Diário de Greve #3

Já faz alguns dias, parece que tenho sonhado acordado, andando por figuras turvas e indefinidas, tentando dar um salto maior do que minhas próprias pernas – querendo alçar voo, quem sabe. “A greve deve ser construída” é o mote da militância diante da desmobilização e descrédito de alguns colegas professores em uma paralisação ainda bastante incipiente nas escolas, mas me incomoda essa falta de perspectiva que precise de tanta fé para ser nutrida.

Hoje a mãe de um aluno questionou a escola se existia ou não uma greve e estando presente, ainda que a pergunta não tenha sido endereçada a mim, fiz questão de frisar em alto e bom som que a categoria dos professores estava, sim, de greve… embora nenhum dos professores ali presentes (inclusive eu!), e em peso, estivesse paralisado. Como explicar uma coisa dessas? Uma greve que é e não é ao mesmo tempo?

E olha que a dúvida não se restringe à população desinformada, um colega professor veio depois indagar se era possível considerar que os professores estavam em greve com um nível de adesão tão tímido e com os muitos problemas de representatividade que o sindicato da categoria (APEOESP) carrega. Para além de questionar a legitimidade e oficialidade do ato ou mesmo o mérito das reivindicações (ambos inegavelmente verdadeiros), o que eu se pergunta é se a frase “os professores estão em greve” pode ser utilizada sem receios, ainda mais em uma escola onde nenhum professor paralisou suas atividades.

É mesmo um mundo lírico e confuso onde tudo que é sólido, até o mais histórico dos meios de luta, desmancha no ar, passando a ser decidido no campo semântico das ideias tendo sua existência colocada em cheque constantemente através do discurso que a nega ou omite.

E é por isso que para todos que me perguntarem, direi sem medo: a greve existe, sim. Os professores da rede estadual de ensino estão em greve. Talvez agora pareça um exercício de fé, mas quem sabe com o tempo a população saiba o quão concreto e duro é o chão da sala de aula (e suas tantas rachaduras) e se juntem a nós na luta por uma educação verdadeiramente digna.

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