O Gigante Acordou… e não para de se olhar no espelho.

O povo tomou às ruas, um evento sem precedentes que impacta a nação brasileira, não só pela singularidade que assumiram os últimos acontecimentos na História de nossa jovem democracia, mas também por se descobrir que existe uma nação brasileira a ser impactada (talvez o mais surpreendente e, portanto, único e singular aqui). Em algum momento deixou de ser por causas sociais transversais, internacionais, mas pontuais, e tomou a forma de um nacionalismo tosco. Protestar, então, se tornou um ato de amor pelo País – O que diabos está acontecendo?!

Considero estranho, no mínimo, a ostentação de símbolos nacionais em uma passeata, marcha ou ato que tenha em si manifesta uma intenção contestatória em relação ao poder vigente. A bandeira nacional, a grosso modo, é um dos símbolos usados pelo Estado para firmar o pacto social entre seus cidadãos e cimentar as relações de obediência que subsidiam o poder das instituições ditas nacionais. Pintar o rosto de verde-e-amarelo, enrolar a bandeira no corpo, envolver-se em hinos pátrios e entoar o célebre grito das torcidas “eu / sou brasileiro / com muito orgulho / com muito amor” só diz uma coisa: pertenço ao meu país.

O protesto bem realizado, da forma que eu entendo, é (ou deveria ser) um grito de insatisfação, um tapa na cara daqueles que prometeram zelar pela consecução de direitos e boa distribuição dos deveres no corpo social garantindo assim a harmonia e justiça entre os cidadãos. O protesto é uma forma de contestar a legitimidade do poder, seja pela sua injustiça ou pela incompetência, e ameaçar a segurança daquele que só usufrui e nada contribui em sua liderança. Essa ameaça é necessariamente uma violência ou, no mínimo, desobediência civil das normas instituídas para quebrar a normalidade e desestabilizar o governo. Como diz o chavão eternizado em V de Vingança: o governo é que deve temer o seu povo, e não o contrário.

Mas, a despeito de indagações que a mim parecem tão claras, insistiu-se repetidas vezes em se cantar o hino e vestir a bandeira no corpo, sendo que a Lei já prevê o zelo patriótico – é crime queimar a bandeira e obrigatório cantar o hino em certas solenidades (como eventos esportivos, todo mundo deve bem saber). Trocando em miúdos, nossos protestos se tornaram atos de OBEDIÊNCIA civil onde até mesmo pixar palavras de ordem em edifícios públicos é alvo de crítica, ato enquadrado pelos maioria dos próprios manifestantes, espontaneamente sem auxílio da polícia, como vandalismo e colocado cada vez mais à margem do movimento.

E um governo nada tem a temer de um povo obediente e servil.

A despeito da inconsistência da forma, é inevitável a constatação de que é sim um movimento de insatisfação. E se vamos continuar dessa forma, qual o nível de consciência política daquele que exercita obediência e desobediência ao mesmo tempo? Sinto-me no romance de Orwell, 1984, presenciando a doutrinação do duplipensar, ou doublethink. Este consistiria no ato de acreditar em fatos conflitantes, entendendo-os como explicitamente conflitantes e excludentes (não é uma ato de ignorância), mas mesmo assim os aceitando passivamente. Em outras palavras, é a disciplina de acreditar deliberadamente em mentiras.

Duplipensar, sem dúvida um fenômeno na opinião pública, à princípio radicalmente contra os protestos, mas que, cobrando o preço por seu apoio, paulatinamente vai construindo em seu conceito uma forma correta de protestar. Quem é novo no assunto talvez deixe passar batido essa informação, mas acontece que forma correta de protestar é um paradoxo. Se o objetivo é provocar uma impressão, chocar, qual o uso de tantas regras causadoras de tamanha previsibilidade? Não bastando o nacionalismo, ainda essa importância em ser ordeiro, pacífico… impotente. Da onde veio isso? Inicialmente, não era assim. Como base crítica, vamos falar sobre São Paulo!

O movimento, aqui por minhas bandas, mudou, de fora pra dentro. Metamorfoseou sua forma para o agrado de expectativas novas. Com a adesão maciça veio uma deformação inevitável. A estrutura democrática e livre do MPL permitiu isso, pois, a despeito de seu protagonismo no levante popular, não foi autoritária diante das vozes dissonantes que surgiam – toda bandeira era bem vinda desde que agregasse a pauta central. E do dia pra noite, um mote que era pra ser propositivo (o “não é só por 20 centavos”) desarmou a pauta dando lugar a reivindicações confusas, débeis, como “não à corrupção” “educação” “saúde” e etc. Reinou o senso comum. O movimento, ao se massificar, deixou de ser agudo e se tornou obtuso.

#OGiganteAcordou

E aí então chego de novo ao objeto do texto em minha argumentação carambólica, ao sentimento de brasilidade que permeia as machas recentes. Os atos da MPL serviram de exemplo na cobertura midiática de massa. Retroalimentada pelos preconceitos de sua audiência, a cobertura dos atos enfatizou e reificou as formas certas de protestar: partidos são oportunistas, todos eles, não se dê ao trabalho de pesquisar suas singularidades; o patrimônio, público e privado, é sagrado – vandalismo é coisa de uma “minoria que estraga” a bela festa da democracia que é o povo nas ruas e, por último e não menos importante, não é uma causa social e sim uma causa nacional, moral e pacífica que mobiliza. Todos lutando por um Brasil melhor… seja lá o que esse “Brasil melhor” for.

E o manifestante 2.0 gozou com a ideia de fazer parte do que o homem na TV dizia que era histórico, foi na rua pra tirar foto segurando a bandeira, posando na frente da multidão, socando um petista, enfim, fazendo tudo o que era digno de orgulho se espelhando em um tipo ideal, uma imagem que vai sendo construída do brasileiro que luta por seu país, o ama e protege. E agora a nação brasileira pode bater punheta na frente do espelho, fez bonito, fez História.

Parabéns.

Orgulho é moda, orgulho é foda, fez uma porrada de gente achar por bem sumir com as bandeiras dos partidos de esquerda, tradicionalmente presentes em manifestações, à força e à grito, pois “não representavam” e não ia ficar bem na TV, instagram ou facebook desfilar atrás de bandeiras vermelhas que até ontem o manifestante médio ojerizava. Um orgulho de merda travestido de crítica contra as distorções que de fato existem em nosso sistema partidário. Ninguém, entretanto, cobrava por reforma política (explicitamente), preferiam hastear a bandeira nacional cujo o lema “Ordem e Progresso” diz a que se prestou nossa história sanguinária de exploração e desigualdade: tudo pela Ordem; tudo pelo Progresso. “Só pode a bandeira do Brasil, o movimento é apartidário!” – bradavam os nacionalistas, enquanto outras formas de manifestação, não tão apartidárias, mas permitidas e disseminadas, incluíam cartazes cheios de ternura e crítica como “Dilma, chupa meu ovo!”. No âmbito da corrupção, alguns até arriscaram elaborar uma crítica mais inteligente ao sistema jurídico protestando contra a PEC 37… mesmo sem saber muito bem o que é, mas tudo bem, pouca gente realmente entende de Direito, mas jura de pé junto que o “Mensalão” é o julgamento do século. É preciso manter a coerência, até na ignorância.

Críticas à parte, é preciso reconhecer que, por mais que as manifestações tenham tomado um rumo inesperado, não são absolutamente apáticas. Com disse mais acima, a despeito de seu comportamento contraditório e sua forma conservadora, é um movimento popular e precisa ser respeitado em suas particularidades. Houve resposta, revogação do aumento e até mesmo atitude propositiva da presidenta da república que se comprometeu com cada uma das causas, desde as mais vagas até as mais pontuais. Muito se criticou uma aparente demagogia por parte do governo, mas convenhamos: com pautas demagógicas, de amor ao país e contra a corrupção de algo que é essencialmente bom, a gente está pedindo por demagogia como resposta! Aguardem que muitos salvadores da pátria surgirão. No gozo da auto-imagem, de tudo o que é bonito e patriótico, muita gente quer ser um novo cara-pintada, daqueles que “tiraram” o Collor do poder… mas, nesse esforço, mais nos parecemos com eleitores do Collor que se dizia novo, “caçador de marajás” em seu discurso demagógico e moralista.

No geral, acho que o produto veio melhor do que a encomenda, os resultados tem sido até agora positivos.

A esquerda se surpreende e até tem medo do povo às ruas, parece achar que foi vítima daquele gênio cruel das anedotas que concede um pedido, mas faz o possível pra te ferrar por não especificar o desejo, como por exemplo desejar asas e ser transformado num pombo. Paga-se o preço por um trabalho de base arrogante e ineficiente e, sejamos justos, muito difícil em uma sociedade patriarcal quase impermeável aos ideais de justiça social. O povo está as ruas: é realidade, mas é o mesmo povo que estava em casa de pijama bocejando até ontem. Não há milagre, não somos clérigos pra acreditar num despertar súbito de conhecimentos recônditos inatos. Está aberta a temporada de caça pelas almas e, por hora, ela é verde-e-amarela e não cansa de se olhar no espelho.

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