Não conte comigo

Passei esse último fim de semana contando problemas, cabeludos, fajutos, fingidos e sinceros, todos eles. Na minha cabeça, eu simulava essa miríade de situações problemáticas, fantasiando com o caótico e tirando algum prazer dessa imobilidade (afinal, a gente não faz nada de graça). Acho que olhar pra vida e pensar no quanto tudo está ferrado (ou só muito complicado) é de alguma forma reconfortante pra justificar a incompetência e a tristeza que parece vir do nada.

Mas a verdade é que sou privilegiado, sob múltiplos olhares, inclusive meus quando olho no espelho e vejo o quanto tenho sorte… embora algo sempre pareça meio fora do lugar. Conclusão que só me deixa mais angustiado, pois subitamente me sinto ingrato, incapaz de sentir felicidade pelas tantas coisas que possuo e pelas pessoas que amo. Nessa hora, vem o juízo fatal de que a gente só dá valor quando perde, o que é uma simplificação do complexo processo de luto, mas não deixa de ter seu grau de verdade – só espero não ter de chegar a isso para “me dar valor”.

Etiquetando sentimentos e sensações, os motivos de gratidão ao acaso e a sorte (já que não creio em deidade alguma), de problemas passei a contar dinheiro, uma digressão inevitável ao se tentar capitalizar a felicidade. O décimo terceiro, a impressora que eu queria comprar, feira-do-livro lá na USP em dezembro, prazeres burgueses singelos desse comunista de shopping e a dor de cabeça de quem ainda não desvelou os segredos do Internet Banking que tanto quer me proteger que não me deixa gastar meu dinheiro (paguei no boleto mesmo).

Contei as horas nesses exercício, depois dias e espero essa meia-noite para contar os anos como dita a tradição, pois mais uma vez aniversario sem grandiosas expectativas além da replicação do mesmo, do Tédio e da preguiça de pensar questões existenciais mais complexas. Não estudei pras disciplinas da faculdade, estou a anos-luz de chegar sequer perto de ter um projeto de mestrado e a qualidade do planejamento das minhas aulas é bastante questionável. Fim de ano, descendo até dezembro “na banguela” pra evitar a fadiga pois falta gás pra qualquer coisa.

Ao menos é isso que digo a mim mesmo, que foi um ano cansativo, que a preguiça é só estafo, uma gordurinha necessária pra queimar em preguiça e acomodar as tantas ideias que vieram das minhas últimas decisões – queimar o tempo, queimar as horas… e alguns cigarros pra desanuviar o estresse em sua fumaça leve e inebriante. A justificativa até dá algum ânimo, sabe? Parece que tudo é possível (ainda), só não hoje, e tudo bem passar a tarde no youtube e a noite fazendo sabe-se lá o que, pois no final tudo se resolve, magicamente, independente de mim.

O comunista culpa a sociedade materialista, as relações de parceria e cooperação fúteis em um meio alienante e estéril de tarefas pouco inspiradas, a proletarização de meu ofício de educador (agora um mero “técnico do ensino”) e tudo isso que me corrompe pelo meu desânimo; o burguês insiste em dizer que a falta de perspectiva da carreira, me distanciando do “sonho da casa própria” e da “independência financeira” é que são os verdadeiros culpados. Eu, por eu mesmo, não culpo os anjos nem o mercado, mas o tempo por insistir em passar e não me levar junto.

O mais triste nisso tudo é que contei tantas coisas que não sobrou quase espaço para contar histórias. Sem grande prejuízo de minha humildade, posso dizer que sou escritor e essa é uma parte minha que tenho negligenciado em grande medida sem justificativa razoável. Talvez eu lance um livro com a parte aproveitável daquilo que escrevi nos últimos anos, um jeito de declarar ao mundo que já produzi o que tinha de produzir, talvez. Não preciso decidir hoje não é mesmo? Não precisa ser hoje, nem amanhã, nem nunca. Não importa. Despareci em mim, mais uma vez.

Eu não estou aqui – não conte comigo. Vinte e cinco anos de ausência nesse mundo.

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