Damsel in Distress

Damsel in distress, ou “donzela em apuros”, é uma temática recorrente na produção cultural presente em enredos de filmes e, principalmente, videogames. O núcleo duro dessas histórias consiste na trajetória do herói indo ao resgate de uma mulher indefesa em situação de perigo. Inspirei-me nesse modelo para a construção do conto que publico à seguir:

Deflagrei quatro tiros na porta da frente. Quatro pontos fumegantes na chapa de madeira para anunciar a minha presença. Já passava das quatro da manhã e eu lutava para ficar em pé comprimindo um ferimento no peito com uma das mãos. O coice do revolver, ainda que moderado, tornou a dor latejante insuportável, mas eu lutava com ela ou até por ela, pelo direito de sentir dor em todos os seus matizes mantendo o braço estendido em posição de tiro. Gritei pelo nome dela com a voz embargada em um choro latente. Repeti esse esforço de mágoa e angústia até acender algumas luzes na vizinhança. Não sei por quanto tempo continuei gritando antes que eles me levassem. Minha voz se perdia nos latidos de rotweilers, vira-latas e poodles e minha consciência era diluída na dor e no álcool que guiaram meus passos até ali.

– Manoela você consegue me ouvir?

Café da manhã para dois, como se tornara costume nos últimos meses aquele lar em Perdizes. Nomes de rua característicos como Caiowaá, Aimbere, Caiubí e… Coronel Melo de Oliveira, harmonia que se refletia na mesa do café que possuía café com leite, pão de queijo, requeijão e coca-cola. “Ela precisa se cuidar melhor” julguei-a enquanto sorvia goles de seu coquetel de diabete e gastrite em lata. “Quando nos casarmos poderei cuidar dela eu” concluí silenciosamente para não desagradá-la.

– Manoela?
– Sim
– Ontem a noite, sonhei que você tinha câncer
– Porra, vira essa boca pra lá, Augusto!

Teimosia ou ingratidão, não sei bem por onde, talvez pelos dois, mas era fato que seu juízo não obedecia ao bom senso e simplesmente não reconhecia os meus esforços para ajudá-la. Ela deveria ter me dado atenção…

– Manoela, pelo amor Deus!

Acho que era uma ambulância, mas podia ser um camburão medicamente equipado. Deitaram-me sem deixar de me algemar à maca. A dor já havia passado, mas não a mágoa nem a dúvida e a confusão de meus sentimentos. Disseram-me que eu sonhei acordado, um eufemismo para alucinações com certeza, sei que eles são bem cautelosos ao nos dizer exatamente o momento em que ficamos loucos, mas não precisava esse tato, eu já sabia: foi no momento em que eu a conheci.

– Não faz assim, você sabe que eu te amo…

Televisão ligada embora os olhos presentes dela não se ocupassem. Dois pares que se enfrentavam faiscantes já havia alguns segundos, os meus e os dela desafiando-se para decidir quem daria a primeira palavra. Noite de sexta-feira, eu já estava de pijamas e ela arrumada. Inverno paulistano, botas, calça jeans, sobretudo e cachecol, cabelo solto, produzido e batom vermelho para aquecer aos lábios.

– Acho que você não deveria ir, não hoje.
– Por que isso agora? Não tem nem trinta e quer ser meu pai?
– Não é assim também. Só estou pensando…
– No meu bem, eu sei! Já ouvi essa história, Augusto e, francamente, estou cansada dela.
– Mas, meu amor, cria algum juízo! Sair vestida desse jeito, “pra matar”, o que você está querendo? O que você acha que vai acontecer? Não, eu realmente acho que…

Intempestiva e inconsequente, ela saiu sem se despedir no meio de minhas palavras que ficaram jogadas ao vento. Só voltou horas depois, já aí aos prantos, maquiagem borrada e completamente embriagada, arisca a qualquer contato meu. Não era minha intenção dar sermão naquele momento, ainda que se colocar naquele estado não fosse atitude digna de uma dama, devo ter deixado escapar qualquer palavra nesse sentido, sim, afinal eu tinha avisado que nada de bom sairia daquilo, mas, ainda assim, coloquei-me completamente a seu serviço e ofereci-lhe auxílio e conforto – sem reposta. Era bastante claro que algo de muito errado havia acontecido.

– Ninguém nunca te amou como eu. Nunca!

O delegado, muito educadamente, me fez algumas perguntas em uma suposta informalidade comigo ainda algemado ao leito do hospital. Era-lhes inconcebível  o meu afeto despudorado e irredutível, um amor puro que não conhecia barreiras. Poetas, cineastas e outros maricas do entretenimento acostumados às histórias de fácil resolução tergiversam um bocado sobre esse sentimento, mas são poucos que tem coragem de vivê-lo como eu. “Mas ela não te quer mais!” falaram eles, delegado e enfermeiro, como se isso fosse um argumento irrefutável. Eu a amava, independentemente dela, e isso bastava para justificar minhas ações.

– Os outros não entendem, não lhes dê ouvidos, você não era assim, tem algo de errado, pode falar!

Quando penso nesse dia, minhas memórias se dividem em dois cenários ligados por um fio de telefone. De um lado, estava eu sentado na poltrona do escritório de meu apartamento, barba por fazer, banho por tomar – não trabalhava fazia dois dias; do outro, uma voz pairava em suspenso. Seu perfil flutuava no mar de sombras que minha imaginação esboçava ao longo de sua ligação, transitando entre cômodos, mobiliários e pessoas compondo o cenário (a casa dele), uma mão cingindo-lhe a cintura, beijos trocados na escuridão nos breves silêncios entre suas palavras.

– Volta pra casa, meu amor!
– Você prometeu que não faria isso, que a gente ia conversar numa boa…
– Mas Manoela, esse canalha mexeu com a sua cabeça, você não sabe o que está fazendo!
– Não aconteceu nada do que você pensa, Augusto
– Ele te violou, eu sei que…

Não adiantava alertá-la, a vergonha aparentemente ainda era muita para que ela se permitisse ver a verdade dos fatos: apaixonou-se por quem a estuprou, trocou seu protetor e o árduo trabalho de se preservar para se entregar à volubilidade de seu ser feminil. Não era totalmente sua culpa, afinal, mas minha por não tê-la protegido o suficiente. Ainda cabia um último ato de coragem.

– Estou à caminho, meu amor!

A casa estava à venda, anos depois, e haviam trocado a porta, um tanto quanto óbvio que o fizessem, mas me senti um pouco traído. Seria mais legítimo que ali a deixassem, mais interessante também, um tremendo ato e publicidade contar a minha história. O taxi me trouxe direto da cadeia até ali – ainda que sua imagem esmaecesse na memória, eu não estava disposto a esquecer, procurando na cena do crime as evidências desse amor que não me permitissem perdê-lo. Por entre os cômodos, caminhei fingindo interesse pela compra do imóvel. As sombras de antes tomaram forma, imaginando agora de onde teria vindo aquela fatídica ligação; enquanto as formas de antes tornaram-se sombras, pois eu já não lembrava de mim e nem dela em um diálogo que agora me parecia totalmente distante .

Recontei a minha história ao vendedor, procurando assim que fizesse mais sentido na minha voz do que pairando nas névoas da consciência. Relembrei de como foi desatar os nós da garganta naquele bar, da coincidência que foi encontrar quem conhecesse Manoela e o outro, gozando de meus cornos em voz alta para quem quisesse ouvir e também de minha altercação com meu informante que me rendeu um tiro no peito, a apreensão de sua arma e um endereço. Na alta madrugada, consegui guiar meu carro com muita dificuldade em meio a dor ainda que não fosse muito longo o caminho. Dei quatro tiros na porta na falta de trombetas pra anunciar a chegada do príncipe da história ao resgate de sua princesa – em vão. Fiquei sabendo depois que não havia ninguém em casa, naquele dia.

O vendedor, atônito, me conduziu ao fim da visita com o mesmo sorriso cordial e inócuo com o qual me recebera. Muito provavelmente chamou a polícia logo depois de bater a porta às minhas costas, mas não fiquei para saber. Algo em tudo aquilo me dizia que nossa história havia chegado ao seu final. Caminhei dali com muita tristeza, triste por mim e também por ela diante do que eu sentia que deveria fazer. Ela teria de se cuidar sozinha, agora.

– Manoela, me desculpe, mas é hora de partir.
– Quem me dera, Augusto, tudo o que eu queria era partir…

Olá, meu nome é Alessandra e eu sou alcoólica.

O meu relato talvez seja um pouco longo, mas fui encorajada por minha madrinha a redigi-lo para ler aqui em voz alta para vocês, portanto peço um pouco de paciência e compreensão.

Chamem-me de Alessandra, ou de A., embora esse não seja realmente o meu nome. Isso tudo porque há alguns anos atrás conheci aquele a quem devo a destruição de minha identidade. Primeiro os amigos, depois minha autoestima, boa parte de minha sanidade até por fim acabar com meu nome. Dói-me o fato de que nem sequer possa identificá-lo em voz alta para não me comprometer, permanecendo meu ex-captor, com direito ao seu nome e ao meu, incólume depois de tudo o que me fez. Sim, é verdade que chegou a ser preso por algum tempo, mas, de alguma forma, fui eu que fiquei cativa em uma prisão de ilusões e mentiras para o resto de minha vida.

Aconteceu quando eu ainda vivia em minha cidade natal, residência de meus pais, familiares e amigos que aprendi a amar e hoje aprendo a esquecer nas omissões de meus relatos. Foi, mais precisamente, em uma festa da faculdade que tudo começou. Lá, apresentaram-me um rapaz bem apessoado e confiante de papo inteligente. Eu já estava na pós-graduação e há alguns anos alçava postos de gerência no trabalho, considerava-me pronta para morar sozinha, ou acompanhada, mas cansada dos pós-adolescentes de relacionamentos passados. Não digo que tenha mergulhado de cabeça para um relacionamento sério ou mesmo que estava predisposta ou ansiosa para encontrar o homem da minha vida, mas eu queria sim algo mais e achava que estava suficientemente vacinada para separar o joio do trigo.

Esse cara parecia ter esse “algo a mais”, a conversa era boa e o sexo incrível, “um homem entre meninos”, era assim que o via no meio de sua turma ou nas comparações que eu fazia mentalmente com meus últimos parceiros. Ou talvez, penso agora, mais homem ele parecia na medida em que fazia eu me sentir feito menina, cada vez mais apaixonada por aquele príncipe. Não tardou até que o casual se tornasse “relacionamento sério”, pois quando me pediu em noivado parecia loucura me arriscar a perde-lo, ainda que minhas prioridades naquele momento de vida fossem bem outras. A grande questão, vejo agora, é que não pegava bem manter um relacionamento baseado no tesão e em encontros furtivos, não é coisa de “mulher direita”. Fomos então morar juntos depois de apenas dois meses de relacionamento.

Entre viagens para congressos, entrevistas e contrapropostas da minha empresa, profissionalmente nunca antes eu me sentira tão valorizada… enquanto em casa, meu Romeu tratou de mostrar suas garras. Ele nunca deixou de ser “romântico”, dado a discursos, declarações e grandes gestos. Era um amor que parecia se nutrir de publicidade, inflando-se mais e mais a cada vez que uma amiga me dizia que eu tinha “sorte” em ser noiva de um rapaz tão maravilhoso. Do público, ele exigia os seus aplausos; de sua Julieta ele esperava a passividade das musas, congelada feito quadro no peitoril da janela enquanto ele glosava a meio mundo esse amor de bom moço que ele tinha dentro de si.

Sutilmente, ainda que bem embaixo de meus olhos, operou-se essa dupla operação, a multiplicação dos valores de um homem raro e a minha redução a uma mulher de sorte que tinha de se cuidar… ou, em outras palavras, “se dar valor”, pois já não tinha mais nada. Talvez sempre tenha sido assim, em alguma medida, mas esse sujeito parecia explorar e potencializar, como poucos, esse sentimento de impotência infringido às mulheres. Quando me dei conta, estava cancelando compromissos para acompanha-lo nos dele, perdendo de vista oportunidades desistindo de tudo o que me deixasse longe de meu noivo por mais de uma semana. Eu cedia facilmente, fazia o que eu considerava pequenas concessões perto de algo maior (o amor) o que a longo prazo só aumentava a frustração e a ansiedade me deixando ainda mais vulnerável.

Eu mal saía de casa depois de alguns meses, estagnei profissionalmente e perdi contato com amigos. Minha vida social se dava por mensagens no celular ou no computador, mas vez ou outra ele me pedia a senha do e-mail como “prova de confiança” ou se sentava próximo a mim, simulando mimos e carinhos para vigiar minhas conversas, isso me acanhava profundamente para discutir meu relacionamento com pessoas de fora. Aliás, essa noção “de fora” eu aprendi com ele que provou por a + b que envolver terceiros só promovia distorções no relacionamento e deveria ser evitado a qualquer custo.

Quanto mais isolada, mais fácil era mexer com minha cabeça. Não acho que eu tenha sofrido lavagem cerebral ou algo assim, mas as coisas por essa época me atingiam com certa agudeza que é difícil de explicar. Certo dia ele me disse que sonhara comigo tendo câncer, respondi que era uma coisa horrível de se dizer, me senti muito incomodada, mas de alguma forma me saí eu como louca por não querer embarcar na loucura dele de me imaginar com câncer pra entender a fragilidade da vida – da minha vida. Romeu sempre moralizava as discussões.

A partir de então, comecei a reagir diante da evidencia desse aspecto mais doentio de sua personalidade, respondendo suas provocações em voz alta ou passando à ofensiva, provocando-o eu em primeiro lugar. Transformada em criança, presa de um homem que paternalizou nossa relação até o limite, para voltar a ser adulta, foi preciso antes passar pela adolescência. Saía escondida, enchia a cara nas baladas, medicando a ressaca e o mal hálito com coca-cola nas manhãs. Depois de um tempo, já não mascarava minhas atitudes, afinal teoricamente eu não precisava pedir permissão para nada, mas como ele era o portador do bom senso, qualquer ato meu precisava passar por seu juízo para não ser considerada loucura.

Certo vez voltei para casa arrasada, completamente embriagada e cheia de vergonha. Havia ficado com um colega do trabalho em um bar próximo e só não fui autuada em uma blitz da Lei Seca porque conhecia o policial que me parou. Envergonhava-me os excessos, sobretudo da vontade que já não suportava mais aquela vida. Eu queria deixa-lo, mas havia chegado num ponto em que parecia não haver mais nada dentro de mim para oferecer a qualquer outro que não ele. A vergonha, logo percebi, não era por tê-lo traído, mas por ter me permitido sentir alguma coisa de verdade e agido de acordo com meus desejos pela primeira vez em muito tempo. Repeli o corpo de meu noivo quando nos deitamos, naquela noite, ele se aninhava e me abraçava forte junto às minhas costas, mas eu só queria dormir, fugindo para dentro de mim. Minha rejeição, não sei direito como, deu ele a ideia de que eu havia sido estuprada.

Saí de casa no dia seguinte sem olhar para trás, sem levar minhas coisas. Romeu reportou sua amada como desaparecida e insistiu nessa ideia, de que eu havia sido capturada pelo meu suposto agressor, em ameaças ao meu colega de trabalho e cartas para a minha mãe pedindo seu auxílio. O boato se espalhou, eu perdi meu emprego e minha mãe até hoje acha que eu agi de forma precipitada… talvez muitos de vocês considerem meu relato exagerado em alguns pontos. Mudariam de ideia se eu lhes dissesse que ele apareceu sangrando e bêbado e disparou quatro tiros na porta da casa de meu amigo? Por sorte, não havia ninguém em casa e a polícia chegou rapidamente, pois ele havia roubado a arma de um policial, meu conhecido, justo aquele que havia me parado uns dias antes. A coincidência aqui seria cômica se não fosse trágica.

Aqui no A.A. partimos do pressuposto de que o alcoolismo seja uma doença, a parte individual de um mal social maior. Como muitas vezes ouvi, esse seria composto de uma alergia física aliada a uma obsessão mental. E eu adoeci. Ainda que boa parte de minha história pareça fugir do problema central, daquilo que me trouxe até aqui, tentei reconstruir minha trajetória mentalmente para que fosse possível entender as minhas fragilidades, sem isso qualquer reflexão sobre o problema seria superficial, da mesma forma que uma tentativa de compreensão das ocorrências de alcoolismo sem analisar as circunstâncias sociais que o envolvem estaria fadada ao fracasso.

Passei a beber com cada vez mais frequência depois que saí de casa como forma de fugir da realidade e aplacar a solidão. Qualquer pessoa com juízo sabe da real consequência do hábito, do ulterior isolamento de que padecerá inevitavelmente o alcoólatra, mas havia algum conforto imediato nas companhias das noitadas e o amortecimento da bebida me impedia de pensar nas consequências. Com boa parte da minha família e amigos pensando que eu era uma “vadia sem coração”, a reputação de bêbada inveterada não parecia pesar tanto assim… as vezes parecia até amenizar o juízo negativo que faziam de mim. Parecia. Pois a garota baladeira, no senso comum, acaba sendo só uma outra espécie de “vadia”.

Eventualmente, prestei depoimento no inquérito conduzido contra meu noivo. O hálito de álcool, a falta de uma residência fixa e o fato de terem descoberto que vendi o anel de noivado para saldar minhas dívidas com bebida renderam às minhas palavras um completo descrédito. Entretanto, dado o flagrante e depoimento de vizinhos, ainda houve condenação e ele passaria um tempo na cadeia. Se nas noites anteriores eu bebia pra esquecer, nas semanas seguintes eu bebi pra comemorar, tanto celebrei que em dado momento já até esquecera do porquê.

Simultânea à degradação moral de meus hábitos, havia ainda uma campanha contra mim nas redes sociais. A prisão de Romeu me rendera a fama de megera cruel tornando-me um símbolo de uma tal “ditatura da boceta”. Ele me amava, ou assim gostava de dizer, e foi considerado um “magina” por seus pares (um homem vagina), vitimado pelo depoimento calunioso de uma mulher que o desonrou e o Estado que aparentemente coroa minorias com direitos especiais. A despeito da concretude do fato que o levou a ser preso e da virtual irrelevância do meu depoimento, estes meios se baseiam em meias verdades para destilar o seu ódio e não adiantava argumentar. Em algumas versões da história eu era estuprada e me apaixonava pelo agressor, provando a depravação inerente a todas as mulheres; em outras, eu mentia sobre o estupro para prejudica-lo deliberadamente, evidenciando a frieza ou volubilidade, a depender do ponto de vista, das criaturas imprevisíveis do sexo maldito. Todo dia inundavam minha página pessoal e meu e-mail com grosserias; depois vieram as ameaças.

Neste ponto, eu já não queria esquecer, nem tampouco me divertir ou simplesmente me sentir bem – queria apenas dormir! As ameaças continham detalhes ricos de minha rotina, os lugares que eu frequentava e as pessoas com quem saía, bem como meus familiares com descrições vívidas de barbaridades que poderiam acontecer comigo e com eles “em uma cidade tão perigosa quanto a nossa”. Às vezes, eu acordava gritando durante a noite depois de um pesadelo e então bebia até desmaiar. Fui expulsa da casa daqueles que me acolheram, dormindo na rua e em albergues algumas noites até que uma amiga de infância que eu não via há tempos, decidir-se a me acolher aqui nesta cidade. Ela é assistente social, minha madrinha aqui no A.A. e estando familiarizada com casos do tipo, aconselhou-me a deletar os perfis virtuais e procurar os meios legais para que eu alterasse o meu nome. E aqui estou, uma anônima entre anônimos.

O autoconhecimento e a confiança são bases importantes do programa de doze passos. Somos encorajados a enxergar com clareza as nossas falhas para então poder encontrar a nossa força. Entretanto, isso é particularmente difícil para mim, pois há dias em que nem me reconheço mais, pois tudo o que eu sabia sobre mim já não parece existir – nem sequer o meu nome. Talvez fosse mais fácil se eu me sentisse aceita e reaprendesse a confiar mais uma vez. Sinto que a sociedade me aceita como alcóolica, mas ainda é muito difícil ser mulher. São poucos os que ouvirão minha história aqui sem fazer juízos calcados em preconceitos, mas fica aqui o meu testemunho: machismo também é um problema social grave.

Cada um aqui sabe os matizes de sua doença, motivos e circunstâncias nos quais começaram a beber. Não quero com as minhas inferências dizer que padeço de um alcoolismo diferente ou colocar meus problemas em uma outra escala de valores, mas sim apenas compartilhar minha história com vocês, meu fundo do poço, e deixar que extraiam tudo o que for possível dela.

Relacionamentos abusivos também são um vício e creio que muitos e sobretudo muitas aqui correm esse risco ao se colocar sobre a asa protetora de um Romeu que te prometa segurança e compreensão, e Deus sabe como nós alcoólicos precisamos e apreciamos isso! Mas, estejam atentas, pois se em algum momento você sentir que está sendo cobrada ou diminuída por isso é melhor cair fora. Não é totalmente culpa nossa, mais eles do que nós que adoecem desse machismo perverso. Entretanto, para reagir, precisamos reconhecer a nossa força, a parte da ação que nos cabe. Eu, por enquanto, sigo livre de um e outro vício, cada vez mais independente, cada vez mais eu mesma. Não vou beber, não vou permitir que me rebaixam por ser mulher.

Só por hoje.

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