Diário de Greve #5

É isso, aderi à greve nessa segunda-feira (ou queria eu antes fosse e tivesse sido tão fácil)

Vi-me as voltas com essa decisão durante as duas semanas desde que a greve foi deflagrada, ponderando sobre, desde o movimento grevista enquanto estratégia de luta, passando pela legitimidade da APEOESP como interlocutora e representante da categoria até as chances de sucesso de nossas reivindicações. Mas vale dizer, uma coisa não esteve em nenhum momento sob dúvida em minhas considerações: a justiça naquilo que é pedido.

Foi isso o que mais pesou, saber que a dignidade pedida em cada uma das pautas das negociações, das mais genéricas que exigem água e o fim da violência nas escolas (como se o Governador pudesse resolver questões tão estruturais por decreto) até as mais objetivas como o aumento salarial em 75,33% e cumprimento da jornada do piso (com mais tempo reservado ao planejamento das aulas e correção e preparação de atividades), todas elas tem seu mérito e objetivam a melhora em nossas condições de trabalho que certamente espelharão em melhora substancial na educação pública paulista.

Há justiça nessa luta e, só por isso, já vale o empenho e o sacrifício apesar de todos os pesares. Mas claro, longe de ser uma greve de sofá, essa pretende-se construir no corpo a corpo, junto a sociedade civil que é a beneficiária última de nossos serviços e, enquanto contribuinte e, mais importante, cidadã, tem o direito de nos cobrar em relação às nossas atitudes – a nós e ao Governo do Estado que se porta de maneira intransigente fingindo que a situação do ensino anda às mil maravilhas.

Muito se falou do tal “maior bônus da história” e da política de aumento salarial dos últimos quatro anos que apenas tocou a superfície de uma desvalorização gritante em uma série histórica mais ampla (basta perguntar aos pais de vocês sobre o padrão de vida dos professores de décadas passadas). O que não se fala é das distorções provocadas por esse sistema “meritocrático” que impele as escolas a maquiarem seus índices de abandono e reprovações e formar fazedores de provas profissionais ao invés de cidadãos críticos e conscientes preparados para a vida em sociedade.

E que ao menos os preparassem para ENEM e FUVEST, democratizando o acesso a universidade pública, mas o objetivo mesmo é pontuar no SARESP, a prova do Estado que dá índice pro bônus…

O mais cruel dessa história é que quando a escola finalmente consegue bater as tais metas, se o faz com muito êxito estourando o teto, no ano seguinte quase certamente ela não as baterá, pois o teto para o bônus, nessas situações, expande-se para além das possibilidades dos parcos recursos da educação pública. Nesse cenário, a melhor estratégia de sobrevivência, pra compensar os salários ruins, acaba sendo ir evoluindo de pouquinho em pouquinho, se afundando em planilhas e contas de quantas reprovações e abandonos são “bons pra escola”… esquecendo que os nomes naquelas listas são pessoas, cada qual com seu futuro em jogo em cada uma de nossas decisões.

A verdade é que não é necessária a sabotagem deliberada: desmotivada, a equipe pedagógica age nesse sentido (a saber, ladeira abaixo) sem precisar adulterar ou fraudar nada.

Não há ética que resista em um ambiente tão torpe, quando mesmo munido das melhores de suas intenções e exercendo toda a sua competência o professor acaba punido pelas circunstâncias degradantes do sistema público de ensino.

A carreira simplesmente não atrai, muito menos segura, e os docentes contratados da infame categoria “O”, que são os verdadeiros heróis da rede estadual segurado a bronca quando os concursados exoneram, acabam espirrados de escola para escola nas atribuições após seu contrato ser rescindido a cada ciclo de dois anos, tendo muitas vezes penar uma duzentena ou quarentena sem trabalhar (e sem receber, obviamente), tendo direito a duas míseras faltas médicas por contrato! É praticamente impossível qualquer trabalho a médio e longo prazo, assim.

É por essas e outras que estou em Greve e também me solidarizo e respeito todo o professor que opte por fazer a sua luta de outra modo, muitas vezes assediado e ameaçado de corte no ponto quando inclinado a aderir, um golpe fatal para quem é arrimo de família.

Por fim, faço meu apelo para meus alunos que sobreviveram a esse longo texto que debatam com os pais, que se engajem na luta pela educação pública de qualidade, cada um a seu modo e que, claro, tratem aos professores que ainda estiveram na escola de maneira respeitosa se decidirem questioná-los do porquê não aderiram ao movimento grevista. No mais, comprometo-me a compartilhar as atividades nas quais estou envolvido durante a Greve.

Até a vitória, companheiros!

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