Folhetim #5 – sexta-feira

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Cinco horas da tarde. Mais de uma semana se passara em que Suzana, exaurida, abstinha-se de viver emoções fortes dignas de literatura. Nada mais justo, ou necessário, dado o cansaço dos momentos passados em que a emergência do novo culminou na brutal destruição de qualquer zona de conforto. Tornar aos bastidores e aguardar a próxima deixa – essa vinha sendo a ordem do dia. Nos subterrâneos da consciência, no entanto, uma força contrariava esse marasmo auto imposto tencionando a alma silenciada como um instrumento de cordas – esquivando-a da frouxidão, mas também evitando um estresse que a arrebentasse – musicando a vida, mais uma vez.

Oito dias desde o “encontro com o destino” que, pra variar um pouco na atmosfera de nossa história, não veio dramaticamente à galope sob o arauto dos cavaleiros do apocalipse, mas na arritmia inocente de passos-tropeços de uma criança. Quebra de expectativas, por se conseguir exatamente o que queria e esperava. As pequenas galochas e a capa de chuva em miniatura, ainda assim inadequadas à sua baixíssima estatura, lembrava Suzana agora ao repassar o evento em sua cabeça, deram qualquer coisa de fabulosa e mágica à sua presença. Uma criatura feita de felicidade e sonhos correndo ao seu abraço.

Era seu sobrinho e tinha nome e aura de anjo – tranquilidade e paz, enfim… até o seguinte pensamento: quem o trouxera até ali? Erguendo-o por entre seus incontáveis pertences, bolsa, mochila e sacolas, com admirável destreza, ela beijou e apertou a criança esperando ansiosa até o próximo ato. Suzana lembrava dos eventos sob o olhar vigilante do relógio-ponto, localizado em um corredor a poucos metros de sua baia no escritório corporativo. A lenta marcha dos ponteiros a fazia refletir sobre o descompasso do tempo, em alguns momentos, quando as batidas do coração contrastando com os tic-tacs do relógio deixavam o mundo em câmera lenta.

Foi nesse estado que aguardou sua nêmesis, a mãe de seu sobrinho, esta que provavelmente apareceria (e apareceu) na sequência que evitava chamar de irmã para cultivar a distância, por questões que não cabem aqui – questões sem cabimento algum! – nos emendaria, se pudesse, a tia coruja que equilibrou naquela espera, junto de Rafael (curiosamente identificado no dicionário dos nomes como “aquele que brilha e cura”) e seus pertences, também júbilo e expectativa.

A troca de olhares e murmúrios que substanciou o encontro inevitável deu ao evento uma naturalidade e leveza imprevista. Sumira surgiu, poucos segundos depois de seu filho e da mesma direção; carregava sacolas acomodadas com dificuldade, principalmente no braço que brandia o guarda-chuva que o esmaecimento da torrente a fez guardar; ambas se olharam e se reconheceram, depois a Rafael e então ao fórum da praça João Mendes parecendo partilhar dos mesmos sentimentos confusos, em um misto de alegria e tristeza, nesse percurso. A coisa toda acabou em questão de segundos, quando da retirada do menino dos braços de Suzana por sua irmã, de forma sutil, gentil e segura, naquele talento de mãe que a descrição sumarizada a faria parecer ter três braços por sempre ter uma mão livre para estender à sua cria. Tão breve quanto chegaram, se foram, sem dizer uma palavra (nenhuma de que se lembrasse, ao menos).

Cinco e dez – de volta à “firma”, de volta ao presente. Até aquele momento, Suzana evitara significar demasiadamente o encontro com sua irmã, pois sabia que pensamentos viriam à tona se o fizesse: a busca por uma reconciliação tácita no discreto sorriso que tinha quase certeza ter visto ou, no mínimo, com isso o anúncio de um cessar-fogo; o desassossego ante a constatação da insolubilidade do conflito; a dubiedade do termo “amarração para o amor” diante da situação que podia ter “laçado” tanto a seu amado sobrinho como a sua desagradável irmã – eram só algumas de suas lucubrações que iam se multiplicando.

Felizmente, no entanto, uma alma propriamente tencionada não estoura nem se afrouxa diante das dificuldades, driblando e encaixotando a crise como que entre as traves de uma partitura, transformando-a em harmoniosas melodias. Racional e impositivamente, conforme tomava mais uma vez posse de si mesma, procurava uma forma de dizer que os dias de tormenta acabaram, procurando respaldo no mundo das letras para dar corpo às suas epifanias, sondando fragmentos literários em sites de citação e letras de música.

“O problema é não haver problema” – começou a execução de sua busca com este excerto de O encontro marcado. A sentença, no enredo da obra, escapava de um grupo de jovens amigos que “puxavam angústia” perscrutando as profundezas de suas almas. Talvez o maior problema, assim como para eles, era não haver uma grande questão para ser respondida sendo essa a causa de seu vazio até ali: nenhum amor para amarrar, pois preferia essa vida sem amarras – tanto seu sobrinho quanto o amante que desarrumava suas cobertas, eram amores que tinham seu próprio tempo e espaço; nenhuma reconciliação para ser feita, pois a tudo e a todos que estendeu seu coração e corresponderam a essa abertura, tinha certeza ter dado suficiente espaço para reatarem-se os laços.

A frase servia-lhe, portanto, mas ainda não era completamente suficiente, até porque a constatação de que não houvesse problema estava longe de lhe provocar angústia – ao menos não naquele momento. A potencial semântico também era complicado, pois a prosa precisa de um contexto que a sustente e talvez o sentido do fragmento se perdesse àqueles que não conhecessem a obra de Fernando Sabino.  Poesia, a resposta estava na poesia! – não havia outra conclusão possível, na linguagem compacta do verso encontraria aquilo que procurava. Drummond, Pessoa, Bandeira, Quintana; Vinícius ou Meireles, quem sabe? A escolha era difícil, mas parecia próxima de se concretizar.

Cinco e quinze e a chuva começava a cair lá fora fazendo-a pensar em uma solução alternativa, meio prosa, meio verso – conceitual: para quem valeria a penar correr nesse temporal? A pergunta referia-se a poesia declamada Run into the rain de Iyeoka, estando agora a voz enérgica da interprete retumbando em seus fones de ouvido enquanto acompanhava a transcrição na tela de seu computador. O questionamento principal dessa obra residia na entrega do eu lírico para uma sensação simbolizada no esforço despreocupado de se correr na chuva. Forte e envolvente, sem dúvida, mas ainda não era isso, pois não havia algo ou alguém para quem quisesse entregar (mais do que já se entregara).

O tempo subitamente voltara a marchar em seu rimo normal e constante, cinco e vinte… cinco e vinte e cinco… mais cinco minutos e poderia sair – precisava concluir logo aquele esforço de auto-descoberta. Neste ínterim, o circuito fechado de suas conclusões, que sempre a levavam para o mesmo lugar, de uma satisfação sóbria em relação àquilo o que fora e se tornara, a deixava desconcertada e, por pouco, não descambou em angústia não fosse o providencial auxílio de sua linha do tempo no Facebook que agora percorria para queimar os últimos instantes antes que desse a sua hora. Um amigo compartilhara uma citação do poeta curitibano Paulo Leminski que parecia se encaixar perfeitamente à sua situação. Suzana, satisfeita, desligou então o computador e se preparou para sair arrumando as suas coisas: acabara, de fato, a provação e não era mais necessário procurar a solução fora de si – tinha tudo o que precisava bem amarrado no peito, seu coração, seus sentimentos, seu amor-próprio e amor pelo mundo de uma autêntica sonhadora. Como dizia Leminski:

“isso de querer
ser exatamente aquilo
      que a gente é
ainda vai
      nos levar além” 

FIM

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