9×1

Nove de Janeiro de Dois Mil e Quinze da Era Comum, São Paulo, Rua Consolação – mais um testemunho de quem lá esteve. Um Ato contra o aumento da tarifa que terminou no que, com muita má vontade e distorção, tem sido chamado de “confronto” entre manifestantes e policiais.

Não tive dificuldade para perceber o que estava pra acontecer quando começaram os ruídos de disparos e a fumaça a subir, quadro bem semelhante ao daquela quinta feira de Julho de Dois Mil e Treze, antes das manifestações explodirem com força. Estava dada a ordem para dispersar depois de alguns atos isolados de vandalismo – aparentemente a vida e a dignidade humana está a preço de algumas vidraças de banco.

Eu fugi.

Foi difícil, aliás, saber para onde fugir e pra entender que mais do que dispersar o comando era atacar e desmoralizar os manifestantes. Mesmo sob o intuito de proteger as pobres vidraças a reação era despropositada, pois, a despeito de eu pouco me importar com elas, a minha intenção, bem como a da maior parte de quem lá estava, não ser agredi-las, só seguir com a nossa liberdade de expressão e conduzir o nosso ato pacificamente. Em vão.

O grau da patente e armamento resumia a importância da função dentro dos quadros policiais. A guarda civil, classe mais baixa, era encarregada de vigiar, filmar e transmitir informações; a militar protegia o patrimônio, estações de metrô e lojas, escoltava e cercava a manifestação; mais acima na militar, na choque e tática, o intuito era realmente agredir, oficiais muitas vezes de máscara de ski e identificação codificada, sem nome, apenas números e letras na tag do uniforme, indo pra cima das pessoas que se aglomeravam; no topo, governantes e grande mídia se regojizando com as cacetadas que a gente tomava em nome das pobres vidraças – e viva a ordem e o progresso!

Via-se claramente que a prioridade realmente era esculachar e até agora eu me pergunto em que contexto isso é minimamente aceitável (em uma manifestação de reivindicação legítima certamente que não é!), pois esse tipo de coisa só acontece porque tem muita gente por aí que não só é conivente com a prática como também aplaude a barbárie contra nós “vândalos”.

Em dado momento, depois de muito correr, eu me vi entocado em um estacionamento, felizmente livre dos efeitos nefastos das bombas de efeito moral me sentindo baixo e covarde por ter abandonado quem tentava reorganizar a manifestação. Ainda subi na Paulista, um tempo depois, para ver as manobras da polícia, verificar se havia resquício do ato – um massacre. Qualquer um que bradasse palavras de ordem ou trajasse faixas era sumariamente bombardeado até que os gritos cessassem de vez. A “ordem” fora estabelecida e as “pessoas de bem” que passeavam pela Paulista pareciam completamente alheias ou indiferentes ao contingente monstruoso da polícia que havia por ali.

Como no 7×1 que o Brasil sofreu na Copa do Mundo para a Alemanha, eu, que sou fã de futebol e vou me valer dessa analogia, insistia em olhar, por mais doloroso e inútil que fosse, aquele espetáculo de absurdos (o ônibus da polícia militar saindo da Consolação com indivíduos imobilizados viajando a pé sem acusação formal, homens de máscara e armamento pesado fechando ruas e acessos) com uma sensação de extrema impotência tomando o meu ser. Ao meu lado, minha companheira constantemente me perguntava se eu estava bem, pois fiquei pasmo, sem saber se ia ou ficava já às portas do Metrô Paulista da linha amarela. O fim fora por demais melancólico para um ato que começou tão bonito, mas não dava mais para negar, por mais que meus pés me segurassem diante das grades da entrada havia realmente acabado.

Ao contrário de mim, as vidraças dormiriam em paz, naquela noite

A esquerda, aos olhos de muita gente, é consecutivamente caracterizada como fora da realidade, porque cometemos o pecado imperdoável de dizer que acreditamos, que temos ideais e tomamos partido. O outro lado se faz de neutro e ganha multidões se posando de científico ou simplesmente do lado da Verdade e dos fatos. E, apesar do conceito de verdade única me causar calafrios, pense no que quiser, mas mesmo se você leitor tem ranço da militância do discurso viciado de palavras de ordem (“abaixo à repressão” e etc), pergunte-se comigo mais uma vez em que contexto a ação da polícia daquela sexta-feira e tantos outros dias é aceitável.

Ainda na esteira das perguntas é possível pensar acerca da utilidade daquele expediente tático todo, a versão de que a criminalidade só anda solta por falta de equipamento ou leniência da polícia com os bandidos precisa de uma séria revisão. Eles são muito bem treinados e se tem permissão pra jogar bomba de gás em jornalista, a brandeza de suas ações é de uma inverdade absoluta. A verdade, pelo menos a que cheguei, é a de que a própria população é inimiga, dependendo do contexto. Sendo essa a resposta, portanto, da pergunta feita: só se parte para o ataque assim quando se tem um inimigo diante de si. A sociedade autonomamente organizada aparentemente dá muito medo a eles.

ato 9x1

No caminho para casa, ainda em choque, minha companheira tentava me animar falando sobre possibilidades táticas, de reagir diante da truculência da polícia para ao menos retomar o ato proposto. Amargando uma derrota de mesmo teor ao da seleção da amarelinha, eu só podia abaixar a cabeça e dizer que tudo seria em vão. Em nove do um, tomamos nosso 9×1, foi assim que senti o peso dos fatos, pois fomos destruídos, desmoralizados. Pretendo voltar nos próximos atos, mas é desolador saber que muita gente ainda vai ver as imagens do ocorrido e se condoer mais pelas agências depredadas do que pelos inúmeros atingidos pela ação policial, priorizando as dores do patrimônio às da pessoa humana. Mas que seja, a luta é pedagógica! E, ao contrário da seleção que tem a corrupta e arcaica CBF a lhe pesar nas costas, nosso movimento se renova de forma genuína e constante.

Sei que não vai ser o meu texto a comover ou converter alguém para a luta, mas vale o testemunho, vale aliviar a garganta que antes secava pela voz embargada e calada a tiros de canhão de um órgão criado oficialmente para nos proteger. Eu existo e, apesar de humilhado mais uma vez, não vou me calar!

Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar (de novo)!

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s