Diário de Greve #7

Guerra de Números

Muito se diz acerca dos números envolvidos nas reivindicações pautadas pela greve dos professores, principalmente em torno da campanha salarial que pede aumento de 75,33%, equiparando o professor aos demais profissionais com formação superior. Sem negociar, o Governo do Estado insiste no argumento de sua política de valorização dos últimos quatro anos, que acumularam 45% de aumento – quem afinal, está com a razão?

Ora, já é de amplo conhecimento a irônica definição de que “a estatística é a arte de torturar os números até que eles confessem”, do que se extrai que não há nada de óbvio e nem uma verdade absoluta em torno dos caminhos dessa negociação. Ao Governo, interessa gastar o mínimo possível e aos professores, evidentemente, forçar a melhora de seus salários – questões morais e éticas à parte – o que me torna uma parte diretamente interessada, mas não me impede de refletir sobre a questão cabendo ao leitor acatar ou não, criticamente, minhas conclusões.

O exercício se faz pertinente porque este professor insistiu, sabe-se lá por qual motivo, em fazer toda a sua carreira tendo o Governo do Estado como empregador. Sim, desde meu estágio pelo Arquivo Público, passando pela minha primeira experiência profissional, Oficial Administrativo em uma Diretoria de Ensino, até agora meu posto como Professor de História, foram todas experiências sob a égide do Estado. Começando o estágio em fins de 2010, término da gestão José Serra e, seu vice Alberto Goldman, quando o primeiro se lança a candidatura à presidência, e adiante sempre com Geraldo Alckimin no mais alto posto da administração da qual fiz parte toda minha carreira, creio que vivência me torna apto para ao menos comentar a gestão salarial tucana.

Propus-me, para tanto, a uma dolorosa pesquisa de somar tudo o que já ganhei em vencimentos (bolsa de estágio, salário, férias, décimos terceiros, o tal “maior bônus da história”…), excetuando auxílio transporte e alimentação que são custos operacionais, até o momento da redação desse texto para termos comparativos. Foram 13 meses de estágio do Arquivo Público, 9 meses como Oficial Administrativo na Diretoria de Ensino e, até agora, 13 meses como Professor de História em uma escola estadual – perfazendo 35 meses, por volta de três anos, de trajetória profissional.

E quanto será que deu essa conta?

Aproximadamente R$ 40.000. Parece muito, não é? Ainda mais considerando que estou em início de carreira, mas é bom lembrar que esse é o valor bruto, sem descontar a contribuição para o INSS ou mesmo o que tive de gastar para complementar o auxílio transporte e a alimentação, quando não tive tempo de ir para casa almoçar ou jantar e nessa custosa decisão de optar pelo transporte individual afim de poupar tempo. Mas pensemos em termos práticos, o que poderia ser feito desse dinheiro?

Eu sou formado na Universidade de São Paulo, uma universidade pública e gratuita, mas nem todo mundo tem essa oportunidade. Imagine que eu me formasse pagando uma instituição de qualidade semelhante como a PUC, por exemplo. Pesquisando rapidamente na internet me deparei com o valor de semestralidade, ao ano de 2014, em R$ 8.371,56 para o curso de História (Licenciatura), sendo oito semestres de curso teríamos um valor de R$ 66.972,48. Ou seja, pressupondo um empréstimo SUPER amigável, SEM JUROS, eu nem sequer teria pago minha formação a esta altura!

Mas continuemos, ainda no âmbito das suposições, afinal existe o PROUNI e o FIES (ambos do Governo Federal, vale lembrar) e, mesmo se minha família não tivesse condições de me ajudar, haveria alguma chance de eu sobreviver às mensalidades.

O que de patrimônio é possível consolidar com R$ 40.000? Um carro talvez, popular e em parcelas com juros e sem entrada, é claro, mas sem dinheiro pra gasolina ou seguro; Uma casa? Nem de perto! Quando muito o aluguel e dividindo despesas… Aliás, será que, sem toda a ajuda que tive dos meus pais, seria possível guardar alguma coisa do que ganhei em uma cidade tão dispendiosa como São Paulo? Difícil…

Mas tudo bem, talvez seja assim o jeito “certo”, ir de muleta financeira até os trinta anos, tenho boa relação com meus pais e creio que eles podem me aturar até lá, a coisa só fica obscena mesmo quando a gente começa a comparar com outras realidades salariais, como a do nosso governador, por exemplo…

No começo do ano, o novo salário do governador, após aprovado reajuste feito pela Assembléia Legislativa da alta administração, ficou em R$ 21.631. Vale lembrar também que o Palácio dos Bandeirantes, além de sede do Governo do Estado, é residência oficial também contando o mandatário do cargo com veículos patrocinados pelo erário público, entre carros e até mesmo helicóptero. Do que se extrai: esse digníssimo senhor provavelmente não tem NENHUMA despesa e conserva integralmente seus vencimentos.

Uma conta fácil pode lhe mostrar que em dois meses, peguemos fevereiro e março após chancelado o aumento, Geraldo Alckmin já ganhou o equivalente a toda a minha carreira, 35 meses de trabalho, e, em meio a uma sociedade capitalista em que seu valor é mediado pelo quanto você ganha, isso é particularmente significativo e deve ser repensado.

O Estado de São Paulo é a unidade da federação que mais arrecada, tem o fortíssimo ICMS que você vai encontrar em quase todo cupom fiscal (28% do preço da gasolina, que tanta gente reclama) e. mesmo assim, aparentemente não foi o suficiente para contemplar a minha trajetória profissional de maneira verdadeiramente digna ou, pelo menos, com perspectiva de melhora. Acho importante e valoroso o trabalho no setor público, mas não sei até onde é possível insistir.

Ainda mais quando ouço do pensamento liberal que, se insatisfeito, eu é que deveria mudar de emprego…

Ao pensar em todos esses fatores, números e estatísticas, chego a conclusão de que a negociação com os professores é fato político e não meramente técnico ou matemático-financeiro. A decisão de precarizar a profissão a gente enxerga na prática, mesmo com toda a maquiagem dos números. E por isso estamos em greve.

Proponho a quem sobreviveu até aqui nessa longa nota, já que estamos em época de declaração do imposto de renda, que vejam seus rendimentos anuais, comparem com os vencimentos do governador, desse sujeito que não é capaz nem de administrar a água, a segurança e muito menos algo complexo como o futuro de seus filhos. Se alunos, perguntem aos seus pais, quando meses seus valem um do governador? É justo isso? Será que 75,33% de aumento é tão despropositado?

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