Fim de ano – mais uma vez

Em fins do ano dois mil e catorze da era comum, lavro mais este testemunho de meus progressos e promessas com o intuito de firmar o passo, identificar direções para o futuro e não me esquecer dos caminhos trilhados. Conhece-te a ti mesmo, preconizava o oráculo de Delfos, pois aqui me lembro e aprendo; a existência é pendular entre o Tédio e o Sofrimento, advertia Schopenhauer, e eis-me aqui entre o fastio, a saudade e o pesar, por tudo aquilo que foi, é e será. Aforismos à parte, puxemos o saldo: o que foi esse ano?

As “profundidezas” de meu pretensioso preâmbulo já denunciam o meu desesperado intento de dar qualquer poesia e sentido a um emaranhando de acontecimentos/acidentes que perfizerem os últimos meses. Havia um plano esboçado em poucas linhas gerais que pude cumprir com suficiente êxito para não me sentir completamente perdido, mas não me desvencilhei completamente das questões abismais de minha personalidade analítica que quer achar um sentido em tudo – e não houve, pois a força do espírito é por demais gasosa e fugaz para se consolidar em eixo em torno do qual tudo se move.

Entrar de novo no mundo acadêmico, arrumar um emprego que não fizesse eu querer me matar – acreditem ou não, eram esses meus objetivos. O pessimismo tem essa maleabilidade de a gente poder fazer pouco de si mesmo sem necessariamente ter um sentido melancólico implícito, quis genuinamente, do fundo do coração, atingir essas metas, tendo sido tomado de um contentamento absoluto quando as atingi. E não foi fácil assumir essa felicidade, e digo isso menos enquanto ideia e mais como praxis, na realidade objetiva, que é o que realmente importa.

Olhar para o espelho, respirar fundo e dizer “é isso” deveria ser mais simples, mas comigo a questão se aprofunda sem aviso. E assim veio a vaidade, pois vesti a insignia de professor como uma medalha, e ainda há vestígios dessa identidade de herói, talvez como forma de me perseverar diante da desvalorização inerente a profissão compensando as injúrias com auto-elogios, mas agora se restringindo a uma parte do que sinto quando brando o giz e as pregas vocais. Hoje sei, não é uma missão, não é caridade ou mero gesto de boa vontade, é a minha profissão, a realização material de minhas capacidades em sociedade – e só isso já é maravilhoso, por si só.

O segundo obstáculo para viver a felicidade diz respeito a sustentabilidade e solidez da prática docente. O salário aumenta na medida em que diminuem as condições de trabalho, aumentam os diários e números e esmaecem os rostos dos alunos na multidão de gráficos e índices. As humilhações são muitas também, não tanto aquelas das quais padeço, mas as que reproduzo enquanto, usemos um termo que a pedagogia colocou em voga, “agente multiplicador”, mas não do conhecimento ou de valores e sim da violência do Estado, mais uma peça no moedor de carne que é o ensino público. Talvez seja questão de prática, mas ao me despir da vaidade, que era justamente o primeiro problema, é difícil acreditar que eu tenha como reverter a decadência de um sistema falido, ou muitíssimo bem sucedido se considerarmos intencionalidade na sofisticada arte de fazer maldades. Quem sabe o posto de professor não exista, na prática, pois sou muito mais algoz do que libertador?  Questão difícil, sem resposta.

A faculdade é outro imbróglio insondável, pois a intenção era investir na pesquisa, preferencialmente na seara do direito constitucional na luta pela proteção de populações fragilizadas (tanto que houvera prestado a FUVEST para cursar no largo são francisco: mais um tolo querendo salvar o mundo atrás da escrivaninha), mas esse primeiro ano do curso de Relações Internacionais parece ter uma fundamentação muito presa às ciências sociais e longe do objetivo original. Quem sabe quando eu for estudar Refugiados, quem sabe quando eu me envolver nos semestres seguintes em disciplinas eletivas mais ligadas ao que almejei… mas ainda assim, tendo a achar, faltará um ponto forte de interconexão entre as duas frentes, faculdade e trabalho, que persiste em escapar, impondo uma escolha que não estou disposto a fazer.

A proteção da infância, a preocupação com os anos de formação, são princípios, linhas gerais, mas ainda não dão o mapa da mina, me soçobrando em ilusões e fantasmagorias da vontade que tudo quer, mas pouco se compromete. Professor de História, o que a faculdade não ensinou eu tratei de incorporar na prática; estudante de RI, segunda graduação em universidade pública – são sucessos inegáveis, felicidades, cobertos por uma névoa fina de questionamentos que não chegam a catalizar angústia, mas certamente preocupam ao se pensar sobre o futuro. Quem sabe não seja tudo névoa e se desmanche qualquer dia?

Questionamentos à parte, devo dizer: como ano pensado em si mesmo, foi excelente. Muito fiz e ousei, estudei e lecionei, duas de minhas paixões, agora o desafio é me apoderar dessas conquistas. Como suportar o fardo de ser responsável pela própria felicidade? – talvez seja a pergunta. Emblemático foi o aviso que recebi esses dias de que o plano de saúde de minha mãe já não me cobre, depreendendo-se disso que agora dependerei do hospital do servidor público, uma das beneficies da minha profissão. Sou eu por eu mesmo, enfim. E devo dizer: a sensação é ótima!

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