Pura Ficção: uma introdução

Era uma vez uma pequena povoação nos confins de um grande país. Um lugar distante, ilha de simplicidade no complexo social tropical daquela vastidão republicana; uma vila ou, mais adequadamente usando de uma palavra que dê conta da simplicidade e singularidade do cenário apresentado, um “lugarejo” habitado por umas poucas centenas de pessoas. Gente pobre, muito pobre.

Lá, não havia presença de instituições ditas como públicas, repartições, órgãos e fundações segundo as quais a vida coletiva, em tese, não seria possível, mas ainda assim as pessoas viviam em relativa paz e harmonia; lá, não havia também a existência marcada do antagonista setor privado responsável pela vida civilizada. Supermercados, shoppings e o setor de serviços e comércio em geral eram absolutamente ausentes, mas ainda assim seguramente mantinham-se todos distantes da barbárie.

Não, nada além de pequenas casas em fileiras ébrias formando ruazinhas de terra batida em torno de um prédio central um pouco maior, um sobrado do mesmo material precário utilizado nas casas, mas feito com um pouco mais de zelo. As janelas e portas das habitações mantinham-se abertas a maior parte do tempo, exceto nas casas nas quais crianças e idosos necessitavam de repouso e os nem tão idosos e nem tão crianças precisavam se deitar também com finalidades um tanto mais recreativas.

Era tudo marrom até na pele de seus moradores maltratada pelo sol. Habitações de um, dois ou três cômodos, no máximo, lotadas com até quinze pessoas no rodízio de filhos, noras, genros e netos, centros familiares dinâmicos que tornavam difícil delimitar um espaço eminentemente privado legado a esta ou aquela família e, mais difícil ainda, a este ou aquele proprietário.

O prédio central era uma espécie de centro comunitário, embora não recebesse esse nome. No lugarejo, aqui e não tinha muito sentido discernir quando tudo estava a uns poucos passos de distância – onde tudo era aqui. O sobradão, como era chamado, possuía umas tantas salas separadas por estreitos corredores e um grande salão com assentos pra quase todos os habitantes e modesto espaço para aqueles que quisessem se sentar no chão… caso fosse realmente necessário enfiar todo mundo ali.

Algumas salas possuíam finalidade fixa e outras flutuantes. Na conta das primeiras, salas de aula, por exemplo, com lousas agastadas e empoeiradas pelas janelas sempre abertas, buracos quadrados na parede do prédio. Havia ainda duas pequenas enfermarias com macas artesanais improvisadas e uma humilde biblioteca. As salas flutuantes podiam servir desde a mais salas de aula devido a maior procura, a mais enfermarias, devido a moléstias epidêmicas e campanhas de médicos rotativos que atravessavam as estranhas do país, bem como a finalidades mais triviais como partidas de damas ou truco, bate-papos mais tranquilos longe do tumulto nas casas e do sol nas ruas.

Sem um espaço declaradamente público e outro distinguivelmente privado, esse lugar basicamente não existia, um tanto quanto fantasmagórico mesmo em uma descrição de caráter ficcional, permeável a fantasia, por estar invisível aos prismas sociais pelos quais comummente gerimos o nosso olhar. Faltam alguns detalhes que deem conta da inserção política e econômica dessa comunidade, o seu contexto maior, e um estranhamento inicial é inevitável.

Conforme houvera dito, era uma pequena povoação, mas de um grande país. Grande em tamanho e em complexidade o que paradoxalmente acaba nos sendo mais simples de entender do que a simplicidade do lugarejo. O país em questão era uma republica federativa, o que significava um governo pairando sob um conjunto de Estados relativamente autônomos e, dentro destes, municipalidades para auxilio administrativo. Para ser um município, haviam uns tantos requisitos os quais o nosso povoado não preenchia, sobretudo por não possuir um número mínimo de habitantes… ou vontade manifesta destes de se tornar um.

A verdade é que nem sequer povoado eles eram, pois povoado era uma palavra que implicava em uma identidade jurídica naquele complexo país de muitas leis, eram apenas um lugarejo sem nome, anexo de um povoado e, este sim, distrito de um município. Lá haviam bancos, mercados e vendinhas, um maltratado hospital público, prefeitura, câmara de vereadores e etc, todas essas maravilhas do mundo moderno. E à partir de lá também que será possível propor um enredo que movimente a nossa história.

[segunda parte aqui]

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