Repartição Pública

Trabalho em uma repartição pública – já isso diz de mim o que há para se saber. Normalmente a apresentação contém um nome, idade, quem sabe nacionalidade, signo e tipo sanguíneo (ouvi dizer que era possível saber da personalidade por esse meio)… pois bem, características ou contingências definidoras da personalidade. Dentre todas elas, mais que qualquer outra, o local de meu trabalho é aquele que mais define, acredito. Sim, poderia ir além e dizer diretamente aquilo que faço, minha ocupação per se, bater no peito com orgulho do bravo título de servidor da coisa pública, mas isso, gosto de pensar, somos todos em menor ou maior medida, então me restrinjo ao local, tão específico e ao mesmo interessante ao me revelar – é, trabalho em uma repartição pública.

É uma trabalho dinâmico, muito agitado, embora não devesse ser. Quem já visitou uma repartição sabe que os objetos e pessoas ali ambicionam uma total e completa imobilidade, um silêncio do mundo mais sagrado do que o de qualquer monastério. Meu local de trabalho compartilha desse vir-a-ser, miramos lá como progresso um estado de coisas muito específico que se perde cada dia um pouco mais em nossa realidade fragmentária e caótica. Acho que não é exagero dizer que somos reacionários, nada político, não senhor! Falar de política por lá é complicado, só queremos que as coisas sejam como antes… e eu que acabei de chegar, mesmo sem conhecer bem o antigamente, não deixo de ser contaminado pelo desejo dessa tranquilidade que se foi,

Na busca dessa paz, meu trabalho, ou contribuição, é o de cuidar de cadeiras, 35 delas para ser mais preciso, às vezes 40, depende. O horário é um pouco complicado e não sei se o conheço bem o suficiente a ponto de orientar a mim mesmo satisfatoriamente quanto menos explicá-lo! O que precisam saber é que a cada período x de tempo eu troco de sala e cuido de um grupo diferente de cadeiras. Como estou começando, tenho ao todo apenas quatro grupos que totalizam em torno de 150 cadeiras, mas conheço colegas que manejam de alguma forma cuidar de mais de 1000! É um mistério para mim como conseguem.

Sim, um mistério, cuidar de cadeiras não é fácil.

Nós revezamos o trabalho, cada grupo de cadeiras ganha os cuidados de um certo número de profissionais, entrando um de cada vez. Ficamos lá, sozinhos… ou ficaríamos se não fossem pelos outros. A parte complicada do trabalho fica à cargo daqueles que sentam nas cadeiras. A gente não sabe exatamente da onde vem, mas todos os dias eles estão ali e naturalmente que isso exige um esforço burocrático, pois é uma repartição pública. Uma parte substancial do trabalho envolve registrar as chegadas e partidas desses indivíduos como também detalhes de seu comportamento e, naturalmente, expulsá-los da sala caso não respeitem o meu trabalho de cuidar das cadeiras. O problema é que eles sempre voltam, geralmente piores.

Não me entenda mal, até sinto alguma empatia por eles, podem ser adoráveis e tornar o trabalho muito mais interessante, mas geralmente eles só criam problemas. Possuem uma variada faixa etária, algo entre 10 e 18 anos, quando a gente insiste que eles podem ir embora, daí alguns criam juízo e vão mesmo. Os mais novos são complicados, me distraem muito das cadeiras, e os mais velhos me dão certo tédio, dá pra contar e recontar as cadeiras enquanto miro o olhar perdido deles que parecem simplesmente não entender a importância do que eu faço e do lugar que coabitamos… se bem que eu me questione também as vezes.

Disseram-me umas tantas vezes que já foi mais fácil, naquela velha discussão de como é, como era é e como deveria ser. Contos fantásticos de cuidadores de cadeiras trabalhando com voz imersa em silêncio capazes de mover e moldar as cadeiras apenas com a palavra. Cadeiras que levitam, brincam no ar e viram ouro enquanto os outros permaneciam atônitos e perplexos em um ar de pasmação. Tempos áureos em que a repartição pública honrava seu nome, tempos em que até o espaço privado queria ser público como sinônimo de qualidade. Mas a época passou, os salários não são os mesmos e as cadeiras estão caídas aos pedaços.

Hoje, ninguém respeita a nossa profissão, nem nós mesmos.

Assim como me dizem de como já foi belo, meus colegas insistem em me aconselhar para deixar a repartição ou, se for pra seguir a vocação, escolher uma outra que seja repartição de verdade, com um salário melhor de preferência. Existe essa contradição, se por um lado respeitam a minha inteligência, ao elogiar minha capacidade de poder trilhar outros tantos caminhos se melhor me parecesse, já que fui muito bem no concurso público, por outro parecem me considerar bastante ingênuo em relação às minhas escolhas. Mas, enfim, talvez eu seja.

Tem muita coisa que eu não entendo, por não ter vivenciado o suficiente ou quem sabe por que ainda não caiu a ficha. Penso muito sobre as cadeiras de antigamente, tão bem cuidadas, mas para que? A cadeira ficava ali presa, trancada na sala, sem mudar a vida de ninguém. Sim, causava algum impacto sobre o indivíduo que sentou ali por alguns anos, mas e depois? Ninguém levava a cadeira pra casa. Outra coisa que penso é sobre esse suposto encanto dos cuidadores antigos, afinal a voz de antes e agora é praticamente a mesma, mas o resultado mudou, não produzimos o mesmo efeito. A resposta está naqueles que sentam nas cadeiras de alguma forma, sinto isso, embora não seja muito encorajado a seguir esse hipótese. A verdade é que o trabalho seria muito mais fácil sem eles. Enfim, eles tem todo o direito de estar lá, mas é difícil de deixar de imaginar às vezes:

Ah, quem me dera uma escola sem alunos!

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