Política Gourmet

Já diziam os mais velhos que o barato sai caro… isso porque não haviam conhecido o fenômeno gourmet que já “sai caro” desde o princípio.

O “raio gourmetizador” é paródia já conhecida nos círculos das redes sociais e rodas de conversa. Tal superpoder, originalmente atribuído aos chefes de cozinha e mercado de alimentos em geral, dá a um produto simples a prerrogativa de assumir precificação diferenciada ou, mais simplesmente, de custar os olhos da cara. Isso se justifica por um sem número de motivos desde a seleção especial de ingredientes, cuidado ou zelo artesanal no preparo ou pelo caráter de novidade. E é assim que as vãs e carrocinhas de comida viraram de repente “food-trucks” e o sorvete de palito com leite condensado alçou a nomenclatura de “paleta mexicana” para horror dos mexicanos que conhecem o produto original que só tem em comum o formato.

É algo banal, na minha opinião, entretanto…

Há quem se indigne com uma veemência que me surpreende, por mais que os efeitos do marketing e a questão da imagem sobre o conteúdo no capitalismo seja fenômeno que já vem de décadas ou, se não quiser ser tão analítico, usemos o termo moda ou até modismo para descrever o gourmet e seu caráter muito mais de continuidade de uma tendência do que ruptura. Descer o pau na gourmetização ou em quem consume esses produtos pelo status que dão e a genuína sensação de prazer fugaz que proporcionam é hipocrisia pra quem chancela esse modelo consumista a cada passada de cartão de crédito em produtos feitos para pouco durarem e satisfazerem. Capitalismo é isso aí.

Eu sei, é doloroso, mas todos nós temos uma certa culpa pelo sorvete a dez dilmas com sabor de Danoninho.

Se a questão ficasse somente nisso, acho que não seria tão grave, o problema é que o raio gourmetizador começou transpor sua área original de atuação. A política é seu novo terreno e o carro de som de comícios e passeatas eleitoreiras tem tudo para se tornar um “party-truck”… trocadilho infame entre as palavras “partido” e “festa” em inglês que se aglutinam no mesmo vocábulo. Tudo para ficar mais hype e agradar ao consumidor/eleitor que quiser ser mais diferenciado do que o outro.

O prefeito Fernando Haddad, não a toa, tem sido homenageado com uma página no Facebook que o coloca como o primeiro prefeito gourmet. A tônica é simples: posar de diferente mas sendo fundamentalmente mais do mesmo. E não dá pra negar esse caráter caricato do prefeito quando este se embebe de seu carisma forçado tocando guitarra ou andando de bicicleta, onde antes, nas eleições de 2012, era chamado de “poste”, e daquele ar de profissional técnico (auto proclamado rei das PPP’s, Parceiras Público-Privadas), para além das politicagens, quando é fato conhecido a articulação feita com Paulo Maluf e Gilberto Kassab, mais velhos, rotos e sujos do que qualquer coisa, para subir ao posto que agora ocupa. E se agora chama Gabriel Chalita para a Secretaria Municipal de Educação, não deveria ser fato tão surpreendente: esses são os ingredientes diferenciados de Fernando Haddad, mais do mesmo.

Entretanto, não é necessário ser tão cínico e desqualificar o prefeito tão somente por isso. O PT, já desde 2002, opera sob o signo santo da governabilidade, tornou-se membro ativo das negociatas que separam posições fixas de interesses móveis, sacrificando o que por ventura considerasse supérfluo ou recuperável diante de essencialidades que o eleitorado, eu incluso, acreditou ingenuamente tratarem-se das questões sociais. Haddad fez muito com os seus ingredientes não tão diferenciados, sou forçado a reconhecer, o Plano Diretor, o reajuste do IPTU e a Tarifa Zero estudantil (não confunda com Passe Livre) são pontos que admiro, entretanto… o quadro atual, apesar de tudo o que foi feito, nos obriga a encarar o fato de que o essencial para o Partido dos Trabalhadores é se manter no poder.

E com os brados de Impeachment, parece que nem isso eles tem conseguido…

Creio que o caso mais simbólico, ou talvez mais desolador, notado aqui do meu posto de observador socialista das idiossincrasias petistas de ceder pela governabilidade sem conseguir a governabilidade ou ainda de dar poder à direita para evitar que a direita chegue ao poder, seja a questão da luta pela municipalização do CIDE, um imposto federal cobrado da gasolina que, até pouco tempo, se encontrava congelado. Em meados de 2013, essa era uma possibilidade aventada pelo prefeito Fernando Haddad, em meio aos acalorados protestos, para subsidiar a passagem de ônibus, quem sabe até o passe livre. E eis que em 2015 conseguimos aumentar tanto a gasolina, através do CIDE, como a passagem! Qual o sentido?!

Política gourmet é assim, sai caro duas vezes: quando pagamos a fatura e depois quando recebemos o produto (no caso, uma coxinha gourmet murcha) e ficamos com aquela cara de palhaço e o sentimento de termos sido enganados.

Mil ressalvas podem ser feitas aqui sobre as intenções benévolas do PT em salvar o país da crise econômica com mais essa arrecadação ou até sobre a culpa dos outros muitos partidos que compõe o Congresso Nacional, tanto ou mais sombrios e contraditórios que o Partido dos Trabalhadores que só pensa nos patrões, mas a cara de palhaço fica mesmo difícil de sair, ainda mais depois de defender apaixonadamente o voto em Haddad e Dilma, respectivamente, nos segundos turnos de 2012 e 2014. Diante das alternativas, o trevoso José Serra na prefeitura e o canastrão do neto de Tancredo no planalto, creio que foi sim a escolha certa, mas meu envolvimento deveria ter sido mais contido.

Ainda assim, vale dizer…

Aécio “Aeroporto” Neves e seu Partido da Social Democracia Brasileira, que não caem mais tanto de amores pelo social (nem pela democracia, transformando impeachment em vírgula) são figuras que me acalmam em noites de arrependimento e angustia. Dilma pode ser muitas coisas, mas nunca tentou gourmetizar sua figura como esse tal de Minas tentou. A despeito daquela demão de tinta dos marketeiros nas eleições, a figura da presidenta foi sempre muita rija e sóbria para esse tipo de expediente e não sei se por suas inaptidões de retórica ou por força de caráter (quem sabe uma soma de ambos) não tentou transformar os debates em um concurso de carisma como seus oponentes.

O senador tucano, por outro lado, vem tentando gourmetizar até o nacionalismo que parece ser o único símbolo capaz de aglutinar em torno de si o coro de descontentes. O ato pós eleições organizado pelo político (que ele mesmo faltou!), repleto de bandeiras do Brasil na Avenida Paulista, é a imagem disso. A preocupação com a Petrobrás também é breguíssima e beira ao ridículo, colocando o partido do príncipe da privataria (FHC) como o mais apto defensor das estatais apoiando-se na cobertura jornalística de uma emissora, conhecida sonegadora de impostos, como paladina da justiça contra a corrupção.

Seria para rir, se não fosse para chorar…

Apesar de ainda não ser ponto seguro se existe ou não uma onda conservadora agindo no Brasil, e se isso é assim tão grave ou se configura como distorção considerando-se a população reacionária que nós temos, é possível cravar, apropriando-me da fala de Frei Betto, que falta utopia no coração das pessoas, sobretudo na juventude. Como professor, posso afirmar sem medo: o problema dos jovens não é falta de vontade ou desejo, mas falta de sonhos para movimentar toda a energia que possuem. Em um mundo em que as imagens estão todas dadas e que todas as escolhas se apresentam como produtos enfileirados em uma vitrine, é fácil cair na arapuca gourmet em busca de algo diferente. E, se não isso, no entorpecimento narcótico da indiferença e do Tédio.

E nesse Fabuloso Destino da Vida Política do Brasileiro, está um tempo difícil, mas difícil mesmo, para os sonhadores, mas cabe minha súplica: na cozinha e na política, menos gourmet e mais utopia, por favor! Não são eles, nenhum deles, que irá trazer a resposta, mas o povo empoderado e partícipe da vida política que irá trazer a verdadeira novidade.

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