ser.

Eu sou professor ou, antes disso, quero ser todo o professor que posso ser. Será que essa é uma ambição tão absurda assim?!

Justo que o leitor se pergunte então porque, no meio de tanta paixão e sofrimento, aparentemente auto direcionado, eu não simplesmente largue a greve e volte para a amada sala de aula. Não é tão simples. A verdade é que, mesmo lá, era difícil dizer que eu fosse professor. Em muitas vezes, e para parte significativa da classe, para um aluno que seja já seria muito, eu era mais um agente de violência do Estado do que qualquer outra coisa. Gritar com alunos, humilhá-los para extrair alguma “ordem”, dar notas absolutamente fictícias, nivelando por baixo e tratando a todos como idiotas, está longe de se constituir parte do magistério. Não deveria ao menos, não sou daqueles que repetem como ovelhas o velho mantra de que “essa geração é impossível”, porque eu também sou “Y” e cheguei aqui e me recuso a acreditar que seja só por iniciativa individual.

Foi pelas oportunidades que tive.

Estudei em escola particular e quando o professor gritava era um marco, não rotina. Minha classe pouco passava dos trinta alunos e meus professores tinham uma relação de alunos e turmas, suspeito, muito menores do que a minha. E esses pequenos detalhes fazem toda a diferença. Meus colegas, eu incluso, eram tão ou mais preguiçosos que meus alunos, mas sempre havia a preocupação de uma outra abordagem sem querer sacrificar, no discurso uma geração inteira. Que sociedade que tem chance tendo tanto medo de seus jovens? De seu futuro?!

Meus professores sabiam meu nome, conheciam meus pais, muitos deles me viram crescer, praticamente. Foi assim que me tornei alguém, não um número, tendo profissionais que não precisaram recorrer ao preconceito como meio de sobrevivência.

A cada vez mais alta rotatividade de professores na rede estadual, entre contratados que vem e vão e as aposentadorias e exonerações de profissionais completamente exauridos, impedem qualquer relação minimamente humanizada. Os heróis que ficam ainda tentam manter traços dessa íntima parceria, mas tendo de dar 9, 10, 15 aulas por dia para compor a renda de suas famílias, é absolutamente contestável a profundidade dessa relação, por mais profissional que se seja. Para cada rosto, para cada futuro que se protege e se guarda, perdem-se às centenas outros tantos anônimos.

Já escrevi uma vez e repito novamente: não existe educação pela metade, um projeto que só prime pelos “esforçados”, adolescente não raramente não tem ideia do que quer e é parte do trabalho ajudar que eles descubram, provoca-los, mostrar perspectivas novas, tocar na ferida mesmo, se necessário, mas sempre com humanidade e respeito. Quem trabalha com jovens sabe que é uma experiência única. Na falta de expressão melhor, é impossível não sair “pilhado” de uma sala de aula, por pior que seja seu andamento, você absorve a energia deles, uma vontade explosiva de querer conhecer o mundo e a si próprios. O tédio é só uma máscara.

Claro, não é todo aluno que vá “vingar” na mais sueca das educações, a alma humana tem esse teor de imponderável e imprevisível – é o que nos torna únicos. Mas será que, entregando tantos e tantas às trevas da indiferença do poder público em escolas sucateadas com profissionais desvalorizados temos nós, sociedade paulista, a autoridade e a legitimidade para julgar, com tamanha violência e assertividade (como se tem feito), as escolhas de nossos jovens?

Só de falar, indagar sobre o futuro da educação, já me adoece. Sinto-me como os personagens de Albert Camus em A Peste, isolados, em quarentena na cidade separados de seus amados por um trem que nunca regressa. O autor magistralmente tece a trajetória de um sentimento de falta que se esmaece na ausência de perspectiva até, por fim, perder o sentido. Talvez meus alunos sintam o mesmo, passada a saudade ou até mesmo o ressentimento, naqueles que discordam da greve e se sentem abandonados, logo cede-se a normalidade, ao vazio, a indiferença, nessa interminável espera, não só pelo regresso dos professores em greve mas também, e aí muito mais importante, por uma educação pública, democrática, inclusiva e de qualidade, ainda inédita nessas paragens.

Quero voltar antes que os laços se percam, quero que o Governo volva seu olhar para os esquecidos por tantos anos, nós professores e eles alunos, antes que seja tarde. Antes que seja normal, antes que vire hábito, sacrificar o futuro por mesquinharias do presente.

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