Uma Questão de Maturidade

Geralmente, sou contra interpretações generalistas da realidade, em especial em se tratando de análises da conjuntura política e social brasileira. Opiniões que começam como “O problema do Brasil é…” me dão arrepios, pois costumam dar o sinal pra toda uma série de preconceitos e “achismos” de gente que tem preguiça de pensar. Mas, vez ou outra, uma leitura holística do Brasil, que mobilize uma serie de conceitos e tenha um ponto de vista panorâmico da sociedade, é necessária. Pois bem, adotando essa perspectiva, qual seria “O” problema do Brasil?

Em minha opinião, é possível pensá-lo como uma questão de maturidade.

Não de atraso, veja bem, o país já há muito que não se enquadra na pecha de país atrasado, há relativa sintonia com os sistemas internacionais e o papel que nos cabe dentro deles. Nosso suposto potencial, o tal do “gigante adormecido”, talvez não esteja totalmente realizado, mas nem por isso deixamos de ser uma das maiores economias do mundo. Mesmo em face de uma desigualdade econômica e social alarmante, consideremos que progresso e atraso no mundo capitalista nos ditames neoliberais não é nem de perto uma questão de distribuição de renda, ao não ser nas considerações da força exercida na economia pelo mercado interno de uma classe média fortalecida… mas até nisso pode-se dizer que demos nosso jeitinho com a ampla oferta de crédito cedida às classes populares. O que quero dizer, no fundo, mais do que uma defesa plana governista, é que pra cada aspecto em que somos dinossáuricos em nossas concepções e atitudes provavelmente há outro em que somos perfeitamente modernos ou até mesmo vanguarda no cenário global.

Minha crítica nesse ponto visa o binômio de atraso e progresso que nos faz pensar a história dos países como se fossem uma marcha de sentido único, cada um em sua raia, desconsiderando as especifidades do desenvolvimento de um cenário dinâmico em que o crescimento de um geralmente implica na penúria do outro. Mesmo deixando o marxismo um pouco de lado e as estruturas de exploração do capital, divisão internacional do trabalho e etc, é difícil ter um escopo de análise que ignore ou coloque em segundo plano esses fluxos de poder. Por isso, acho justo dizer que por maiores que sejam os nosso problemas, bem ou mal, nós chegamos à modernidade com o restante do mundo. Mesmo o mais reacionário dentre a classe governante ou empresarial (representando aqui o poder econômico, tão importante quanto o político) não ignora uma análise de conjuntura mundial atual em sua estratégia de poder.

Mas por mais que modernos, somos imaturos.

Ao pensar as vicissitudes da realidade brasileira aqui nesse exercício, o objetivo era vê-las como um estudante de Relações Internacionais, articulando no texto a vivência que tive na faculdade nesse primeiro semestre, mas acabei por conceber a ideia do ponto de vista de um educador – no embate de minhas faces, venceu o professor de História. Afinal, se durante a noite, e em algumas tardes preguiçosas no metrô a caminho da faculdade, meu intelecto se ocupa do trabalho acadêmico nas leituras e estudos do meu novo curso, ainda uma parte considerável da minha semana está comprometida nas minhas aulas de história. Não foi por menos que, pensando no Brasil, seus problemas e crises, era difícil não associar aos meus alunos adolescentes.

Ser um professor, ainda mais na rede estadual de ensino, é um tremendo desafio. Muito se fala em desrespeito à figura do professor por parte dos alunos, mas o buraco é bem mais embaixo… e a gente nem sabe o quão fundo é. “Fracasso Escolar”, é assim que se convém chamar no meio acadêmico, eu já sabia o que me aguardava, por isso sigo em frente procurando reforço na literatura sobre o assunto do ponto vista institucional e pedagógico. Como não sou um gestor, estive me concentrando no segundo e foi aí que me deparei com Vygotsky.

O que mais me intrigou nesse teórico foi sua concepção de desenvolvimento da criança e do adolescente. Nela, o indivíduo não só acumula capacidades ao longo de sua trajetória educacional, mas eventualmente precisa mudar e reorganizar aquilo que já possuí em sua interioridade, tornando-o em grande medida agente de seu próprio processo educacional. Paulo Freire é outro que pensa desse modo em sua crítica à educação bancária que encara os alunos como depositários de conteúdo, recebendo os influxos de conhecimento como moedas em um cofre vazio. Não, a experiência da educação, sob o ponto de vista desses educadores, é dialética. Em Vygotsky, chega-se ao ponto de apontar a maturação do indivíduo como não sendo evolutiva, mas revolucionária com momentos de estabilidade e ruptura nas chamadas idades críticas… como aos treze anos, idade de muitos de meus alunos.

Importante que se tenha em conta que a noção de um adolescente em crise deve fugir da concepção patológica predominante no senso comum, de um ser impossível de se lidar, irritadiço, em conflito com o próprio corpo e com o mundo, geralmente sem causa… ou sem as ditas causas sérias do mundo adulto. Sim, de fato o momento de crise traz um imenso desconforto, mas vai muito além de mero estado de debilitação da consciência e do corpo. Nesse sentido, o trabalho de Vygotsky nos aponta para o processo de formação de conceitos, quando o adolescente dá um salto de uma mera concepção relacional de assuntos em complexos (teias de ideias que se ligam por um ou outro fator) e conceitos que ele reproduz dos adultos e passa a construir sua própria visão de mundo. Pelo o que compreendi, o adolescente encontra o lugar das ideias no mundo e nesse processo acaba também encontrando o seu próprio lugar, mas para isso ele precisa desconstruir algumas das relações previamente estabelecidas, o que constitui um momento de ansiedade, incerteza e insegurança. Por mais que haja sim a aquisição de uma enxurrada de novas ideias, a grande novidade que torna a adolescência um período tão indigesto não é esse fator quantitativo, mas o qualitativo, a forma como ele vai acomodar todos esses conteúdos novos e antigos.

Uma forma possível de se imaginar esse processo (e espero não estar falando muita groselha) é pensando na ecdise, quando um inseto, por exemplo, troca de “pele”. Nela, o animal se desfaz de seu exoesqueleto para que possa crescer de tamanho ou até mesmo mudar sua forma de maneira a se adaptar melhor ao ambiente. É um momento de melhora, mas também de muita fragilidade, pois o animal exposto além de mais vulnerável aos ataques de seus predadores não consegue reter líquidos com a mesma eficiência e gasta muito de suas reservas enérgicas para manter o crescimento e reconstituir o exoesqueleto.  No entanto, apesar de ser um exemplo do mundo natural, faço a ressalva de que Vygostky acredita na adolescência muito mais como uma construção cultural, apenas influenciada, mas não determinada, por fatores biológicos, ainda que as mudanças fisiológicas (a puberdade) geralmente coincidam com o movimento de crise dos treze anos. De qualquer maneira, quando penso nos momentos de estabilidade e crise, acabo sendo remetido ao gráfico de crescimento dos artrópodes.

fonte: http://iaci.com.br/

Importante salientar também que a adolescência não se restringe a um momento de crise iniciado aos treze anos, ela compreende também um período de estabilidade até culminar com outra revolução anos mais tarde já aí mirando a fase adulta. No período estável, superada a crise, a rebeldia do adolescente é explicável diante da impotência desse indivíduo que já se sente “pronto” para atuar no mundo, mas ainda é visto com desconfiança pelos adultos que duvidam de sua competência como parceiro social.

Mas ok, onde fica o Brasil nisso tudo?

Nosso país está em crise. Não uma crise financeira, como parte da mídia conservadora sem memória costuma alardear com termos como “inflação galopante” e “PIBinho” sem levar em consideração o contexto de crise do sistema capitalista como um todo ou a relativa estabilidade e crescimento em relação a qualquer outro momento de nosso história recente; talvez uma crítica político-social em relação ao teor de representatividade de nosso governo, mas com muitas ressalvas pensando aqui nas reais possibilidade de qualquer ruptura drástica – a tendência é muito mais de um movimento de reforma. Falo é de uma crise nas mentalidades, na concepção que o brasileiro e suas instituições tem de si mesmos e de suas inserções no mundo atual.

Vygotsky era um estudioso bielorrusso multifacetado. Marxista. Vivenciou a Revolução Soviética, mas não acreditava em uma mera apropriação irrefletida da literatura ideológica de seu regime. Seu objetivo era a criação (ou menos lançar as bases) de um O Capital para a psicologia, com a plena ciência da virtude de um domínio conexo das várias disciplinas aliado ao respeito a especificidade que cada uma tem, com seu vocabulário e conceitos próprios. É até suscetível de questionamento o porquê de eu escolher esse viés psicanalítico ou pedagógico, sendo que quem fala de política seria em tese a revolução marxista mais do que a vygotskyana, centrada no indivíduo. Mas o movimento dialético do conhecimento possibilita esse exercício: se ele se apropriou do materialismo histórico para falar de psicologia, aproprio-me eu agora do pedagogo para falar de política.

Sendo assim, quais seriam as raízes e as características dessa crise?

Conforme anteriormente dito, o momento de crise do adolescente é geralmente coincidente com a puberdade, ainda que não seja fator determinante como no caso dos hormônios encadeadores da ecdise. De forma mais concisa: quem diz ao jovem que é hora de crescer não é seu corpo, mas o meio cultural que o circunda. Isso pode se expressar de maneira mais explícita e resumida na forma de um rito de passagem, como por tanto tempo foi nas sociedades humanas (bar mitzvah, por exemplo – a “adolescência” grossu modu, nesse caso, se resumiria à preparação e execução do rito) ou de forma difusa na estipulação de uma idade escolar e atribuição gradual de responsabilidades. De uma forma e de outra, o que possibilita o desenvolvimento do jovem nesses cenários são suas experiências. É por isso que o fato biológico influi, mas não determina, por proporcionar ele uma experiência nova com o próprio corpo, cabendo a sociedade fornecer outros estímulos para dar sequência ao movimento.

O Brasil é um país jovem. É senso comum, mas não deixa de ser importante ressaltar. Jovem não só em fatores de idade, mas de experiências também. Por muito tempo, a sociedade brasileira teve sua existência mediada por terceiros, às vezes encabeçada por uma elite própria, mas de certo modo alienígena, distante do restante do país. Até mesmo nos momentos de evolução, no atendimento das demandas e concepção do interesse nacional, as reformas costumam vir de cima para baixo. A experiência de comunhão democrática é necessária para a criação de conceitos próprios ao povo e às instituições brasileiras. Não aqui tratando de um nacionalismo tacanho, a solução pode até mesmo vir de um olhar para fora, mas não podemos continuar chamando o silêncio dos excluídos, a anuência daqueles que se ocupam tanto de sustentar as bases da riqueza do país com sua força de trabalho e não tem tempo de se ocupar de política, como democracia –  como Estado Democrático de Direito.

As oportunidades aqui não estão nem perto de estarem bem distribuídas, por mais louváveis que tenham sido os esforços do governo federal nos últimos anos. É um país que reluta em olhar para si mesmo, fala-se em Brasil quando é conveniente, por força do argumento, mas se ignoram os brasis ocultos na margem, sejam nos rincões do interior ou nas periferias das grandes cidades. Quando muito olhamos para eles com desdém e consideramo-nos em face de um problema que nos concerne, mas não tem muito a ver conosco já que a pobreza e a criminalidade teriam mais a ver com as escolhas dos indivíduos que se colocam naquela situação ou na tal da corrupção que nos discursos já alça o estatuto de entidade maléfica corrompendo o que é bom e santo em nosso país.

Somos jovens sim, moleques se masturbando na frente do espelho desde 2013, gozando com a potência do gigante antes adormecido. As “Jornadas de Junho” foram nosso “Maio de 1968”, nossa puberdade e, quem sabe, nossa metamorfose. Só que para isso precisamos consumir todas nossas reservas, sejam elas intelectuais ou espirituais, nesse período crítico. Vulneráveis e inseguros, colocando em xeque tudo o que nós sabíamos anteriormente sobre nós mesmos, esse pode ser um período chave para dar uma nova direção à nossa história, um salto qualitativo e não mais quantitativo no desenvolvimento… ou podemos retornar indefinidamente ao platô de estabilidade pra viver uma segunda, terceira, quarta infância! Entrando em crise, vez ou outra, para crescer dois ou três centímetros. Tudo depende das experiências em que nos envolvermos daqui pra frente, como país e como sociedade. E, claro, como em toda escolha, esse esforço vai envolver uma toma de consciência.

E aí, infelizmente, o prognóstico não é dos melhores.

Fontes de pesquisa:
 
http://www.academia.edu/1432014/VIGOTSKI_DESENVOLVIMENTO_DO_ADOLESCENTE_SOB_A_PERSPECTIVA_DO_MATERIALISMO_HISTORICO_E_DIALETICO
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecdise

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s