Diário de Greve #6

A Greve é Grave.

Garanto-lhes, é sofrida, doída e está longe de ser uma decisão fácil de se retomar a cada a dia. Foram duas semanas de reflexão e certo silêncio sobre o assunto desde que decidi aderir ao movimento grevista, não por menos: possuo mil e uma reticências (que já pontuei aqui, inclusive).

Atrapalha?

Mas claro! O propósito é justamente quebrar a normalidade, impor o debate a respeito das condições de trabalho dos professores e de nosso projeto de educacional falido… ou muito bem construído para segregar e destruir toda uma geração (de certa classe social). A esperança é que a ausência minha e de meus companheiros, ato drástico, pois quem conhece minha atuação sabe que restrinjo ao máximo minhas faltas e não o faço agora por descaso, vá catalisar ao menos uma dúvida prática: porque ele(s) não está/estão aqui na sala de aula?

E por que, afinal?

A nossa crença é a de que não existe meia-educação, como em trabalhar o pedagógico e esquecer do político, falar em inserção no mercado de trabalho e se cagar pra inserção social, confundindo obediência e subserviência com cidadania e postura crítica. E o Governo do Estado está longe de educar. Dizer que conseguem a metade, aliás, é ser bastante elogioso, eufemístico e até mentiroso. É bem menos do que isso.

Pergunto aos meus alunos (e outros que se propuserem a reflexão)…

Nessas duas semanas em greve, deixei de dar quatro aulas, duas por semana, em cada turma, salvo aquelas que tinham comigo na sexta, restringindo, o feriado, a três encontros nossos, ao todo. Pergunto o quanto dessas aulas seriam (e são, por aqueles professores que continuam em seus postos) aproveitadas com salas lotadas? Qual a pesquisa que se pode fazer, de materiais pedagógicos e conteúdos, quando o professor acumula 30, 40.. ou até 50 aulas, durante a semana?! Tenho 24 aulas nos três níveis do Ensino Médio e já acho que estou limite.

Talvez seja questão de experiência…

Esse argumento surge vez ou outra, de mim pra mim, mas tenho certo que, junto da faculdade de Relações Internacionais, minha segunda graduação, entre leituras e trabalhos (que não deixam também de enriquecer minhas aulas, embora o Estado não reconheça como formação) e acompanhar o progresso individual de cada um dos aproximados 450 alunos que tenho, em 12 turmas, é um projeto fadado ao fracasso que fica mesmo, no máximo, pela metade.

Quem quer consegue, se dirá…

Crueldade pensar isso, mais grave do que a greve: já advertia Paulo Freire que se a educação não for libertadora o sonho do oprimido é se tornar opressor, e adotar o discurso meritocrático não é nada mais do que isso. Vez ou outra aparece um aluno que se sobressai, no Estado mesmo, contra todas as possibilidades… o que licencia os indivíduos envolvidos, graças a um sucesso, ignorar as outras centenas de fracassos.

Não, não existe projeto de educação parcial, pela metade, não acredito nisso. Recuso-me, eu e meus companheiros de luta, a acreditar nisso! E por isso estou em greve, por isso continuo em greve e chamo a todos que adotaram até aqui “meia-posição”, apoiando, sem se engajar, que tomem iniciativa e adotem a parte da responsabilidade que lhes cabe.

Pois no silêncio dos bons e dos justos, em eterno repouso e indolência, ressoa o brado dos perversos – foi assim que em meio a falência da educação, o único projeto que tramita nas altas esferas políticas com chances reais de aprovação, em relação a nossa juventude, é a redução da maioridade penal.

É escola ou cadeia? – não tem meio termo.
De que lado você samba?
A Greve é Grave, eu lhe disse.

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