O Peso de um Ideal

Acabou. O sonho do hexa, tão romantizado pela imprensa e em grande medida até aceito pela população, não veio mais essa vez. Pode até ser verdade que os sonhos não envelhecem, mas o baque foi forte demais e inevitável pensar onde é que estávamos com a cabeça por ainda acreditar em títulos fantásticos tirados da cartola no último segundo. Nessa busca vã, o futebol brasileiro, se entendido como um legado a ser protegido e amado, foi completamente violado, destruído, esmagado. Dir-se-a tratar-se tão somente de uma partida ante a uma história de realizações e grandes méritos; bradarão os mais saudosistas que a amarelinha tem que ser respeitada – ainda assim, levando adiante a suposta importância de nosso legado internacional, à partir de agora e para sempre seremos sim a seleção do penta, mas também aquela que sediou uma Copa do Mundo e tomou a maior goleada de sua história. As próximas gerações terão  a amarga herança de um “eterno 7×1”.

Diante das frustrações, da dor e do peso no peito, da voz embargada, do choro contido; diante de uma infinidade de sentimentos contraditórios de ódio e amargor onde antes só havia júbilo e alegria, os olhares perdidos de milhões de torcedores miram os céus em busca de explicações. Não o céu metafísico das divindades, importante dizer, pois Deus já anda ocupado faz algum tempo (provavelmente com a complexa questão palestina) e o papa é argentino – nessa instância não cabe o recurso. Não, nossa indignação tem como alvo o panteão de super-humanos, tão próximos e semelhantes a nós, mas que tomamos por nossos protetores ao vestir o manto sagrado que já ornou toda uma linhagem de grandes campeões.

Confrontados, as reações destes oscilaram entre o negacionismo vexaminoso de Parreira e Felipão que reconhecem a existência de um “apagão” inexplicável sem grandes constrangimentos até a devastação de David Luiz que se ressentiu pela felicidade que não pôde proporcionar àqueles que o apoiaram. De acordo com o trânsito dos atletas entre tais polos, degradê de valores que de um modo simplista poderíamos nomear de “da soberba à humildade”, é tentador o ímpeto de construir heróis e vilões, mas eu teria alguma cautela ao ir nesse caminho. Por mais que pareça ético querer julgar a índole dos envolvidos nesse desastre, devíamos antes nos fazer algumas perguntas:

O que afinal significa torcer por uma equipe esportiva? E, aliás, para quem estamos torcendo?

Sim, você pode se pintar de verde-e-amarelo, se enrolar na bandeira e cantar o hino a capella no estádio  o quanto quiser, mas a expressão “O Brasil em campo” vai continuar profundamente demagógica e vazia. Brasil pode até ser o nome dessa equipe que nos trouxe tanta angústia e em alguma medida nos ser representativa, pois é o único time brasileiro da competição, mas sua identidade verdadeira estava ali gravada no peito de cada um deles, no escudo, como todo clube de futebol, em três letras malditas: CBF. Em outras palavras, que os brasileiros tenham que torcer para esse grupo infeliz é um mero incidente burocrático/geográfico.

Digo isso porque, respondendo a primeira pergunta proposta, torcer por uma equipe é reconhecer não só sua ideologia, seus valores e virtudes, mas também a realidade material/institucional que a suporta. O Corinthians, por exemplo, é um time do povo, brigador, sonhador e agora também empreendedor, mas essas ideias não pairam no vazio. Uma visão da história institucional do clube, bem como sua relação dialética com a torcida, vai te dar todo o conhecimento necessário para, se não explicar, ao menos entender mais claramente cada uma dessas ideias, seu surgimento e difusão.

Para além desse componente mais racional de apreciação dos dados há sim a inexplicável paixão que nos faz escolher este em detrimento daquele sem saber bem porquê. Uma escolha, aliás, que não cabe recurso ou emenda, ninguém tenta dissuadir o outro de torcer para um time e mudar para o outro, tal fato seria, aliás, indesejável para ambos os lados e o indivíduo em trânsito, o vira-casaca, seria visto como não menos que um traidor. Ilustrativo disso é o fato de eu ter escolhido o Corinthians para ilustrar meu argumento aqui, mas ser, sem arrependimentos ou dúvidas mesmo admirando a história do rival, um são-paulino convicto. Em decorrência disso, quando muito haverá regojizo por parte dos rivais por serem lembrados e exaltados e quem sabe uma crítica por parte de meus companheiros tricolores por não citar os grandes feitos de meu clube de coração. Mas ninguém vai me solicitar ou confrontar para que eu mude de lado.

Com o time da CBF a escolha é um pouco mais delicada ou até impositiva. É como se fosse o único clube do bairro e torcer contra fosse um insulto aos seus vizinhos… só que o bairro se estende por todo o território nacional. Algo, aliás, que eu não mencionei: há também um fator regional na apreciação de um clube, supõe-se que ele ao menos seja da sua cidade ou estado. Antigamente, porque assim era garantia de ir aos estádios e acompanhar a trajetória dele nos jornais, mas com a internet isso vem se tornando um fator questionável, ainda mais quando não há times de grande expressão nas suas cercanias. É por isso que um flamenguista sergipano não causa grande espanto ou um mato-grossense corinthiano, por exemplo.

A seleção nacional, entretanto, se aproveita de uma camuflagem institucional/ideológica, como se a CBF apenas gerisse o time que em essência pertenceria a toda população. Sendo assim, a canarinho para além do futebol representaria um sentimento de brasilidade que nós projetamos para um mundo (e entre nós mesmos) confundindo assim torcer pelas cores do Brasil com um exercício de patriotismo. É um ideal mais que ultrapassado, tanto o nacionalismo per se que já vem morrendo como conformador das identidades desde o século XX, quanto essa associação e promoção do moral nacional ligado a grandes eventos esportivos. Querer discutir a significação política da vitória ou derrota da seleção brasileira me faz pensar na rivalidade americano-soviética nas Olimpíadas – já foi a época!

Mas se preciso for entrar nesses méritos, vamos lá…

É importante lembrar que a CBF não está plenamente integrada na maquina pública e certamente não age em prol de qualquer objetivo que chegue perto de ser chamado de interesse nacional. A corrupção e o personalismo de nossa herança institucional pouco transparente e democrática chega ao paroxismo em suas lideranças e exigir qualquer representatividade do elenco de 23 jogadores (mais comissão técnica) emergido das entranhas dessa quimera é simplesmente ridículo ou no mínimo ingênuo. Os cinco títulos mundiais só são a ponta do iceberg de nosso verdadeiro legado.

De volta a problemática visão de, ao construir a narrativa dessa Copa do Mundo, concebê-la como protagonizada por heróis e vilões, tenhamos por claro a verdadeira essência desse time que escolhemos torcer. A seleção não estava ali para defender um projeto nacional, quando muito a paixão desnudada de alguns indivíduos com muito talento, é verdade, mas com um poder de crítica raso sem perspectivas de mudança. Desde Parreira e Felipão, verdadeiras estatuas de cera vivas do museu da história do futebol, ultrapassados e caducos; até o comovente constrangimento de David Luiz por não poder fazer as pessoas felizes com seu trabalho. Não há nada de errado em ostentar antipatia por uns e simpatia por outros ao julgar a postura destes homens no momento de queda, mas não nos iludamos estar nos conduzindo, com esse olhar, para qualquer mudança. A verdade dolorosa é que tanto uns quanto outros, nesses casos citados, estão igualmente errados em suas concepções.

O que recaiu sobre todos eles (e na maioria de nós) foi peso desse ideal de futebol brasileiro, magistral, talentoso e improvisado, atrelado a um nacionalismo tacanho que simplesmente já não tem mais razão de ser. Se a comissão técnica enxerga apenas um “apagão” onde há um problema estrutural muito grave, alguns jogadores parecem absolutamente convictos de que o papel deles é fazer a gente ter orgulho de ser brasileiro! Se quiser ver a dimensão do problema da distorção que isso causa, é só pensar que o maior momento de concentração, integração do elenco e garra em todos esses jogos foi na hora de cantar o hino. Eu não ficaria surpreso se soubesse que alguns procuraram e empenharam algumas horas preciosas de treino em decorar a segunda parte pra agradar a torcida… mas aí também é pura especulação, não de um todo infundada, é claro.

Ser brasileiro é um acidente geográfico, nada mais. E só ter esse time da CBF pra torcer que toma pra si a alcunha de seleção nacional é um acidente burocrático, pois não há organização concorrente em solo nacional. Os novos tempos, entretanto, possibilitam as gerações vindouras (e algumas presentes) escolher outros times de outros países e acho que não deveríamos constranger quem trilhar esse caminho, já que a proximidade com os “nossos” é de um todo relativa – a Copa do Mundo pode ter sido no Brasil, mas a grande maioria deles toma avião para Europa ao término da competição regressando para seus clubes. Um breve olhar sobre a estadia do time alemão, nossos algozes, verá que, ironicamente, eles foram tão ou mais brasileiros que os nossos representantes supostamente autênticos integrando-se mais que satisfatoriamente à comunidade.

Com isso eu não quero dizer que a resposta para crise é uma debandada maciça em busca de outras equipes nacionais para se torcer, embora isso fosse interessante na medida em que criasse alguma pressão para a CBF nos prover com um futebol mais vistoso que atraísse mais público. Não, minha proposta vai mais no sentido de nos aliviar desse peso no peito de um ideal insustentável. É impossível jogar querendo defender a brasilidade ou cobrar daqueles que jogam que o façam. Fútil também a análise que enxerga o “jeitinho brasileiro” como causal de nosso fracasso, vendo o 7×1 como um trunfo dos mais civilizados. As bandeiras hasteadas, os hinos e toda cerimônia podem até ter enganado um pouco, mas o embate fatal dessa terça-feira tinha como antagonistas duas equipes competindo no futebol e não duas nações duelando por suas ideologias.

Livre-se desse nacionalismo ridículo e passe a apreciar o futebol um pouquinho mais do que essa necessidade de se ter orgulho do dado geográfico de seu nascimento; livre-se dessa concepção de que o brasileiro tem um jeito especial de jogar que vem do místico e insondável e será eterno – nesse momento, por exemplo, somos coadjuvantes da nossa própria festa; livre-se do peso do ideal da nossa seleção, das supostas potencialidades de um grupo que pinça indivíduos do nada, não atrelados a nenhum projeto de desenvolvimento do futebol nacional, e ambiciona títulos e expressão mundial; livre-se desse fardo e não vai se arrepender – a realidade pode ser dura, mas ter encarado os problemas de frente não daria um terço do desgosto que estamos sentindo agora.

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