Um Brasileiro

- sem ufanismo, por um mundo mais crítico.

Resenha de Filme: O Substituto (2011)

Encontrei este filme ao acaso na madrugada, mas não o selecionei arbitrariamente para esta resenha. O filme contava em seu elenco com Adrien Brody. Leva um tempo, mas mesmo quem não tem conhecimento técnico da sétima arte passa a discernir os bons dos maus atores; já os atores fantásticos a gente identifica logo de cara e se torna irremediavelmente cativado. Carisma, talento, capacidade de transparecer as cargas dramáticas do roteiro ou, as vezes, simplesmente um algo a mais que desperta simpatia. Um pouco de cada ou um muito de tudo, não saberia dizer, mas Adrien Brody certamente habita meu panteão de atores fantásticos.

Vi alguns de seus filmes, dos quais os mais memoráveis são: Camisa de Força (2005), thriller psicológico dos bons; Viagem a Darjeeling (2007), comédia dramática ou drama cômico, não tenho certeza, filme de tantas nuances que deixa essas categorias draconianas de locadora no chinelo e, por fim, Meia-Noite em Paris (2011), cuja a ponta na pele do excêntrico Salvador Dali rouba a cena. Recomento todos eles.

Pois bem, vamos ao filme.

Na abertura , com uma frase de um célebre filósofo existencialista, já é possível entrever que se trata de um drama eminentemente humano, total, holístico, e não restritamente pedagógico, um “filme de professor” conforme apresentado na sinopse. Escrita a giz em uma lousa escolar, é possível ler as seguintes palavras emoldurados pelo desenho rústico de um livro:

“And never have I felt so deeply at once and the same time so detached from myself and so present in the world”  Albert Camus

Não sei qual a melhor forma de trazer a frase acima ao português sem alterar seu sentido, por isso transcrevo-a na íntegra. Problemático traduzir o sentido enfático que tem at once and the same time, mas, principalmente, o desafio reside em traduzir detached. Uma aproximação mais óbvia seria desligado o que tornaria, por conseguinte, a tradução do título original (Detachment) em desligamento. Mas pela intensidade da frase e também pela desenrolar do filme que vem a ilustrar o que é esse desligamento de si, vejo que seria uma tradução ineficiente… mas ainda assim um pouco melhor do que, simplesmente “O Substituto” como é proposto. Outro problema é meu desconhecimento da fonte da frase, o idioma natural de Camus é o francês e traduções de traduções costumam levar a distorções grosseiras. Deixemos como está, então.

A suspeita de que a temática escolar é diluída em uma expressão mais total da realidade se confirma em recortes de falas de professores, um breve resumo de entrevistas antes do filme. Estes revelam um pouco a nós de si mesmos e detalhes de sua escolha de carreira. Vemos então uma enorme distância entre o ideal romantizado do educador, chamado ao dever por vocação, e aqueles personagens reais do cotidiano de motivações sensatas e palatáveis a qualquer profissional. Há desde aquele que vê com agrado a carga (aparentemente) aliviada de horas no expediente até aquela que jurou não seguir a carreira da mãe, mas se viu em um período de necessidade e acabou por longos anos na docência.

Possível supor que o que se propicia é um diálogo entre o enredo do filme em um cenário escolar e a miséria humana diante das escolhas. Pois, ao invés de pessoas realizadas como professores, temos professores não realizados como pessoas. Um drama existencialista escrito a giz em uma lousa tal qual sugerida pela imagem mostrada inicialmente.

Elementos diversos e ricos apresentados no início do filme já dão o tom da narrativa e nem por isso o filme torna-se pesado. Há filmes densamente aparelhados de significados e significantes que acabam por perder seu movimento natural, sua cadência, mas esse não é o caso. Após essa breve introdução, o filme segue o curso natural.

Contado através da perspectiva de Brody que encarna o professor substituto Henry Barthes, vemos o que aparentam ser trechos de um depoimento dirigido a um terceiro, policial ou jornalístico, que já nos antecipa a existência de um evento ou finalidade a qual serviria sua fala. A história de quê ou de quem Henry Barthes está contando? Tentarei não dar spoiler aqui.

Acompanhadas dos trechos do depoimento que percorrem todo o longa há o desenvolvimento linear da história de Henry Barthes, no início de seus trabalhos em uma escola problemática da periferia, além de eventuais imagens de sua infância. São três momentos, portanto, evidenciados de forma clara ao espectador. Sendo o depoimento feito em uma pequena sala em plano fechado, e as imagens da infância com uma fotografia própria, turva e sem diálogos, necessitando do desenvolvimento da trama do momento central, com a forma mais livre, para ser significada.

No contato com seus alunos, temos a primeira ligação do protagonista com o argumento apresentado com Camus, ao início. Um aluno confronta o professor substituto, joga sua mala de canto e o ameça com violência.  Henry não se retrai, retruca simplesmente dizendo que não há nada de valor que ele possa quebrar em sua mala, nem nada que ele machucar em sua pessoa. O aluno fica sem reação, o professor segue com sua apresentação.

E esse desligamento de si mesmo e com tudo, uma aparente assincronia com coisas que a outros talvez fossem tão caras, como nesse caso a sua integridade física, vai permitir a Henry se ligar ao mundo de outras formas. Uma dualidade entre sua aparente frieza e um zelo pelo outro que o denuncia em sua capacidade de sentir vai percorrendo todo o filme.

A aluna que sofre com o assédio moral dos pais, o professor esgotado que assume sua invisibilidade, o pai doente e delirante e Erica, a criança perdida na prostituição e no abandono, são alguns dos personagens que acompanham (e se chocam com) Henry na trama. Dramas humanos sob o teto da escola.

O papel de professor substituto reforça o distanciamento tornando-se, inclusive, uma necessidade de sua função. A diretora, no momento da assunção de seu cargo, ironiza a referência de Henry como o melhor professor substituto da região. Como poderia ser alguém “o melhor” em uma função temporária? Como poderia ser o melhor em uma função que não é função, mas uma subfunção da docência?

Quem trabalha com ou simplesmente tem sensibilidade para os assuntos relacionados ao ensino, sabe que é fundamental ao professor construir uma relação sólida de confiança e respeito com sua classe, algo que leva tempo. Não são só condições materiais ou a existência de uma pedagogia x ou y, mas um compromisso com um projeto que parte do reconhecimento das duas partes: dos professores com seus alunos e vice-versa.

Henry Barthes ensina literatura e nos excertos de suas aulas vemos sua tentativa de sensibilizar os alunos para a importância de sua disciplina. A despeito de, enquanto narrador, dizer que ao seu empregador só importa manter a classe “sob controle” até a chegada do professor definitivo ou mesmo de sua declarada desesperança de chamar os alunos ao amor pelas Letras, vemos o professor substituto fazer um belo esforço para quem, à princípio, não se importa ou não acredita em seus alunos.

Assimilação ubíqua – o termo de que se utiliza – como viver em um mundo onde todas as imagens já são dadas e não exercitamos nossa imaginação? – é sua indagação. A conclusão é dada na voz de Orwell em 1984 – duplipensar – diz ele – sem o recurso de nossas próprias mentes acreditaremos deliberadamente em mentiras. Daí a importância da literatura, criar nossas próprias imagens, cultivar nossa imaginação.

O distanciamento dá uma condição de observador a Henry ao ser um passante na vida daqueles tantos alunos. O irônico é que talvez tudo o que os alunos de um sistema educacional falido de prioridades nefastas precisam é de que alguém que os olhe, de verdade para variar.

Não é um simples “filme de professor”, conforme o dito, tanto que quem vem a resgatar os alunos é um não-professor. Entretanto, o longa é lúcido em expressar os dilemas da instituição escolar, desde a prioridade a políticas econômicas até aos pais desinteressados e ariscos, prováveis frutos da primeira leva da falência geral das instituições de ensino. Em suma, nem a escola escapa do caos das arbitrariedades da vida, deixou de ser um espaço de exceção, de segurança, em algum momento.

Porém, o filme não deixou de me tocar enquanto educador. Alertando para a importância da condição de afastamento que se impõe ao observador, que não o impede de retornar a si para fruir de seu olhar, o longa promove uma melhoria existencial humana. Talvez, não sendo possível por agora salvar a escola, ainda seja possível, com algum distanciamento, salvar um pouco de nossa humanidade.

About these ads

Uma resposta para “Resenha de Filme: O Substituto (2011)

  1. Ruana Sandes 27 de maio de 2014 às 12:21

    Ótima resenha! O filme é muito bom. Recomendo.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: