Folhetim #3 – quarta-feira

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Os dedos de Suzana golpeavam a pequena tela de celular impiedosamente. Era noite e as luzes do quarto já estavam apagadas quando decidiu responder às consecutivas mensagens de sua amiga ansiosa. As impressões sobre sua inesperada visita à vidente ainda reverberavam em comentários constantes e extensos acerca de sua conduta – do que havia feito e qual atitude caberia a seguir.

Os lençóis cobriam preguiçosamente parte de sua nudez que o ímpeto dos carinhos e carícias de seu amado lhe provocaram instantes antes. Chico, ao contrário de sua parceira ainda atenta e disposta, gostava de dormir depois do sexo e ressonava ao seu lado encolhido no canto da estreita cama de solteiro que improvisadamente servia ao casal apaixonado.

Suzana, sentindo-se Suzy no contato com o calor de seu príncipe inerte, pele com pele por baixo dos lençóis, contemplava, em um breve respiro entre as mensagens, o cenário que os cercava. Cobertas e travesseiros; saia, calça e roupa de baixo espalhavam-se pelo quarto como ondas de uma tempestade furiosa, a expressão cênica de um dilúvio de paixões ainda fresco em sua memória.

Deita comigo! – suplicou-lhe Francisco, calmo e assertivo, para a amada que se sentara aparada na cabeceira da cama para melhor enxergar os infinitos caracteres que voavam diante de seus olhos. Sem insistir em seus intentos, não tardou até que o suplicante voltasse ao sono… ou talvez nunca tenha saído, pois era costume que falasse dormindo. Entretanto, procurando consolar essa vontade, mesmo que calada, imperiosa, Suzy pegou uma de suas mãos entrelaçando os dedos , oferendo-lhe assim a guia segura e firme para o mundo dos sonhos. 

Uma das instruções de Cassandra, inclusive, lembrava-se ela ao fazer isso, referia-se especificamente às mãos. A antiga arte da quiromancia, uma das muitas habilidades da mística, ia muito além da interpretação de seu riscado na palma, também cuidando de seu formato e proporção. Os dedos longos que ainda estocavam o celular furiosamente, por exemplo, eram denotativos de uma “mão psíquica”, a prova cabal de algo que sempre soube, sua sensibilidade exacerbada; já a mão dormente que encontrava a sua, por outro lado, era “filosófica”, revelando uma personalidade altamente intelectualizada e, até certo ponto, impermeável e inflexível – quem sabe até intolerante.

Não era por menos que não contara a ele sobre o sonho relatado por Cassandra, tampouco sua visita – ele nunca entenderia. Eventualmente, e via esse dia se aproximar com alguma urgência, iria tomar uma atitude drástica em relação à aquilo tudo, mas por hora se reservava o direito de curtir a silenciosa cumplicidade de Chico, mãos nas mãos, naquele amor quiral de dois apaixonados – Suzy era, sem dúvida e acima de tudo, uma “quiromântica” incurável.

[continua…]

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