Diário de Greve #2

Hoje, acordei pesado e de tão afundado no travesseiro mal ouvi o despertador tocar. Ao chegar dez minutos atrasado para a primeira aula, depois de intenso espreguiçar, e ainda mais intenso trânsito na Raposo Tavares, foi quase cômico, se não trágico, ser advertido pelo coordenador sobre a importância da pontualidade quando a escola se encontrava às escuras, sem luz e até sem água em alguns pontos, nessa manhã cinzenta.

Vê-se que a prioridade do Estado é manter a “normalidade”, aulas rolando custe o que custar, não importando as circunstâncias materiais da escola.

É de um esforço imenso tentar manter o profissionalismo quando tudo lhe grita para ir embora ou, ao menos, manifestar-se através da indolência e má vontade, bem ao estilo da “operação tartaruga” em algumas situações de greve de outras categorias, mas por uma questão ética eu procurei segurar a barra – acatei ao comentário, dei minhas aulas e discuti a greve com mais algumas turmas. Novamente, a receptividade oscilou bastante.

Mais tarde, já realizando minhas atividades extra-classe corrigindo provas, as letras das folhas se embaralhavam e se confundiam na barulhenta sala dos professores contígua à quadra da escola. Passaram-se três horas em que não corrigi muito mais do que dez avaliações – a cabeça ainda pesava no desassossego dessa greve secreta que parece ter medo de dizer seu nome.

Uma prova me chamou a atenção pela precisão do conteúdo e tratei logo de pesquisar trechos da internet na certeza de que o aluno colou. Estou há apenas um ano na docência e já aprendi a esperar o mínimo, pois quando o aluno finalmente mostra que “aprendeu demais” é enquadrado sob atitude suspeita. O único fruto da minha pequena investigação, não sendo possível pegar o aluno no flagra, foi constatar o Fracasso Escolar como regra de um sistema falido.

O acalanto só veio no transcorrer da tarde, já em minha casa, quando optei por participar de um Comitê de Greve tendo com isso alguma direção e sentido para minhas indagações. Os companheiros de luta, na subsede do sindicato, me fizeram me sentir menos sozinho por alguns instantes, fazendo-me cogitar novamente a ideia de aderir integralmente ao movimento, por mais reticências que eu tenha com a greve como instrumento de luta.

O importante é se mover. Reagir e mostrar que estamos vivos, afinal.

Amanhã vai ser maior

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