Pura Ficção: uma cena

[primeira parte aqui]

Neuza se segurava como podia na moto de João a caminho da cidade, ele parecia não estar acostumado a levar passageiros. Era uma breve porém cansativa jornada que normalmente fazia na boleia de um caminhão que  passava perto de sua casa todo mês, mas, excepcionalmente  desta vez, optara por adiantar sua ida mensal à cidade pedindo então uma carona a João que fazia uns bicos na cidade.

Passaram por um estrada de terra por pouco mais de uma hora que mal se distinguia do restante da paisagem. Não fossem as marcas de pneus, Neuza não acreditaria que aquele era um caminho traçado. Após o sacolejo inicial, a estrada subitamente assumia uma forma e se tornava mais plana com alguns homens trabalhando os entornos com máquinas pesadas. Estavam no povoado, um espaço com ostensiva concentração de moradias e algum comércio local, meia duzia de ruas asfaltadas e até um posto de saúde, porém sem agências bancárias, objetivo de sua busca.

Seguiram por mais uma hora mas, dessa vez, em estrada pavimentada, uma via estadual devidamente sinalizada com intenso tráfico de veículos nos dois sentidos. Os buracos na desgastada estrada, o fluxo de caminhões indo e vindo, sem falar nas ousadas manobras de ultrapassagem dos motoristas (nos quais se incluía João), tornavam a via mais perigosa até do que a estrada de terra batida, não sendo raro encontrar carcaças de carros e caminhões ao longo do caminho. Uma coisa era enxergar isso do alto de um caminhão, outra era passar a mais de 100km/h em uma moto. Neuza estava aterrorizada, mas obstinada em chegar ao seu destino e agradecida pela carona, então manteve-se calada.

Não sem muita aflição, chegaram a cidade. Neuza tirou o capacete e rapidamente limpou as furtivas lágrimas que lhe escaparam no trajeto. João perguntou se estava tudo bem ao que lhe foi respondido que tudo, sim,  era só poeira a irritar os olhos. João combinou um horário de partida com Neuza e acelerou a moto porque já se encontrava atrasado para seu trabalho, deixando-a na frente de uma agência bancária. Ela entrou pela porta giratória e pegou a fila do caixa.

Neuza estava preocupada, era beneficiária de um programa do governo que ouvira dizer estava para ser cancelado. Mais de uma pessoa lá do lugarejo contava a mesma história, conhecia alguém que conhecia outrem que ouvira algo na rádio ou por telefone sobre o corte do benefício. Neuza era a única beneficiária de lá, achavam a burocracia complicada e não era todo mundo que podia colocar todos os filhos na escola regular, uma das exigências do programa. A maioria deixava os filhos aos cuidados da professora Zélia, formada no antigo magistério em tempos idos, que contava com os anciões para lhe ajudar. Os mais velhos então, após anos de trabalho árduo e aposentados pelo cansaço (mas não pela vontade), repassavam seus conhecimentos, em grande parte intuitivos, aos mais novos com o auxílio metodológico e científico de Zélia. Um esquema que parecia funcionar, mas, por exigência do tal programa, obrigava Neuza a forçar seus filhos a pegar um enferrujado ônibus escolar que passava a uma hora de caminhada do lugarejo para uma escola municipal, oficial, mas em piores condições que o as salas de aula do centro comunitário do lugarejo.

O velho ar condicionado, que dava seus últimos suspiros de vida, e os dois caixas em treinamento, que davam seus primeiros bocejos no mercado de trabalho, pareciam não dar conta da volume anormal de clientes naquele horário. A fila andava muito devagar e o ar estava pesado, denso e abafado.  O desconforto era patente na feição das pessoas em fila. Passados alguns minutos, Neuza, já tonta e enjoada, perdeu a noção de si e desmaiou.

Algumas pessoas saíram da fila para acudi-la tomando lugar ao redor de seu corpo que jazia estirado no carpete da agência, sem saber o que fazer. Os outros permaneceram em fila julgando mais honesta a postura indiferente dito que nada poderiam fazer à respeito… ou talvez não quisessem perder seu lugar no atendimento que já era suficientemente demorado sem intromissões extraordinárias.  Sei que tamanho egoísmo é um tanto quanto absurdo, mas me dê licença para narrá-lo nesta obra puramente ficcional e sem compromissos com a realidade. Outros absurdos mais ainda virão.

O impasse durou até que um jovem adentrou a agência afastando as pessoas e pedindo ao gerente um lugar fresco para que pudesse levar a mulher desmaiada, alegando ter visto orientações de como agir em um programa de tv – ela precisa de ar! – ele dizia – leve ela pra fora, então! – foi a resposta que obteve. Com a ajuda de duas ou três pessoas, e após muita discussão com o segurança para abrir a saída de emergência, tiraram Neuza de lá, atravessaram a rua que dava acesso a agência até uma praça cujos os bancos contavam com a sombra providencial de umas poucas árvores.

Enquanto recuperava a consciência, Neuza dava conta de trechos de diálogos e comentários que faziam de si. Duas senhoras sentadas em um banco próximo comentavam da raça que lotava as filas atrás do bolsa-esmola, gente que fazia um monte de filho pra aumentar o binificio. Neuza entendeu que falavam dela quando uma terceira senhora foi confidenciar as outras duas que a desgraçada ali nem tinha pai ao que foi respondida pelas outras que era comum a uma gente com família desestruturada não ter valores.

Era difícil entender tanto ressentimento naqueles comentários maldosos de gente que nem a conhecia julgando-a por tão pouco. Regojizavam-se as velhas senhoras, no caso, com o cartão do benefício e sua identidade com filiação incompleta tirada de seu bolso pelo jovem que a socorreu. Na esperança de que alguém reconhecesse a desfalecida senhora e pudesse se desobrigar de seus cuidados, anunciou seus dados em voz alta para os transeuntes – sem resposta. Passados algum tempo, o jovem se foi e a deixou deitada ali com seus documentos em um dos bancos.

Neuza tentava manter os olhos abertos, mas logo lhe pesava o cansaço nas pálpebras, estava tonta de calor e, sobretudo, de fome. Final de mês era complicado no lugarejo. Tudo era compartilhado, o dinheiro dos que trabalhavam e o benefício de Neuza nas compras feitas no povoado, as eventuais cestas básicas que recebiam e o pouco que produziam na modesta horta que resistia ao solo maltratado pelo sol e falta d’água. Faziam-no por dois motivos: primeiro, por não ser toda casa que possuía um fogão e segundo, porque dessa forma, aprenderam por experiência própria, os recursos duravam um pouco mais e, em meio a miséria, é pouco o que te segura entre a vida e a morte.

Ecoavam em sua cabeça as palavras mordazes à seu respeito, principalmente a parte de fazer filhos proferida com um ódio difícil de entender. Até onde entendia, cada vida nova trazida ao mundo deveria ser considerada uma benção, não só pela devoção ao milagre da vida como também na promessa de mais um braço para ajudar no trabalho na lavoura.

Neuza queria levantar e responder àquelas senhoras, mas era difícil se mover e a passagem do tempo era nebulosa não sendo possível concluir se os comentários houveram sido proferidos há alguns minutos ou algumas horas. Lá permaneceu inerte certa de que seria rude interceder sem ser chamada, conforme fora ensinada desde pequena, e imprudente, devido a seu estado.

Já estava escurecendo quando um policial a cutucou com o cassetete dizendo que ela não poderia ficar ali, a mulher tentou explicar a sua condição, mas ele disse que não era da conta dele e ameaçou usar a força. Neuza despertou de súbito  com uma pancada na barriga e saiu cambaleante sob o olhar atento do oficial até um mercadinho que ficava em um quarteirão próximo, ponto de encontro que marcou com João. A agência já estava fechada, não havia muito o que fazer senão esperar por sua carona e voltar outro dia.

Quando João chegou e disse que precisava comprar qualquer coisa no mercadinho, Neuza abriu mão de seu silêncio cortês e perguntou se era realmente necessário, o que o rapaz estranhou. Neuza ficou constrangida com sua atitude e já ia pedindo desculpas pela grosseria tentando internalizar sua angústia com lágrimas tímidas brotando em seu rosto denunciando seu sofrimento. Vamos – disse João, oferecendo um lenço surrado que tirou de sua calça jeans. Inconsolável, ela subiu na garupa da moto escondendo as lágrimas atrás do capacete amaldiçoando a perspectiva de ter voltar àquele lugar no dia seguinte.

[continua…]

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s