Os Cachos de Mannoela

Mannoela mimava seus cachos, com direito a creme, massagem e um preciosismo digno de mãe zelosa a lamber a sua cria. Esse era um pensamento que divertia a seu observador, os cachos de sua amiga como seus filhos, algo que procurava a oportunidade para compartilhar com ela ali estancado, hipnotizado pelos movimentos repetitivos da menina em frente ao espelho. Já estavam há alguns minutos em silêncio: ela, em pé de frente ao espelho da porta do armário de seu quarto; ele, sentado na beirada da cama. Eram amigos, nada mais (fazia questão de reafirmar mentalmente em sua cabeça, por qualquer motivo) e haviam se encontrado na casa de Mannoela depois do colégio para estudar para a prova de trigonometria.

– Seu cabelo está engraçado assim, Manu, agora que você mudou ele… – ia logo acrescentar seu comentário, expor a sua genialidade na analogia que houvera criado em sua mente, mas as palavras saíram atrapalhadas, logo vira, pois sua amiga estava visivelmente constrangida. Silêncio.

Engraçado como, Rodrigo? – Mannoela se ressentiu pela palavra, estava insegura naqueles tempos em que decidira “assumir” seus cachos após tantos anos de alisamento e chapinha, tendo sido necessário inclusive recorrer ao expediente de diminuir seu comprimento consideravelmente para eliminar a química. O risinho no canto da boca de seu amigo, como se caçoasse dela, a atingiu como uma flecha no peito, algo que procurou disfarçar.

– Não, nada assim! Eu… sei lá, esquece! – ele a conhecia desde pequena, estavam no segundo ano do ensino médio e já iam na casa um do outro desde os primeiros anos do fundamental e, pela primeira vez em muito tempo, não se sentia à vontade com ela. Queria mudar de assunto, queria sair de cena e se recolher dentro de si mesmo de tanta vergonha – um sentimento muito estranho para Rodrigo que costumava ser cheio de si.

Mannoela terminou de cuidar de seus cachos já sem a mesma felicidade de mãe, minutos antes, quando correra pra o espelho logo depois de chegar da escola. Perfurada pelo olhar do amigo, compartilhava de seu constrangimento e só queria acabar com aquilo rapidamente, revisar meia dúzia de páginas do caderno de matemática e dispensá-lo o quanto antes da forma mais educada e discreta possível, pois era, antes de tudo, orgulhosa. O menino pressentiu a deixa e tratou de facilitar o serviço.

– Minha mãe, ela… quer que eu ajude em casa, lembrei agora, desculpa, Manu, acho que teremos de deixar isso pra outra hora. Amanhã depois da escola? – já ia saindo pela tangente, colocando a mochila nas costas e passando pela amiga quando teve seu braço gentilmente tocado pouco antes de passar pelo batente da porta, que estava aberta.

– Olha, toma, pode ficar com ele – Mannoela lhe estendeu a mão com um de seus cachos, meio sem jeito. Como Rodrigo estava de cabeça baixa não percebera bem o momento em que ela o havia cortado com a tesoura escolar sem ponta, de improviso, que estava em sua outra mão. Sem saber bem como reagir diante daquela situação cada vez mais desconfortável, o adolescente recebeu o presente inusitado e o colocou no bolso da frente da camisa do colégio, murmurou algo próximo de um “brigado” e saiu de lá o mais rápido que pôde.

Somente ao ganhar as ruas, mais de um quarteirão de distância da casa da amiga, é que se sentiu mais aliviado a ponto de encurtar os passos e andar normalmente – questionando-se inclusive o porquê de tanta pressa, achando-se ridículo por sua fuga. Ele conhecia a menina há quase dez anos, pelo amor de deus! Por que esse pânico todo, de repente!? A resposta para esse dilema lhe fugia a passos tão largos quanto os que dera para evadir do marco zero de toda aquela angústia, o quarto de Mannoela, como se a distância do local lhe distanciasse emocionalmente do que sentira ficando ainda mais difícil de entender sua confusão. Com três ou quatro quarteirões, já parecia não importar.

No meio do caminho, entre a sua casa e a dela que ficavam no mesmo bairro da escola, Rodrigo sentou no banco de uma praça e decidiu puxar o caderno de matemática da mochila para estudar. Era um dia agradável, de poucas nuvens, sol constante e uma leve brisa para compensar o seu ardor, suficientemente convidativo para que ali permanecesse. Os dois jovens estudavam no período da manhã, mas o garoto já houvera almoçado na própria escola não havendo pressa para voltar para casa, pelo menos não até que escurecesse ou sua mãe voltasse do trabalho.

Sua atenção, entretanto, só durou o tempo de duas equações trigonométricas até que as voltas nas circunferências espiralassem para fora do livro em forma de cachos: os cachos de Mannoela. O pensamento não era novidade, desde que a amiga adotara o novo visual, se via aos flashes de memória pensando nela e no quanto não fazia o seu tipo e se essa apreciação o fazia um sujeito mais ou menos legal, “gosto é gosto” costumava ser a sua conclusão. Ele gostava da Mannoela de antes, a Mannoela de sempre a que estava acostumado, liso ou cacheado a verdade é que não fazia tanta diferença, o que lhe incomodava era a mudança e a pouca familiaridade que sua nova figura lhe provocava – era difícil até de olhar para ela.

Rodrigo suspirava, respirava pesado ao pensar nisso como se algo lhe comprimisse os pulmões. Naquele momento, sentiu como que uma pontada no peito e ficou preocupado, sensação que se irmanava de alguma forma com o que sentira minutos antes no quarto da colega de estudos. Olhar para ela, ele queria olhar para ela mais uma vez! Aí sim saberia do que tudo aquilo se tratava. Logo ficou claro que parar no meio do caminho nada tinha a ver com a contemplação da natureza ou qualquer coisa do gênero, mas com uma misteriosa vontade de não se distanciar em demasia de onde viera, tornando a decisão de seguir em frente ou voltar, uma dúvida plausível – sem passar do ponto de não retorno.

Foi aí que fez então a caminhada mais longa de sua vida… que não deve ter durado muito mais do que dez minutos, mas pareceu-lhe uma eternidade no compasso acelerado de seu coração que estourava no peito. De volta a porta de Mannoela ele hesitou antes de tocar a campainha e reavaliou mentalmente o que estava a ponto de fazer, sem chegar a conclusões: racionalmente, era difícil explicitar os seus motivos e mais ainda as suas intenções, mas como a decisão de sair tampouco fora racional, voltar de alguma forma restaurava a “razão” da situação.

Prostrado diante do umbral, como um condenado, tocou a sineta somente quando se tornara inevitável (ou ridículo), pois logo os vizinhos e passantes da rua estranhariam sua presença ali, parado. Já estava feito. Ciente de que o pior ou o mais constrangedor já havia passado, Rodrigo só então relaxou e pôs-se a limpar seus pés no capacho olhando distraidamente para baixo quando percebeu algo ao espiar um cacho timidamente aninhado no bolso de sua camisa, colocado no peito: cabelos lisos podem até ser bonitos, mas somente cachos tem o vigor e a força para fincar raízes em nossos corações. Alguns segundos depois, a porta se abriu, ao que ele humildemente perguntou:

– Posso entrar?

Com um olhar de feiticeira, satisfeito e tranquilo, ela o conduziu para dentro, irreversivelmente. Rodrigo estava irremediavelmente apaixonado.

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