Folhetim #4 – quinta-feira

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Uma chuva torrencial caía sobre a cidade para delírio dos homens do tempo com seus índices pluviométricos e marcas históricas datadas de tempos imemoriais. A análise cientificada da estação AM que retumbava nos fones de ouvido de Suzana, por mais realista que fosse, pouco satisfazia à apreensão de sua realidade sensível – muito mais preciso, lhe parecia, descrever a situação com tão somente “está chovendo canivetes”.

Ela estava lá, no centro da tempestade embaixo de sua sombrinha que mal a cobria impondo-lhe a dura escolha do que preservar, entre seus pertences, ante a implacável torrente. Como Noé, no absurdo-sintético acolhimento de todos os animais de par-em-par na ínfima arca, Suzana fazia o impossível tentando salvar tudo o quanto pudesse em um malabarismo risível com a mochila e a bolsa. A diferença aqui é que, ao contrário do personagem bíblico, nossa heroína carecia de um conselho preciso de como seguir ou de qual seria exatamente o seu papel naquele ocaso ou até mesmo se a peça que se desenvolvia descambaria em um drama ou uma tragédia.

De forma imprecisa, enxergara a sua Verdade, através dos olhos de Cassandra. Uma perspectiva que podia muito bem lembrar os veículos de vidros embaçados, com seus limpadores frenéticos, que iam e vinham na avenida à sua frente – aqueles ali mal enxergavam o que havia à sua frente precisando reduzir o ritmo por cautela. A descrição de um sonho de alguém que mal conhecera, era tudo o que tinha para guiá-la; a eternidade imóvel de uma monção, era esse o seu ambiente, sincronizando-a com o lento e espaçado tempo da natureza.

O local trazia alguma insegurança, mas não era desconhecido. Pelo contrário, o desconforto (ou surpresa) jazia justamente na incrível descrição feita pela mística de um reduto que lhe era tão familiar. Aninhando-se, como podia, em um ponto de ônibus que gradualmente se esvaziava, Suzana relembra as últimas palavras de Cassandra:

“Aguardando-lhe na encruzilhada de seu passado com o fim do mundo, encontrará o seu destino”

A descrição fantástica e alegórica, por si só, não a conduziria, como se sucede com mentes mais ingênuas, a preencher lacunas de indeterminação como ” esquina do passado” por aquela rua, onde tantas vezes, na infância, caminhara com seu avô e sua mãe, ou “fim do mundo” pela chuva histórica que caía sobre o concreto. Houve, antes, uma direção bastante objetiva acerca do dia e horário como também uma caracterização demasiadamente lúcida do fórum da praça João Mendes que tornara obrigatória a sua presença ali.

Angustiante, era-lhe a sensação de pés molhados, à ponto de carregar, em algumas ocasiões, um calçado reserva em sua bolsa – não era o caso, tendo então de compensar em determinação o que lhe faltou de astúcia. E Suzana era realmente aguerrida, uma força de vontade beirando à teimosia. E, ainda que sua conselheira esotérica nem sequer entrara em detalhes mais profundos acerca do desenvolvimento possível da trama, ela já se considerava muito para além do ponto de não-retorno para cogitar dar meia volta – queria ir até as últimas consequências.

Foi então que, quando as energias começaram a fraquejar, como uma miragem no deserto, ele surgia ao longe, aparentando preencher as lacunas de sua mente desesperada. Caminhava protegido por uma capa de chuva amarelo-transparente, à passos largos, pisando em possas d’água desavisadamente, em sua direção. Não havia dúvidas acerca de sua identidade, nem mesmo do sentido da presença de ambos naquele local. Quando os dois estavam frente-à-frente enfim, o sol cumprimentou-os, com sua feição cálida e reconfortante de fim-de-tarde, por entre nuvens vacilantes que lentamente fechavam as torneiras do céu.

Acabara a provação.

[continua…] 

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