Eu, Luis R., 24 anos, Clara Crocodilo

Antes de começar, um aviso rápido aos navegantes: não, esse não é um relato pessoal de meu uso de psicotrópicos ou algo do gênero, apesar de ser sim uma história de vícios e ter lá seu cunho autobiográfico (referência óbvia à célebre história de Christiane F.) meu objeto é outro. Uma questão formal, apenas isso: pensei ser essa uma maneira mais poética de tergiversar sobre um tema cansado, carregado de lugares-comuns – o dia-a-dia de um professor. Parodiando a popular página de Isadora Faber, eu poderia aqui chamar esse relato simplesmente de “Diário de Classe” ou até de “Diário do Professor”, mas a presente escolha se mostrou muito mais interessante e até divertida, ponto que espero provar ao longo do texto.

O fato narrado é breve, tendo seu desenvolvimento quase que totalmente restrito, feliz ou infelizmente, aos recônditos espaços de minha consciência, ressentindo-se esse professor, por covardia ou por cautela, de tomar atitudes ou dividir seus pensamentos – até agora. Estava eu em uma típica HTPC (reunião semanal de professores que varia seus propósitos da venda de cosméticos, discussão de problemas pontuais à discursos motivacionais), quando algo me chamou a atenção: um texto que puxava mais para o último dos propósitos elencados que operava pela lógica empresarial. O autor, através da mais infame das metáforas, alertava-nos para a importância do PLANEJAMENTO (sic) em uma rotina de trabalho para evitar o desgaste e a perda de foco.

“O jacaré é o nosso dia-a-dia” – dizia o oráculo – “É a rotina que lhe ataca de manhã e que impede que você faça todas as tarefas que planejou para o dia” – complementávamos, iluminados pelo conhecimento, pois coube aos professores o ridículo de ler o texto em jogral. Trocando em miúdos, aparentemente o autor considerava “um jacaré a lhe morder o pé” metáfora boa para distração e problemas de último minuto… quando a tarefa principal é “drenar o pântano”. Achei aquilo de uma pobreza semântica absurda, mas.. bem, a mensagem estava dada – os professores são desorganizados. Vai ver o caos do sistema educacional é nossa culpa, por perder tanto tempo nos distraindo com jacarés e crocodilos… e ouvindo cobras e lagartos todos os dias de coordenador querendo mostrar serviço.

Forcei-me acreditar que aquela conversa furada não eram palavras jogadas ao vento, puro desperdício de tempo, e fiz as ideias trabalharem em cima do que eu havia acabado de ouvir. O texto do jacaré podia ser ridículo, mas era breve e evidenciava, bem ou mal, o seu propósito – era um recado do que se esperava de nós e do que seria cobrado. Mas não havia acabado. A meia-hora seguinte, ou mais, foi queimada com a leitura compartilhada, novamente em jogral, de um texto de três ou quatro páginas sobre a importância de compartilhar as experiências de “práticas docentes”. Uma ideia bastante interessante, ainda mais por atacar diretamente o viés capacitista que só valoriza a experiência adquirida em pós-graduações, lato e stricto sensu, negligenciando a vivência prática em sala de aula. O problema é que, em uma sistema totalmente anti-democrático de tomada de decisões (onde tudo vem de cima pra baixo, até a pauta das reuniões) e com uma evolução funcional calcada justamente nesses cursos de especialização (com plano de carreira virtualmente inexistente), são palavras que pairam totalmente no vazio.

Para piorar…

A autora desse segundo texto tinha formação em Matemática, mas se utilizava dos conceitos de História e Memória para a tecitura de seus argumentos de uma maneira totalmente simplificada, vulgarizante e em alguns pontos até mesmo equivocada. Não tenho nada contra interdisciplinaridade, e tenho certeza de que a pós em educação da autora foi muita rica na aquisição de novas referências, mas… podia ter rolado uma consultoria aí! Se era do desejo da coordenação apresentar um texto que debatesse conceitos complexos da minha área, podia ter consultado, se não eu, um dos outros três professores de História da escola antes de disseminar a desinformação alheia. Enfim, espero não estar sendo sectário nesse ponto, mas achei a atitude, se não desrespeitosa, ao menos ingênua. De qualquer forma, o segundo texto, tinha lá seu recado, tão claro quanto o primeiro – precisávamos compartilhar nossos histórias (ou “práticas docentes”), sendo-nos inclusive oferecida uma plataforma virtual para tanto.

A ideia me animou, ânimo logo aplacado pelo ceticismo e sabedoria dos meus colegas que, findada a reunião, logo me alertaram: obviamente que haveria uma espécie de moderação para evitar relatos muito negativos, privilegiando as histórias de sucesso. Sem contar que alimentar essa plataforma é mais trabalho intelectual (e braçal) que não será pago acrescido em nossa já desgastante jornada informal de correção de provas, trabalhos e preenchimento de diários de classe e relatórios para alimentar a burocracia. Ridicularizando a ideia, teve quem parodiasse a obra de Christiane F. usando as iniciais de seu nome e idade simulando um título para os relatos de suas “práticas docentes” – todos caíram na gargalhada. Era hora do almoço e o clima de descontração imperava.

Por mais que fosse uma grandessíssima cilada, não pude deixar de mergulhar em reflexões acerca das propostas apresentadas, sobretudo a de compartilhar a minha História. Sendo meu tempo como professor bastante breve, restaria-me relatar qualquer coisa sobre minhas práticas discentes, meu olhar de aluno, ainda muito fresco na memória. O resultado desse exercício introspectivo me levou dez anos no passado, de volta ao distante 2004.

Eu estava na oitava série quando a professora Paula nos apresentou o livro de contos “Cadeiras Proibidas” de Inácio de Loyola Brandão, não o jesuíta, mas o escritor e jornalista contemporâneo, que fique claro. Partícipe de uma escola literária latino-americana denominada de “realismo fantástico” (ou maravilhoso, ou mágico – há controvérsias acerca da denominação), sua obra nos levava a um mundo fabuloso de homens que despertavam com um furo na mão ou viravam barbantes sumindo no ar. O fantástico era encarado com sobriedade e sem assombro pelos personagens e suas consequências eram, na maioria dos casos (ao menos nesse livro) absolutamente morais com mensagens subentendíveis por trás de cada história. No caso do homem com furo na mão e sua consequente proscrição na sociedade, preconceito; no caso dos homens-barbante, possivelmente a fragilidade da vida que, de um dia pro outro, pode evanescer sem aviso prévio.

Como forma de articular o conteúdo aprendido, a professora de Português nos propôs um trabalho: escrever, nós mesmos, um conto de realismo fantástico. Uma proposta intimidante, pouco gente ali escrevia e lia com frequência maior do que as aulas de redação e literatura da escola exigiam. Eu mesmo era craque na arte de fazer o mínimo, mas acabei por acatar a sugestão e ir a fundo no projeto… ainda que provavelmente eu deva ter feito no último dia do prazo às pressas. O resultado do trabalho, eu reconstruiria de memória (pois o original se perdeu) alguns anos mais tarde em meu outro blog.

Acabei por me revelar um escritor bastante decente e meu conto foi lido em voz alta para turma, junto do de uma colega, com um dos melhores apresentados. Isso não me tornou o escritor do dia pra noite, nem mesmo me levou a reflexão, que agora emerge na consciência, acerca da importância e poder que tem um professor ao buscar e desenvolver o que há de melhor em seus pupilos. Continuei sendo um aluno bastante mediano e minha identidade criativa solapada por minha timidez, preguiça e insegurança (será que hoje é tão diferente assim?). Mas em se tratando de Memória e História, resgatar fatos e evidências são só parte de um trabalho que envolve a reconstrução de uma narrativa de um pretérito inacessível: sorrateiro e arisco, o tempo passado muda a cada vez que olhamos para ele.

Foi assim que, ao refletir sobre aquela HTPC, esse singelo ocorrido ganhou contornos de essencialidade e importância. Não só pelo curioso e anedótico ao referenciar minhas duas maiores vocações (de lecionar e escrever), fontes consideráveis de felicidade e realização, mas também porque um dos contos daquele precioso livro, ainda hoje gentilmente acomodado em minha estante, falava diretamente a mim sobre o que fora dito instantes antes de eu entrar em divagações na atribulada “fila da marmita” do microondas na sala dos professores.

O conto em questão se chama “O homem que viu o lagarto comer seu filho” e, bem, acho que o título é suficientemente explicativo acerca de seu conteúdo central (clique no link acima antes de seguir o texto, pois contém spoilers). Em linhas gerais, a trama resume-se ao encontro fatídico de um carteiro com o acontecimento aludido. Em um misto de perplexidade e impotência, o personagem se rende ao imperativo de seu cansaço ao ouvir os chamados de sua mulher para voltar pra cama, deixando o filho sendo devorado aos poucos, e silenciosamente, em seu quarto empapando os lençóis de sangue. O desfecho da história abate-se sobre o pobre homem que acorda no meio da noite com o bicho em cima dele, devorando-o em seguida.

Pode ser lido como um história sobre a importância do planejamento ou, de forma mais genérica, da ação em momentos críticos. A diferença é que a mordida de um réptil colossal é tratada com sua devida gravidade no conto, mas é vista como distração no discurso motivacional. A vontade de fazer a comparação, levar o livro, ler trechos dele na HTPC seguinte e esmiuçar um pouco de tudo o que compartilhei aqui (e mais um pouco) foi tentadora. Afinal, essa ideia de ignorar os jacarés, ou achar que é possível de alguma forma driblá-los, levaria-nos ao mesmo destino infeliz do homem que viu seu filho sendo devorado e priorizou uma boa noite de sono para pensar mais detidamente no que fazer no dia seguinte. As vezes, é preciso encarar os problemas de frente tal qual eles se apresentam e a situação do ensino público é emergencial.

De nenhuma forma, minha intenção seria com isso negar a importância de uma ação mais analítica e refletida com metas a médio e longo prazo, mas… sem respaldo nenhum de uma administração incompetente e pouco democrática, o trabalho do professor se restringe ao controle de danos. Não vai ser a gente que vai “drenar o pântano” dessas crianças, instituir uma cultura do conhecimento e de preservação da dignidade da pessoa humana, formar cidadãos ou coisa do tipo. Entra aí muito do esforço individual e empenho das famílias, porque tem hora que parece que nada ajuda e ser sujeito decente, humanista e solidário, é nadar contra a corrente.

O problema é que bater de frente não ia me gerar dividendos, nem futuros, nem imediatos – quando muito um tapinha nas costas ou a cumplicidade no sorriso dos colegas professores como quando, ao início da reunião, eu questionei a eficácia de uma avaliação individual em salas lotadas. Optei, portanto, em reservar minhas indagações para esse espaço privado/público que só vai interessar a gente que pensa mais ou menos parecido comigo ou simpatiza com minha pessoa (considerando o tamanho do texto). Talvez o melhor agora seja me preservar, até porque não estou completamente certo de minhas conclusões.

Vinte e quatro anos e alguns meses de profissão, o que é isso? Quase nada. Vai ver esses procedimentos tenham uma razão de ser que minha vã filosofia ainda não perscrutou. No final das contas, vale dizer, deu pra extrair as intencionalidades por trás dos discursos apreciados – a função de um bom comunicador é justamente essa, não é? Ser entendido? Ser levado a sério e respeitado e toda uma outra história…

No discurso capacitista do Estado, que joga toda a falibilidade do ensino na suposta incompetência e despreparo do professor, de jacarés que atrapalham a drenagem do pântano, nós que, reptílicos e indecentes, tornamo-nos os grandes vilões da história. Manter a sanidade mental em meio a esse sistema que preza pela insalubridade e degenerescência é um verdadeiro desafio e não raro me sinto transformado, metamorfoseado em algo irreconhecível. Por vezes abjeto e desprezível como o inseto gigante de Kafka; por outras, “o perigoso marginal, o facínora, o delinquente, o inimigo público número 1” de Arrigo Barnabé, Clara Crocodilo.

“Clara Crocodilo fugiu
Clara Crocodilo escapuliu
Vê se tem vergonha na cara
E ajuda Clara seu canalha
Olha o holofote no olho
Sorte, você não passa de um repolho”

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