Manual do Manifestante de Bem®

Desde de 2013, o brasileiro médio vem adotando uma presença mais marcada na chamada “opinião pública”. Esta que, curiosamente, era mais dada pelos jornais e revistas que diziam através de suas opiniões e pesquisas o que pensava o cidadão (até mais do que ele próprio), cederam algum espaço para inciativas autônomas e espontâneas. Entretanto, nem tudo são flores, e tem muita gente incomodada com a forma com a qual as pessoas têm se organizado. Tendo em vista as diversas críticas dirigidas aos manifestantes surgidos no período, sistematizei aqui o que me parece ser o modelo aceitável de protesto nesse Brasil de meu Deus:

1. Primeiro de tudo, há que se salientar que o único sujeito digno do título de manifestante de bem® é o cidadão de bem®, sendo este o objeto das normas abaixo descritas. É preciso respeitar valores tradicionais e gozar de reputação ilibada, sendo seu protagonismo em questões sociais e políticas inevitavelmente comparado com a forma de que goza a sua vida privada.

Ex: Primeiro-ministro da Indonésia nega pedido de clemência à brasileiro condenado à morte / Primeiro-ministro é fã de heavy metal – do que se extrai: de repente, ele não é tão má pessoa assim.

2. Há que se ter atuação fervorosa em fóruns de discussão e caixas de cometário em portais de notícias e blogs, na internet. Para o manifestante de bem®, a insatisfação é generalizada e não pode se calar… nem ouvir, nem tatear, nem provar de outras fontes que não sejam às que esteja familiarizado. Não há espaço para o diálogo, pois quem sabe que está do lado do bem® é suficientemente convicto para saber o que é certo e errado – é hora da ação!

Ex: Impropérios dirigidos à presidenta na abertura da Copa / Comentários em caixa alta no UOL.

3. Há que se agir sim, mas, de preferência, sem causar problema à ordem pública, afinal, seu objetivo último é a retomada desta e não a sua perturbação. Não há problemas em agredir e insultar indivíduos em sua particularidade, mas Deus o livre de causar dano ao que for considerado, pelo senso comum, público!

Ex: André Caramante, conhecido defensor dos “Direitos dos Manos” é ameaçado em 2012 por eleitores de Coronel Telhada e precisa sair do país (legítimo); Blackblocs quebram vidraça do Metrô, em protestos de 2013 (inadmissível).

4. Há que se defender o capitalismo, mesmo sem ter capital. O manifestante de bem® deve ter claro que a corrupção é fenômeno restrito ao setor público e preferir mil vezes a meritocracia à democracia. É necessário criatividade aqui para defender esse princípio, pois sem capital você não consegue fazer lobby para eleger parlamentar que defenda seus interesses e repudiando a ação popular que perturbe a ordem pública, você não pode organizar um grupo próprio que o represente diretamente.

Ex: Eleições de dois em dois anos, é só isso o que lhe resta de espaço para atuação; voto branco/nulo é o ápice de sua insubordinação. Se o candidato eleito por você for muito contestado pela chamada “opinião pública”, vale dizer, sua carteirinha é confiscada e os demais manifestantes de bem® lhe reservarão o mais puro repúdio.

5. Há que se ter cautela com as mudanças propostas, mudar demais também é perigoso. A utopia é absolutamente proibida, pois calcado nos valores tradicionais (mencionados no primeiro ponto), resta aos manifestantes de bem® horizontes absolutamente distópicos e dissertar sobre a decadência a que se assiste. É preferível falar-se do que não se quer, desejos negativos, como um mundo sem corrupção, sem drogas, sem violência, sem partidos políticos e etc, sem absoluta necessidade de tentar explicar ou discutir (afinal, não é de bom tom assumir que não se sabe algo, vide ponto 2) como atingir esse objetivo ou a forma que atingiria uma sociedade ideal.

Ex: Movimento Passe Livre, pauta clara e definida: instituição da gratuidade do transporte público / Manifestantes de bem® de 2013 se sentem “traídos” por que estes não lutaram “contra o PT e tudo isso que está aí”.

6. Por último, e não menos importante, há que se ter claro que o manifestante de bem® não gosta de política devendo declamar a quem quiser ouvir o seu desprezo e, mesmo assim, contraditoriamente deve fazê-la para almejar seus objetivos. Outro ponto que merece profunda consideração e criatividade (bem como algum grau de esquizofrenia), pois não parece haver muito espaço para manobra aqui. Ainda assim, este é inegociável, pois a atuação política, em qualquer esfera, é símbolo de tudo o que é feio, torpe e errado no mundo.

Ex: Manifestação na Paulista organizada por Aécio Neves pós-eleições, carros de som falando sobre projeto de deputada tucana para reforma política – tudo bem, desde que as bandeira sejam do Brasil e se ignore os interesses dos atores envolvidos.

Acredito que esses tópicos cobrem todas as bases, entretanto…. sou formado em História em um conhecido reduto de vagabundos e maconheiros, a Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, votei na Dilma no segundo turno e participei de um número considerável de manifestações com vandalismo! Portanto, utilizando a regra primeira, nenhum cidadão de bem® que se preze deve considerar o que foi aqui escrito. Paciência, política do bem® é tão difícil!

Um comentário em “Manual do Manifestante de Bem®

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