(Don’t) Pull the Plug

Decidi outro dia que escreveria sobre minhas últimas experiências, sobre o mundo, sobre a vida, atualidades, generalidades, inutilidades! – e tudo o mais que boiasse na sopa de letrinhas da consciência. Não é novidade para mim colocar essas coisas em texto: no agora aparentemente tão distante ano de 2008 comecei um blog no qual despejei todas as minhas agruras de pós-adolescente conforme elas me ocorriam. Foi terapêutico e, de certa forma, até artístico – enfim, funcionou muito bem por um tempo. Neste esforço de sobrevivência, pois tudo o que eu queria era respirar ao desoprimir-me daquilo que pesava no peito, descobri minha voz – com muito esforço poderia dizer que me tornei um escritor.

“Escritor em treinamento” foi a alcunha que escolhi para essa empreitada. Não à toa: tudo me era novo e não havia compromisso com altas expectativas, tudo o que eu queria era escrever e usar daquilo me ajudasse. Sendo assim, melhorar minhas habilidades era uma consequência, mas não o objetivo, às vezes até um efeito colateral, pois eu ambicionava me ater às cruezas e o texto, com a prática, se tornou cada vez mais refinado, formatado, limpo. No início eu nem sequer fazia revisões e de repente estava reestruturando os parágrafos buscando melhor coesão.

Vai ano, vem ano, eu deixei a pós-adolescência de lado e me tornei um jovem-adulto, troquei de meio-termo e reformei a minha imagem. Sufixar minha identidade com “em treinamento” de repente se tornou insultante e quis me tornar eu mesmo, coisa que se alguém alguma vez já tentou sabe que é a maior das ousadias. Foi nesse contexto que surgiu esse blog, uma proposta que tinha esse dever de ser mais sério em comparação a tudo o que veio antes, mais autêntico – sólido. Os textos de antes, que já vinham rareando com o crescendo das preocupações com minha imagem, se anteriormente estavam pesados, praticamente ancorados no cais das inseguranças, afundaram aqui no esquecimento.

Era tamanha a ambição de parecer mais inteiro e tão imensa a frustração de não cumpri-la que sucumbi à mais desoladora das depressões criativas. Como ser um todo em um mundo fragmentado? Como ser sério, se a vida oscila entre comédia e tragédia? Não existe um gênero “sério”, quando muito o drama e dramático eu já o era até parar pra buscar essa tal seriedade.

Eu me perdi de mim. Com a dificuldade de escrever, fôlego curto, sentenças diminutas, vazias e frias, coube recolher-me ao silêncio como se ele fosse a resposta pra manter essa aparência de dignidade,  atributo da seriedade, que eu me impus.

Foi uma pena, uma tremenda pena porque Luis tinha muito mais a dizer do que um escritor em treinamento poderia sequer imaginar. Já não havia uma angústia invisível, mas um mundo delas perscrutável aos sentidos; já não havia a fantasmagoria de musas e amores platônicos, mas pessoas de verdade a quem amar e com quem compartilhar; já não havia um sonho espiado através do travesseiro, o olho mágico tomou a forma de uma ponte permitindo-me viver e visitar boa parte de tudo aquilo que eu apenas imaginava. Momentos esses todos vividos em grande parte no silêncio.

Labiríntica e ingente, essa ignorância de mim persistiu, pois, se não escrevo, deixo em parte de existir, por mais que tenha este como um dos mais ativos períodos de minha vida. Sou professor e agora “internacionalista” (ou analista de relações internacionais). São muitas as faces e igualmente múltiplos os timbres de uma melodia que segue perdida estacionada na garganta. Seguindo a metáfora musical, poderia justificar essa ausência de palavras como consequência de um espírito, aqui imaginado como um instrumento de cordas, desafinado. Para soar bem, nem muito tensionado, nem frouxo, quem já se aventurou no mundo musical sabe a sutileza que há no ajuste do encordoamento, fatores como material e grossura das cordas também pesam.

Assim me senti: pouco equipado para continuar minha valsa com as palavras tendo a vida, de repente, mudado a melodia e as exigências e expectativas tornando-se de tal forma precisas que tudo o que eu produzia me saía fora do tom, como um ruído imperdoável. Tão preocupado fiquei com os acordes e notas que me esqueci da outra parte da música: do ritmo. Às vezes vale a pena continuar batendo nas cordas emitindo um ruído surdo, abafado, do que perder o passo.

Existe em mim essa vontade de isolamento, como diabinho falando ao ouvido ao estilo dos cartoons de antigamente, me pedindo pra deixar tudo de lado pra abraçar o cobertor e a televisão. Tem a força de um impulso, mas elabora-se como ideia para me ludibriar como sob o argumento do comportamento monástico de certos escritores que se isolam do mundo por determinado período para produzir, ou parir à fórceps, seu material bruto e então, de volta a sociedade, trabalhá-lo e nutri-lo com calma. Afinal, se tanto escrevi quando éramos somente eu e minha musa, por que não tornar a essa época?

A resposta é simples: não dá pra voltar no tempo, agora sou outro.

Não posso me permitir sair da tomada nem por um segundo, parar de consumir e parar de escrever estão fora de questão. Um professor deve ter esse lado antropofágico sempre ativo para conquistar seus alunos, seja pela cruz, instigando a reverência pelo conhecimento plural emanado; seja pela espada, palavras cortantes, impactantes e decisivas que só podem ser usadas à partir de um vocabulário cultural rico. Acrescendo-me ainda outra face tem essa nova faculdade, historiador e agora também um futuro analista de R.I., identidade sobre a qual ainda pretendo escrever melhor no futuro. Seja como for,  para um e para o outro, é preciso estar ligado, antenas sempre atentas recebendo e transmitindo simultaneamente em um sistema retroalimentado.

Esse texto então é uma tentativa de manter o ritmo, talvez ainda não totalmente afinado e até um pouco ruidoso, mas serve para quebrar o silêncio. Não miro nem objetifico uma meta, mas tento fazer desse espaço, do meio, o próprio fim. Escrever e existir… e quem sabe impactar a existência de outros através de meu trabalho. Tenho cá essa concepção de arte como inerentemente política tendo em si o germe transformador da realidade, pois de beleza por beleza já nos estafaram os parnasianos. Sendo assim, pra ser sério, retornando à grande questão, o importante na verdade é fazer arte, e da boa! E no caminho a gente se descobre.

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