Tudo o que você precisa fazer é pedir

Onze minutos. Já fazia onze minutos em que Renata, jogada entre os lençóis, não fazia nada além de encarar a parede desbotada de seu quarto, no canto oposto à janela. Lúcio sabia disso porque havia contado praticamente cada um dos seiscentos e sessenta segundos que compuseram o silêncio entre os dois naquele cômodo escuro parcamente iluminado pela luz de fim de tarde que escapava pela veneziana. Uma cama, o assento sem encosto próximo a ela, na qual sentava o rapaz, e uma escrivaninha com um notebook aberto, porém desligado como se esquecido ligado sem a fonte, abandonado – era tudo o que compunha a paisagem do (des)encontro entre as duas almas.

Ele não sabia o que dizer nem tampouco o que fazia exatamente ali. Renata não era nada para ele, nada que fizesse jus a tamanha intimidade. A garota estava ali, largada vestindo nada além de shorts e uma camiseta e, por mais que fosse sim atraente por trás de toda aquela melancolia que vestia seu corpo inerte, o desconforto era suficiente para desfazer qualquer conotação erótica à intimidade que supunha o encontro de dois adolescentes à porta fechadas. Era muito claro que Renata estava doente e que precisava de ajuda, mas não qualquer uma que ele pudesse oferecer, ele achava. E por que estava ali, afinal?

Doze minutos.

Os ponteiros marchavam com dificuldade no relógio de pulso de Lúcio como que perdidos na névoa de seus pensamentos, hesitantes e incertos. Por qualquer motivo estabelecera um período ideal de quinze minutos de permanência, naquele quarto, para justificar a visita, mas o tempo custava a passar. Fora designado pela professora para entregar o dever para sua colega, apenas isso, mas o sorriso de conveniência que vestira para conversar com os pais da garota à porta, de alguma forma o conduzira até ali. O rapaz reviu o diálogo umas tantas vezes na memória afim de passar o tempo e também entender em que parte houvera sido mal interpretado, não era amigo dela e nunca disse nada nesse sentido, mas também, quem daquela escola era? Não foi à toa que sobrou a ele, praticamente um desconhecido, a tarefa de ir até a casa da colega.

Renata não era popular, apesar de bonita. Isso parecia a Lúcio uma contradição, pois sempre lhe fora reforçado o estereótipo de que pessoas bonitas são felizes, especialmente as garotas, pois estas, munidas de certo privilégio, conseguiriam o que quisessem através dessa qualidade. A menina em frente a ele, contraditoriamente não conseguia sequer levantar da cama então havia algo de fundamentalmente errado nesse princípio, muito de despeito, ele podia imaginar, pois quem reforçava o preconceito eram geralmente os garotos que não conseguiam levar a cabo seus desejos de conquista. Lúcio não queria nada dela, Lúcio não a desejava e isso era de alguma forma libertador. Alguns momentos atrás, a tristeza parecia vesti-la como um véu escondendo-a, mas agora a sentia completamente nua e era isso, agora percebia, o que o incomodava profundamente, era essa a intimidade inquietante – não sendo um objeto de seu desejo, ele podia reconhece-la como uma pessoa, só e frágil, assim como ele, mas, por algum motivo que ele não conseguia descobrir, completamente vulnerável.

Como se sentisse observada pela primeira vez naqueles dezesseis minutos (pois o tempo voltara ao seu ritmo normal quando Lúcio parou de olhar somente para si mesmo), Renata se virou para seu colega com um misto de surpresa e assombro como quem vê um fantasma que já lhe prestou outras visitas:

– O que você está fazendo aqui? – disse ajustando os olhos a claridade que vinha por detrás de Lúcio, da janela, depois de fechados por um longo período. Meses, anos, talvez.

– Eu só… eu só vim entregar os seus deveres – retrucou-lhe se levantando bruscamente o rapaz, olhando o relógio, derrubando os papéis que tinha em seu colo e, depois de recolhê-los do chão, colocar os deveres em cima da escrivaninha.

– Ah… tudo bem, pode deixar aí mesmo – qualquer vestígio de emoção então se foi, mais uma vez, e a menina voltou a encarar a parede e, de lá, distante, acrescentou – eu só queria morrer.

– Me desculpe, me desculpe! Já vou embora – respondeu Lúcio embora soubesse que não haveria réplica e que suas palavras não fariam diferença. Não devia ter passado os quinze minutos!

Logo já estava na rua, voltando pra casa e, embora tivesse cumprido sua tarefa sem grandes incidentes, nada satisfeito e cheio de dúvidas. O que leva alguém a querer morrer?

O dia seguinte amanheceu sem novidade. Na escola, Geometria se seguia à dobradinha de História para depois chegar ao intervalo e Lúcio, distante, mal se apercebia das explicações e lições dos professores. O passar das horas também lhe era estranho, fugaz, bem diferente dos primeiros minutos em frente ao corpo inerte de Renata, no quarto mal iluminado. A ausência da colega, a carteira vazia, parecia se adensar e sugar tudo ao redor como um buraco negro. Era como se, por tê-la enxergado, por tê-la conhecido verdadeiramente e visto sua figura despida das conveniências, na tarde anterior, ele agora pudesse perceber o tamanho de sua sombra. Algo lhe dizia que ela nunca mais iria voltar.

Mais três aulas se passaram para que ele ruminasse a ideia de voltar a casa da garota afastada já a mais de três dias por problemas com depressão. Ensaiou o que diria a mãe dela, qualquer coisa como ter esquecido de entregar completamente o dever, mas sabia, de alguma forma, que o desespero faria seus pais aceitar a presença de qualquer um que quisesse ajudar. Talvez fosse por isso, talvez fosse pela necessidade de dizer o que sentia em voz alta que, ao chegar novamente à morada do desassossego disse com todas as letras à educada senhora que o recepcionou à porta:

– Preciso vê-la

Lúcio, enquanto era conduzido ao quarto de sua colega, estimulado pelo cenário lúgubre passando da ensolarada sala de estar para um claustrofóbico corredor escuro, passou a lutar com seus próprios demônios. Na noite passada, mal conseguira dormir pensando ou, antes, fantasiando com a arma que seu pai guardava fechada à chave em uma valise embaixo de sua cama – queria dá-la a Renata para satisfazer seu desejo de morte. A ideia lhe sufocara por horas até que desmaiasse de exaustão na alta madrugada. Não trouxera a arma, no final das contas. Sua presença teria de bastar, pois estavam sozinhos, mais uma vez.

O cenário tinha qualquer coisa de dejavu com o sol à mesma altura por trás da veneziana e Renata na mesma posição e com as mesmas roupas. Lúcio, entretanto, havia assistido ao filme “Feitiço do Tempo” suficiente número de vezes para saber que só se quebra um encanto do Tédio e “eterno retorno” fazendo algo de radicalmente diferente. E para quebrar o ciclo da solidão de ambos, ele disse:

– O que você quer?

Direto e franco, de Lúcio, o que se pode dizer, no mínimo, é que a sutileza nunca fora de suas qualidades mais trabalhadas e sua sinceridade costumava ser perfurante feito flecha, fosse de cúpido ou envenenada. Era como se sua palavra tivesse efeito mágico do qual era impossível estar imune, provocando necessariamente uma reação, fosse boa ou ruim. E Renata de fato reagiu, mas de forma indiferente e fria, restringindo-se a virar-se para o rapaz sem dizer uma palavra.

Lúcio olhava em seus olhos na busca de uma resposta, de um sinal, mensagem cifrada ou algo do gênero. Não sem motivo: cansara de ler através da literatura menções aos tipos de olhar das personagens que diziam tanto com tão pouco. Estivesse Renata na literatura, Lúcio acreditava que seus olhos seriam retratados como vítreos, opacos ou, mais simplesmente, sem vida, meramente como recurso retórico, pois não era nada disso o que via. Eram olhos como os seus, apenas, olhos inexpressivos como todos os outros, olhos que só olham e não dizem nada. Mas ela estava ali, em algum lugar.

– O que você quer? É amor? – disse sem saber bem porquê, pois não encontrava em si a capacidade de oferecer bem tão valioso – É a morte? – acrescentou já lembrando de possibilidades de serventia mais concretas – Tudo o que você precisa fazer é pedir! – concluiu, por fim. E era tudo o que queria, do fundo de seu âmago, dizer, mais que qualquer outra coisa. Lúcio era um indivíduo profundamente racional, mas tinha também de suas idiossincrasias e uma delas era justamente a de agir somente segundo a deixa. Pois por insegurança ou medo, gostava de se sentir necessário e lhe fustigava a possibilidade de se tornar um inconveniente. Estar ali era o máximo até onde poderia ir sem ser solicitado, mas ao mesmo tempo não conseguia ir embora prontificando-se a atender a qualquer um dos desejos da jovem diante de si.

– Eu só queria que isso passasse – disse Renata logo crispando os lábios e desviando o olhar como se lhe doesse cada palavra, encolhendo pra dentro de si mesma quase em posição fetal. Lúcio quis ser herói só por um minuto, ter o superpoder de enfiar as mãos dentro do peito da amiga e extirpar o mal pela raiz arrancando em um golpe só. E ia se chamar como? SuperRivotril? O pensamento o fez se sentir ridículo, minúsculo e profundamente inadequado. Quando o relógio de seu pulso denunciou quinze minutos passados no quarto ele levantou e fez menção de sair sem se despedir, mas pouco antes de cruzar a porta ouviu atrás de si:

– Obrigada.

Lúcio hesitou por alguns segundos e acenou com a mão ainda de costas sem saber se fora entendido, até porque seu gesto não tinha significado específico para se entender. Manifestação de ciência das palavras da amiga, tão somente, esperar uma ciência de sua ciência seria por demais tautológico e absurdo.

Ao voltar para casa, sentiu o peito pesar, como se algo lhe raspasse as entranhas, secasse a garganta e drenasse sua energia, precisando usar todas as forças que possuía para chegar até sua cama onde adormeceu ainda vestindo a roupa do colégio. Sonhos estranhos lhe acometeram aquela noite, sonhos que se assemelhavam a pesadelos, mas despidos de qualquer terror, trajando apenas tristeza e solidão. Em um deles, que parecia se repetir à exaustão, Lúcio vagava por um pântano que lentamente o engolia até o pescoço deixando somente a cabeça para encarar a névoa e a água turva. Quando se deu conta, já havia passado três dias na cama. Não era impressão, realmente houvera tido aquele sonho várias vezes, pelo menos uma a cada outra que dormia.

Renata o olhava, ele tinha quase certeza, não dava para saber se era sonho ou realidade, mas parecia sentada na beira da cama. Incomodava-lhe profundamente não saber há quanto tempo ela estava ali e ainda trajando um perturbador sorriso de satisfação, tão próxima e ao mesmo tempo tão longe. Em condições saudáveis, poderia alcança-la com um esticar de braços (ou pernas), quem sabe com uma palavra, mas tudo o que ele tinha era um par de olhos que só olhavam, mas não diziam nada. Ela que sabia, de alguma forma sabia, Lúcio tinha certeza, levantou e se aproximou de seu rosto beijando sua testa.

– É todo seu agora – disse, em tom maternal, a garota misteriosa ao se levantar e desaparecer de seu quarto na escuridão.

Imóvel, preso pelo ânimo de uma alma pesada, Lúcio permaneceu na cama tentando entender o que houvera acontecido. Aos poucos a gravidade dos fatos o tomou por inteiro na forma de um calafrio que lhe subiu a espinha dando uma estranha ciência de si: ele ainda estava ali, mas inerte, vagando em seu próprio abismo distante e presente ao mesmo tempo. Era inútil tentar qualquer coisa, pois sabia que o pântano era pesado demais para carregar sozinho cativando-o para sempre… ou até que alguém se oferecesse para ajuda-lo: tudo o que ele precisava era pedir.

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