A Bolha

Olá, meu nome é Luis Ricardo, tenho 23 anos, sou um paulistano formado em História pela Universidade de São Paulo e vivo em uma bolha. E essa é minha retratação pelos preconceitos que carrego e seus produtos.

Meus últimos dois textos constituem as primeiras partes de uma trilorgia, três contos acerca de uma pequena comunidade isolada pra ilustrar um argumento sobre uma PEC que almeja flexibilizar a criação de municipalidades nas Assembleias Legislativas dos Estados. Atualmente isso é atribuição da União. Pensei, através da ficção, no benefício social que isso traria e até esbocei uma reflexão sobre o papel das instituições públicas e privadas na vida das pessoas, mas logo percebi que dei um salto maior do que minhas próprias pernas.

Estava falando de um assunto que realmente não conhecia.

Eu podia apelar pro argumento da ficção sem compromisso com a realidade, caso fosse confrontado, e dizer que apenas flertei com a realidade, mas não era um relacionamento sério. E estaria sendo cínico, o problema era que o trabalho estava se tornando insípido, não era factível e nem mesmo apreciável. Não deu, simplesmente, faltava pesquisa, faltava conhecimento, faltava experiência!

Nem quis terminar o conto.

A consciência da própria ignorância, da presença que fazem certas faltas, pode ser bastante problemática e dolorida para eu e meus conterrâneos sendo o paulistano absolutamente orgulhoso por ser um cidadão consciente. Talvez esse fenômeno seja extensível aos cariocas e demais habitantes de grandes centros urbanos do Sudeste, como se a densidade populacional e a pujança econômica fizesse dessas cidades melhores observatórios da realidade ao redor, mas aqui a arrogância toma proporções impressionantes.

Impressionantes para mim, vale acrescentar.

Não existe discurso isento, imparcial; não existe realidade factual que prescinda de um ponto de vista ou uma organização mental neutra pra filtrar a realidade apreendida com o olhar. Existe sempre o observado e o observador em uma relação dialética de mútua transformação. Nós, observadores, somos em grande parte aquilo que foi feito de nós por nossas experiências cotidianas, as coisas que observamos ao longo de nossa trajetória de vida.  Em outras palavras, aquilo que disse no começo do texto é substancial para o juízo do mérito de minhas palavras:

Luis Ricardo, minha identidade nominal registrada, marco referencial – me chamem de Luis; 23 anos, minha idade, a juventude e o temperamento apaixonado e idealista; formado na Universidade de São Paulo, instituição tradicional paulista e em História, curso que é a tradição viva, a cultura e alma das sociedades humanas e, por último e não menos importante, paulistano (daí que a arrogância política paulistana me seja mais impressionante, eu vejo isso no cotidiano). Essa é minha identidade, esses sãos os prismas pelos quais enxergo – essa é minha bolha.

Sou bem instruído, aprender sobre a tradição da humanidade em uma das Universidades mais tradicionais brasileiras deve me valer de algum mérito. Porém, tudo o que nos engrandece no universo do conhecimento e da experiência também restringe. Algo perceptível no meu texto, pois no passo que aumento o número de palavras e complexifico a estrutura sintática, um aumento que deveria seria progressivo e qualitativo do discurso por aumentar suas possibilidades, restringe meus interlocutores e, por consequência, meu raciocínio. É a economia do pensamento: no intuito de não superfaturar a apreensão da realidade e nos envolver em diálogos mentais extensos sobre todo e qualquer acontecimento, adquirimos, com o passar do tempo, preconceitos aceitáveis ou, se preferir, aumentamos o óbvio, senso comum, o famoso “como é sabido…”

O discurso, viciado nesses atalhos, acaba tendo uma natureza enviesada e ideológica e aquele que se diz completamente imparcial (algo muito comum no meio jornalístico), por seu cinismo e desonestidade, deve ser considerado o mais suspeito. A alternativa é confiar naqueles que, como eu agora, tentam um exercício de humildade intelectual. Não proponho uma absoluta desconfiança em minhas palavras, isso seria mais próximo da humildade cristã do pecado original como se eu tivesse de pedir perdão pela ignorância inevitável, não, não é isso. A proposta é a da transparência de minha identidade e de suas várias facetas, como minha identidade sócio-econômica, ou, melhor colocando, minha identidade de classe que dá resiliência, força e flexibilidade, para a bolha, encorpando e dando forma a todo o conjunto de minhas características identitárias.

Para a assunção dessa identidade e percepção de minhas limitações, esse texto é um exercício de consciência de classe. Parece excessivamente marxista e anacrônico separar a sociedade em classes como outrora fora em estamentos na medievalidade, antes fosse… esse domingo juro que vi o chefe de uma instituição milenar, soberana na Era das Trevas, juntando milhões de fiéis nas areias do Rio; e pra piorar tem um bocado de gente aqui no Brasil interessada no nascimento do futuro Rei de um antigo império, juro pra vocês! Isso tudo nos cidadãos de um república supostamente moderna…

Meu ponto é que se algumas instituições conseguem sobreviver através do tempo contra toda a racionalidade é porque certas estruturas mentais são difíceis de se dissolver.

No meu caso, sou da classe média e da classe média paulistana ainda por cima. Minhas chances de ascensão são limitadas, mas fui logo ensinado a cobiçar, invejar e acreditar que com suficiente estudo, trabalho duro e boas ideias eu ainda chego . Também nos ensinam, e isso a gente mal percebe, a ter um medo danado de pobre que as vezes se torna ódio puro. Tudo isso travestido de perspicácia ou consciência política, como se o problema do Brasil, o gigante adormecido de tantas potencialidades, fosse a gente ignorante que vota nesse ou naquele partido ou a violência que hoje tá demais. De forma quase unânime e, para todos os lados, fica-se ao redor da questão da impunidade.

No Brasil, nós temos uma das maiores populações carcerárias do mundo e mesmo assim se insiste na tecla de que nosso sistema penal, absolutamente sobrecarregado, está pegando leve. Nós, tomando aqui por base o que ouço nas ruas, pesquisas de opinião e afins, queremos mais prisões pra prender mais gente, por mais tempo e desde menor idade. Nós até simpatizamos com a pena de morte, principalmente se for pra político desonesto e estuprador, mas achamos falácia propor reforma política e complicado falar em legalização do aborto, cultura de estupro e machismo. Nós, na maioria das vezes, não temos ideia do que estamos dizendo e/ou exigindo nem os motivos que nos guiam a fazê-lo, mas queremos tudo pra ontem.

Falar em impunidade, ao meu ver, revela muito mais um ódio de classe do que pensamento crítico em relação ao Judiciário ou consciência política em relação aos problemas do país. Mostra nosso ressentimento com aquele que muito possuí e não se sacia, nossa classe política corrupta, e com aquele que não tem e não se contenta, a juventude pobre e negra que lota os presídios. A gente até finge que é uma questão moral, que queremos justiça… mas pouca gente quer discutir Lei, Justiça Restaurativa e Taxa de Reincidência. Queremos mesmo é ver gente presa! Ver o rico preso, quando acontece, acalma a gente, nos ajuda a pensar que a riqueza dos que estão soltos está isenta de exploração e crime; ver pobre preso, além de ser rotina, também dá segurança… assim como rebelião e crime organizado é um treco que assusta, a gente prefere eles bem dóceis.

A gente sabe, bem lá no fundo, que quando o morro descer, quando sertão virar mar, quando o manifestante parar de hastear a bandeira e passar a queimá-la, é guerra civil, é Revolução e não tem protocolo, coca-cola nem lugar seguro.

Isso assusta.

Classe média é por aí, os mais pobres e aquela classe média capenga mais próxima a base da pirâmide também se servem um pouco disso, pois provamos de produtos culturais coincidentes (televisão, rádio, cinema..) e acabamos por ingerir quase o mesmo discurso, mas eu não me sinto totalmente seguro para falar por eles. Essa é uma prática comum a minha classe, falar dos pobres e pelos pobres ou, em um âmbito mais geral, falar pelo Brasil como um todo coeso. E é aí que fica complicado.

Meus pares e eu temos o olhar treinado pelo consumismo.  A gente acha que uma boa forma de criticar o governo é tratá-lo como um prestador de serviços e nossos impostos como seu pagamento, mesmo sem saber o que é não ter saneamento básico, como em quase metade dos lares brasileiros, ou o que significa cruzar a infame linha da miséria através da obtenção de um benefício social de complementação de renda, como milhões o fizeram nos últimos anos. Resumidamente, muita gente não sabe o que é ver, na prática, uma política governamental se tornar questão de vida ou morte. Em estado de emergência, imagino, e só posso imaginar já que felizmente não passei por isso, a população mais carente não enxerga a relação com o governo como a de um empregador e um prestador de serviços incompetente, mas muito mais como a de um filho negligenciado por pai e mãe ausentes.

E qualquer um que usurpe esse papel, traficantes, milícia, coronéis, vai ter muito poder sobre essas pessoas. Poder de vida e morte.

Outra fato curioso é a inadimplência. Nossa carga tributária nem é a maior do mundo, como muitos dizem, e mesmo assim a União deixa de arrecadar um montante razoável com maus pagadores. Se a analogia estivesse mesmo correta, que prestador de serviço garante a qualidade do trabalho se o pagamento também é sem garantias? O buraco é mais embaixo, sempre é… mas, mesmo assim e independente de tudo, há essa ansiedade absoluta. Há quem queira tirar o governo inteiro de uma vez, trocar por um novo e executar logo todos os presos, “bandidagem” se preferir, fazer a limpa… e colocar outra realidade na gôndola pra comprar e consumir. A gente mal percebe que muitos de nossos sonhos e anseios se tornaram um delírio de consumo… eu mesmo mal tenho certeza de tudo isso.

Outro dia ouvi na rádio um locutor que supostamente repetia um ensinamento de seu pai. A vida é simples – dizia ele – somos nós é que complicamos. Pois é, mas alguém tem que viver essa vida, alguém tem de complicá-la, do que adianta viver se vamos deixar a vida incólume? Nossa realidade, a brasileira, é multi-facetada e o corpo social é permeado de interesses diversos, se não quiser dividi-lo em classes, tudo bem! Mas reconheça que falar com naturalidade por 190 milhões de pessoas não é algo fácil. É muita bolha pra estourar!

A minha está mais ou menos exposta, estou ciente de certas tendências de meu pensamento que procurei expor aqui. E você, qual foi a última vez que parou pra ver o tamanho de sua bolha?

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